‘Sociedades secretas’ apoiam mulheres que buscam aborto em Curitiba

- Atualizado às 20:16
Por - Narley Resende

Uma entidade que afirma não ter fins lucrativos e ser conveniada a parceiros de diversas cidades do País se oferece para prestar auxílio a mulheres que engravidaram e querem abortar. O trabalho, em um primeiro momento, atrai a mulher com a gravidez indesejada por meio de oferta de “apoio”, o que para algumas sugere a possibilidade de orientação a um procedimento “seguro” de aborto. Mas é apenas uma isca. A intenção, segundo integrantes da entidade, é salvar vidas.

Em um dos casos, a primeira das “iscas” para atrair mulheres que pensam em abortar está na identificação de um site. A descrição é utilizada para direcionar pesquisas no Google, por exemplo, com os termos “Cytotec” (remédio indicado para o tratamento de úlcera, mas utilizado para abortos); “como abortar”; e “clínica de aborto”. Com isso, quando a pessoa pesquisa pelos termos no Google é mais provável que seja direcionada ao site. A plataforma, chamada “Gravidez Indesejada”, parece ser a mais estruturada entre outros sites que existem no Brasil. Diz pertencer a uma associação que declara ter “20 anos de experiência em ajudar as mulheres com uma gravidez indesejada”. Em Curitiba, o grupo conveniado trabalha há sete anos, segundo as integrantes. O site nacional promete atendimento “personalizado, sigiloso e gratuito” para que as mulheres grávidas possam “resolver rapidamente e de forma segura os seus problemas”.

Em uma de suas seções, o portal responde dúvidas comuns sobre o uso do misoprostol (Cytotec é o nome comercial disponível hoje, da substância que é utilizada em hospitais brasileiros para realização do aborto legal – e que também é usada para abortos ilegais).

Em um campo, então, o site oferece um chat de contato para que sejam tiradas dúvidas. No chat, uma pessoa pede dados pessoais da interlocutora e diz que alguém de sua cidade ou região entrará em contato por meio do aplicativo Whatsapp.

Outro meio utilizado para atrair mulheres que querem abortar é o “boca-a-boca”. “Quando uma amiga sua pergunta se você sabe de alguém para indicar, você passa o nosso contato. Ela (a mulher) pensa que se trata de um esquema de aborto e nos encontra”, detalhou à reportagem uma “agente da vida”, com se autointitula a integrante do grupo, que se apresenta como “Maria”.

Até chegar a ela, a reportagem precisou recorrer a meios não-convencionais. Questionada através de um número de Whatsapp disponível na capa do site, a pessoa que responde diz ser responsável pela “Associação Mulher” afirmou que “não participa de reportagens”.

Após a negativa oficial, a reportagem, então, se passou por uma grávida no chat disponível no site. Após um cadastro, o repórter recebeu mensagens de uma pessoa que se identificou como “Jhonatan”. O jornalista se passou pela personagem Bianca, de 25 anos, grávida de 8 semanas.

Veja transcrição de parte das conversas

Jhonatan: Você deseja abortar?
Bianca: Sim. É de graça?
Jhonatan: Não trabalhamos com remédios, pois no Brasil eles são falsos e não funcionam. Golpistas se aproveitam do desespero das gestantes e vendem. Às vezes nem chegam a entregar e, quando entregam, é de farinha.
Bianca: Vocês fazem a curetagem?
Jhonatan: Somos uma ONG e eu lhe encaminharei para uma clínica.
Jhonatan: Mas não trabalhamos com remédios.
Bianca: Tem médicos?
Jhonatan: Creio eu que sim.
Bianca: Na clínica eles fazem todo o aborto? Sabe se precisa internar?
Jhonatan: Geralmente nos processos de aborto sai no mesmo dia, mas eles vão lhe explicar melhor pessoalmente.
Bianca: A pessoa vai me ligar?
Jhonatan: Sim, ou ligar, ou chamar pelo Whatsapp.
Bianca: Já vai ser a pessoa da clínica?
Jhonatan: Sim, sim.
Bianca: Sabe se eu posso levar alguém comigo?
Jhonatan: Claro, deve.

No mesmo dia, uma pessoa de um número já com prefixo de Curitiba entra em contato.

