Um dia de Libélula, um festival multicultural

- Atualizado às 19:12
Por - Adriane Perin, especial para o Barulho Curitiba

Manhã de sábado, 28 de dezembro de 2019. Sol queimando alto, partimos de Curitiba rumo ao Acampamento do Tio Miro, uma chácara, em São José dos Pinhais, a 50 km de Curitiba, que recebeu, de última hora, a primeira edição do Libélula, festival multicultural que nasce pequeno, mas com DNA forte de reconhecida veia alternativa, com a assinatura de um dos criadores do Psicodália, o produtor e músico Alexandre Osiecki.

Em sua primeira empreitada pós-Psicodália - festival que ao longo dos últimos anos reuniu diferentes gerações da música brasileira, promovendo encontros de diferentes gerações de artistas brasileiros de ontem e de agora, além de importantes atrações internacionais –, ele optou por atrações próximas em um lugar com boa estrutura para receber um público enxuto. Guardadas as proporções, no mais todo o clima, as pessoas, os movimentos, as atrações, a rádio interna e o lugar já deixavam claro que a expectativa de vivenciar uma experiência, muito mais do que estar unicamente em um festival de música, estava garantida mais uma vez! Na paz do silêncio que só a mata verde é capaz de proporcionar, a vida correu em outro ritmo naquelas doces horas de Libélula. E como os shows acabavam relativamente cedo ainda deu tempo de ouvir a cantoria forte de sapos que devem ser gigantes! Menos gente, mais espaços para os silêncios entre os sons da natureza.

Com tempo limpo, estrada de terra seca e o trânsito ajudando, apesar de um pequeno congestionamento na saída da capital, a chegada na chácara foi tranquila e a recepção por um segurança simpático e bom de conversa.  Com o povo acordando da primeira noite, nos conduziram até um lugarzinho supimpa para deixar o carro ao lado da barraca, na sombra, para uma única noitada.

O melhor lugar entre o final da manhã e o final da tarde era sob a tenda do palco, de porte médio, sobre a grama, curtindo as passagens de som e desacelerando, entrando no clima, enquanto o povo ia acordando e escolhendo o seu lugar para ver os shows que viriam. Tamanho ideal que trouxe uma proximidade legal e uma ampla área para a plateia, que se estendeu na grama tomada por colchonetes, almofadões, caixas de cerveja e pessoas curtindo desde a passagem de som. A impressão foi de um público mais maduro e tranquilo.

No palco, era o dia das mulheres, com Thais Morell, Eliz Bueno e Cátia de França, mas quem abriu a trilha sonora daquele dia foi o incrível François Muleka, um ‘nego dito, Benedito’ refeito diante de nós, para nosso deleite, sozinho no palco com seu contrabaixo, ‘conversando’ com a plateia como se fôssemos amigos queridos, entre uma música e outra.  Showzaço daqueles que quero repetir mais de perto, no teatro Paiol seria lindo!

Depois veio outra surpresa, a catarinense Eliz Bueno firme no comando, à frente de uma banda muito boa, e mostrando que tem domínio de palco e boas canções para encarar o que vier. E assim a tarde correu mansa sob o toldo diante do palco.

Em seguida foi a vez de Thais, a curitibana com pegada flamenca, baita instrumentista, e que ficou absolutamente à vontade com as levadas regionais brasileiras nordestinas em um show muito bacana, que levou a plateia suavemente da tarde quente para uma noite amena - que, no fim das contas, não teve o frio anunciado na beira da Mata Atlântica, afinal fôramos avisados que a noite podia fazer até 10 graus... Não fez e a blusa ficou mesmo largada na grama, afinal estava tudo perfeito para dançar naquela noite! De quebra, Thais ainda fez uma participação pra lá de especial no show de Cátia de França, mostrando a musicista competente, desta vez com a flauta.

Pausa para um lanche e dar uma caminhada pelo local antes de ficar frente a frente com a paraibana Cátia de França, celebrando os 40 anos de seu segundo disco, uma preciosidade que quero conhecer melhor. Esta senhora que tem perto de 80 anos encerrou a segunda noite do Libélula acompanhada de uma super banda com músicos que atuam em Curitiba. Dancei, dancei e dancei! Tivera a oportunidade de ver um trecho do show dela no Psicodália – antes disso, confesso que não a conhecia - e fiquei impressionada. Desta vez consegui ver tu-dinho!  Showzaço também no encerramento da noite, que teve festa surpresa para quem ainda queria curtir.

Um dia apenas e foi o que bastou para sentir o potencial do Libélula! Foi reconfortante a chance de dar tchau desse jeito para um ano tão desgastante! Foi uma delícia estar ali entre as pouco mais 700 pessoas e presenciar o nascimento de um festival tão bacana! Simples, feito por um equipe pequena, mas com tudo que a gente precisava para ficar bem. Com essa quantidade de pessoas, não havia fila, praticamente.

Pastel e pizza deliciosos – e até do chopp pilsen eu gostei! Quem preferia suco podia inclusive fazer seu próprio, pedalando. Yoga, mergulhos, atividades para as crianças, espaços para vôlei, teatro, cinema. Como a estadia foi só uma noite escapei da pendenga dos banhos. Teve falta de água no meio da tarde, mas, aparentemente, os apelos feitos pela rádio do festival para diminuir tempo de banho deu resultado porque pouco depois e na manhã seguinte tudo estava impecável nos banheiros femininos incrivelmente limpos!

Ah, quase ia esquecendo dos dois labradores que, literalmente, iniciaram por mim um simpático ‘atropelamento’ coletivo da plateia, brincando felizes, se derrubando sobre as pessoas, belos e faceiros. Nos restou, a todos, ir pro lado enquanto eles espalhavam sua alegria entre nós!

Parece difícil que o Libélula continue por mais tempo naquele lugar, pois a boa notícia vai se espalhar com o vento. Mas a região de Curitiba merece um festival como este! O próximo já está marcado para o Carnaval, em Rio Negrinho, no interior de Santa Catarina. De minha parte, fico na torcida para que continue a acontecer bem por perto de Curitiba e que venham muitas edições!

Mais informações sobre o Libélula de Carnaval AQUI

 

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