Roberto Carlos, a voz do samba de Paraná

Por - Histórias que o Ayrton Baptista Junior vasculha desde o radinho de pilha
Luiz Carlos Paraná nasceu em Ribeirão Claro, norte Pioneiro do Estado
Luiz Carlos Paraná nasceu em Ribeirão Claro, norte Pioneiro do Estado (Foto: Divulgação)

Roberto Carlos não gravou muitos sambas. Um deles foi ‘Amélia’, o clássico de Mario Lago e Ataulfo Alves. Outro destes poucos foi obra de um paranaense: Luiz Carlos Paraná, autor de ‘Maria, Carnaval e Cinzas’. Então, se você pensa que paranaense não sabe de samba, saiba que o Rei discorda.

O compositor nascido em Ribeirão Claro, norte pioneiro do estado, circulava muito bem em São Paulo, onde foi dono da boate O Jogral, frequentada por Elza Soares, Paulo Vanzollini, Chico Buarque e por quem mais tenha ocupado a maior vitrine musical do país nos anos 1960: a TV Record. E foi em um dos festivais da Record, o de 1967, que o samba de Paraná ganhou a voz daquele que já era o Rei da Jovem Guarda (o programa de Roberto nas tardes de domingo estreou em 1965).

“Maria, Carnaval e Cinzas” não se tornou canção cativa no repertório real. Porém, aquele festival virou verbete básico na enciclopédia da MPB. Ouçamos as quatro primeiras colocadas: 1ª) “Ponteio”, de Edu Lobo; 2ª) “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil; 3ª) “Roda Viva”, de Chico Buarque; 4ª) “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso. Para quem ligou o rádio agora: estas canções de Gil e Caetano foram o abre-alas do tropicalismo para o grande público.

E naquele auditório em brasa, que defendia cada música como se ali estivesse em jogo a própria vida, Roberto Carlos cantou o belo samba de Paraná. Sem perceber, um samba que percorria aquela máxima de Vinícius de Moraes, segundo a qual “para fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”.

Vítima de uma cirrose decorrente de hepatite, Luiz Carlos Paraná tinha apenas 38 anos quando morreu, em dezembro de 1970. Apesar da vida boêmia, o ex-lavrador de Ribeirão Claro não era adepto da cerveja, nem do uísque. Dizem que era difícil vê-lo bebendo. A biografia escrita por Thiago Sogayar Bechara entrega: “Luiz Carlos Paraná — O Boêmio do Leite”.

MARIA, CARNAVAL E CINZAS

Nasceu Maria quando a folia
Perdia a noite ganhava o dia
Foi fantasia seu enxoval
Nasceu Maria no carnaval
E não lhe chamaram assim como tantas
Marias de santas, Marias de flor
Seria Maria, Maria somente
Maria semente de samba e de amor

Não era noite, não era dia
Só madrugada, só fantasia
Só morro e samba, viva Maria
Quem sabe a sorte lhe sorriria

E um dia viria de porta-estandarte
Sambando com arte, puxando cordões
E em plena folia de certo estaria
Nos olhos e sonhos de mil foliões

Morreu Maria quando a folia
Na quarta-feira também morria
E foi de cinzas seu enxoval
Viveu apenas um carnaval
Que fosse chamada então como tantas
Marias de santas, Marias de flor
Em vez de Maria, Maria somente
Maria semente de samba e de dor

Não era noite, não era dia
Somente restos de fantasia
Somente cinzas, pobre Maria
Jamais a vida lhe sorriria

E nunca viria de porta-estandarte
Sambando com arte puxando cordões
E não estaria em plena folia
Nos olhos e sonhos de seus foliões

E não estaria em plena folia
Nos olhos e sonhos de seus foliões

Maria, Maria, Maria

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