Maria: Boa noite. Vc está com gestação indesejada?
Bianca: Sim. Eu quero fazer um aborto. Quanto é?
Maria: Não tratamos disso por aqui.

Encontro marcado com voluntárias de suposta ONG

Um encontro é marcado entre “Maria”, da suposta ONG, e “Bianca”, o jornalista disfarçado, às 11 horas, em frente a uma farmácia de um shopping de Curitiba, “para explanação dos métodos”. Antes, Maria sugere que Bianca “não tome nenhum remédio”. Ela se diz “profissional da saúde”, diz que vai passar a utilizar outro número de telefone, também com prefixo de Curitiba, e então marca um exame de ecografia para “Bianca”, numa clínica da Capital, às 15h30 de uma terça-feira. “Na recepção diga que tem uma cortesia com o doutor (...)”, diz Maria.

O repórter faltou ao exame, mas foi ao encontro de Maria no shopping. Lá, ele se identifica como “Neto”, namorado de Bianca. Maria é uma mulher de aproximadamente 45 anos e está acompanhada de outra mulher. Elas lamentam a ausência de Bianca.

Em seguida passa a explicar métodos abortivos, um a um, de “sucção” a “envenenamento”, até sacar de uma bolsa uma pasta com folhas plastificadas que mostram imagens horrorosas do resultado de abortos, tópicos com supostas consequências e outras informações aparentemente extraídas da internet. No decorrer da conversa, mais à vontade, vem a revelação: “Olha, na verdade, nós somos pessoas boas, vocês também são, mas o que nós fazemos é mostrar para vocês tudo que isso (aborto) pode causar”, diz.

Em seguida, a proposta: “se vocês realmente não mudarem de ideia, nós damos todo o apoio durante a gravidez, temos um local para atendimentos diários, se precisar, com psicólogos, terapeutas e outras pessoas na mesma situação e, se ainda assim vocês não quiserem o bebê, nós damos toda a assessoria para a adoção legal”, explica.

Maria adianta, que “é raro” uma mãe concluir o processo de adoção depois que vence o período de gravidez. “A maioria desiste. Já participei de uma audiência, em que eu estava na sala com a juíza, esperando a mãe, e seis minutos antes a mãe desistiu de tudo e quis ficar com a criança”, conta. Há, segundo Maria, porém, aquelas que entregam o bebê. “De cada dez (mães), uma, que a gente atende, entregam (o filho recém-nascido) para adoção. Mas são os casos de muita miserabilidade”, aponta.

Ainda convencida de que Neto é o namorado de uma grávida, Maria finaliza dizendo que “recém-nascidos são adotados com muita facilidade”. “Mas eu digo que se vocês decidirem fazer a coisa certa, quem faz o bem, colhe o bem, e posso te dizer isso com toda certeza, pois tenho muita experiência”, diz. Ao fim da conversa, Maria conta que em sete anos de atuação em Curitiba, o grupo salvou “cerca de 600 crianças”, além de mães que escaparam dos riscos, descritos por elas em detalhes, do aborto clandestino. A conversa ficou por ai.

Desde o primeiro contato com o site até o encontro pessoal foram quase duas semanas. Durante esse tempo foram várias conversas por telefone e outros meios em redes sociais. Todos os questionamentos da “grávida” eram sempre respondidos.

Em uma apuração avançada, realizada pelo site A Pública, que trabalhou de maneira semelhante, mas com uma repórter grávida, a conclusão foi de que a partir do mesmo site, mas com ramificação de outro Estado, a equipe do site atrai as mulheres grávidas para uma sede da organização. Lá, elas são dissuadidas de interromper a gravidez por psicólogos ligados a igrejas católicas, Ortodoxa ou Opus Dei, e assistem a slides sobre as consequências negativas do aborto na vida da mulher.

O site da Agência Pública publicou no ano passado a reportagem investigativa que teve origem em um e-mail recebido por um dos repórteres da agência. Além da reportagem, o e-mail resultou também em uma checagem do Truco – projeto de checagem de fatos da Pública. O Truco verificou a veracidade de quatro alegações do site sobre os riscos do misoprostol como método abortivo. A apuração concluiu que três das frases são falsas, portanto, há informações equivocadas no campo que se propõe informativo. Embora seja embasado em uma política anti-abortiva, sem dúvida bem intencionada, o site acaba apelando à desinformação.

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Nas sombras

Outro lado: grupo orienta para um procedimento ‘seguro’

Voluntárias ‘secretas’ atuam em Curitiba para orientar a grávida sobre o aborto. Grupo tem inspiração em movimento na Argentina, conhecido como Socorristas em Rede

Um grupo de mulheres que dá apoio e instrução para mulheres que de fato fazem abortos também foi identificado em Curitiba. Não há, nesse outro grupo, qualquer atividade econômica, pagamento ou arrecadação. As integrantes apenas passam instruções sobre como abortar da maneira mais segura possível. Ainda mais cuidadoso, o grupo de voluntárias, algumas delas mulheres que passaram por processos traumáticos de aborto, são conhecidas apenas por meio de indicação.

“Alguém que conhece alguém que nos indica. Em geral, sempre tentamos evitar o aborto e conseguimos. Mas algumas pessoas são irredutíveis. Então, indicamos o mais seguro possível, o que é baseado em pesquisa, em muita leitura do que é científico mesmo. E tiramos o time de campo. O Estado deveria fornecer essa segurança. Tem gente que vive um desespero muito grande, que fica à mercê do mercado negro, das carnificinas mais inimagináveis”, conta uma das integrantes de uma “sociedade secreta” que pediu para não ser identificada. Ela defende a legalização do aborto como medida de saúde pública. “Entenda: elas vão fazer, de um jeito ou de outro”, pontua.

Na Argentina, a atividade é praticamente institucionalizada. Quando as argentinas tomaram as ruas de seu país para exigir a legalização do aborto no ano passado, a procura pelo serviço voluntário aumentou. De acordo com reportagem do site The Intercept Brasil, uma militante do grupo, Camila Zurbriggen, de 25 anos, e outras mulheres formam a Socorristas en Red (Socorristas em Rede), um grupo de voluntárias de várias áreas espalhado por toda a Argentina. Elas têm a missão de ajudar mulheres a abortar com segurança em um país em que a interrupção voluntária da gravidez ainda dá cadeia. As orientações, com o descritas no site oficial do grupo, são baseadas nos protocolos da OMS.

Encontrar um site que oriente para uma clínica de aborto em qualquer lugar do País não chega a ser uma missão complicada. Apesar de tudo correr sob sigilo e distante dos olhos da sociedade, não é difícil encontrar canais para este fim, bastando buscas simples na própria internet ou com a indicação de algum conhecido. Tanto que em dez anos, cerca de 2,1 milhões de brasileiras foram atendidas em unidades de saúde por complicações pós aborto.

Matéria foi informada para a polícia

Em Curitiba, a reportagem relatou passos da investigação sobre o site “Gravidez Indesejada” ao Núcleo de Combate a Crimes Cibernéticos (Nuciber) e ao Núcleo de Combate a Crimes de Saúde (Nucrisa). O método utilizado na atração de mulheres com gravidezes indesejadas poderia ser utilizado, por exemplo, para sustentar uma rede de exploração de abortos, não como das chamadas “aborteiras”, em uma prática avessa, diferente de grupos organizados que orientam mulheres em práticas consideradas mais seguras de se por fim a uma gravidez, mesmo que ilegalmente, para evitar riscos ainda maiores às mulheres.

Pela forma como as abordagens são realizadas, a única maneira de se descobrir eventual esquema seria a atuação direta de uma mulher grávida na investigação em longo prazo, ou por métodos policiais. Outra suspeita seria a de um sistema de adoção ilegal. Mulheres que insistem em não assumir a gravidez seriam instigadas a aguardar o nascimento para então doar a criança a integrantes dessas instituições. Nada disso, no entanto, foi comprovado.

A Polícia Civil informou que não há denúncia nesse sentido ou investigação em andamento. Mesmo assim, o delegado Demetrius Gonzaga, do Nuciber, pediu para ser informado sobre qualquer indídcio de crime.

O delegado afirmou que a polícia identificaria facilmente a origem dos sites enviados pela reportagem, por meio da identificação do IP (Internet Protocol), que é a identificação dos computadores.

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