PUC nega ceder espaço para evento LGBTI+; Coletivo fala em censura

- Atualizado às 14:00
Por - Rodolfo Luis Kowalski
(Foto: Reprodução)

Fundado em meados de maio deste ano, o Coletivo Estudantil Diversidade (CED), que tem como objetivo promover a conscientização, debates e pesquisas em relação ao público LGBTI+, teve negado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) um pedido para a cessão de um auditório, onde seria realizado o evento de lançamento do CED.

Segundo os estudantes que participam do movimento, a negativa teria partido, primeiramente, da coordenação do Curso de Direito. “Primeiro (a negativa) veio através do coordenador do curso de Direito, diretamente para mim, e hoje de manhã foi reafirmada pelo coordenador junto com o Setor de Identidade da Instituição”, conta
William Antônio Costa Grande, fundador do Coletivo.

Em nota de repúdio divulgada nas redes sociais, o CED apontou que a negativa da instituição teria sido uma forma de censura.

“Fomos supreendidos com resposta negativa da instituição, afirmando que não apoiaria (nem com a liberação de seus espaços) movimentos estudantis que tratem de 'pautas de fronteira' (sic). Diante disso, anunciamos NOSSO TOTAL REPÚDIO À PONTIFICA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ, por mostrar-se retrógrada e conservadora em relação à uma pauta social (e acadêmica) tão relevante”, escrevem os participantes do Coletivo na nota de repúdio, divulgada nas redes sociais.

Segundo Luan Sampaio, que também participa do CED e é estudante do curso de História da PUCPR, os acadêmicos sempre tiveram liberdade para reservar espaços acadêmicos e utilizá-los em eventos. Por isso a negativa da instituição foi recebida com surpresa pelos estudantes.

“Isso daí é novidade. A PUC sempre foi muito democrática e até recebemos com surpresa (a negativa), não era algo esperado. Acredito que o evento que gostaríamos de organizar, de forma mais pública, aberta a vários cursos, acabou gerando um certo desconforto e (ocasionou) esse posicionamento da PUC”, opina.

O outro lado

Por meio de nota, a PUCPR afirmou que o Coletivo Diversidade não teria seguido os trâmites internos necessários para a realização de qualquer atividade acadêmica e que, "para salvaguardar o diálogo e evitar toda forma de intolerância nesse momento conflituoso", a Reitoria da PUCPR, o curso de Direito, juntamente com a Diretoria de Identidade da Universidade, "não endossa a realização do referido evento no Câmpus".

Abaixo, confira, na íntegra, a nota da instituição:

O Coletivo Diversidade, em uma iniciativa própria, definiu a realização do evento de fundação nas dependências da Universidade, no dia 28/08, sem seguir os trâmites internos necessários para a realização de qualquer atividade acadêmica. Para salvaguardar o diálogo e evitar toda forma de intolerância nesse momento conflituoso, a Reitoria da PUCPR, o curso de Direito, juntamente com a Diretoria de Identidade da Universidade, não endossa a realização do referido evento no Câmpus.

Cônscios de que a antropologia fundamental do processo de ensino-aprendizagem da PUCPR é pautada pelos valores do Evangelho, entendemos que o debate acerca da diversidade e da interculturalidade é extremamente necessário, sendo o ambiente acadêmico, local propício para o desenvolvimento de pesquisas, grupos de estudo e fóruns sobre estes e outros temas, como acontece na Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Amparados na tradição Marista, estamos abertos ao diálogo, por meio do respeito, da acolhida e da sinergia resultante das nossas relações a partir das expressões da cultura, seus agentes e contextos.

“Mais um motivo para gente não desistir”

De acordo com William Costa Grande, o Coletivo Estudantil Diversidade já conta com o apoio de mais de 100 estudantes, mais da metade dos Centros Acadêmicos e também do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da PUCPR.

“Os estudantes estão enfurecidos, se sentindo lesados, discriminados. Entendemos que todos têm o direito de se manifestar, independente da pauta, desde que não confronte direitos e liberdade de ninguém”, afirma ele, contando ainda que os convidados, ao saberem da negativa da instituição, ficaram bastante chateados.

“Uma situação desconfortável. São militantes da área, pessoas preparadas, competentes. Acharam um absurdo e indicaram contatos para gente conversar e tentar resolver. Se colocaram à disposição deram conselhos e falaram que isso é motivo para fortalecer, que mostra a necessidade de fortalecermos o Coletivo. Mais um motivo para gente não desistir.”

A expectativa dos participantes do coletivo, agora, é que a PUCPR volte atrás em sua decisão e libere o espaço para realização do evento. “Vamos tentar conversar com o pessoal do núcleo de Direitos Humanos, se nos apoiam nesse evento e outras atividades programadas para o semestre. Criamos em maio o Coletivo, agora começaríamos a desenvolver mais os projetos e recebemos essa notícia não muito boa inicialmente. Mas a luta continua. No final das contas esperamos que essa atitude seja isolada, que esse caso seja isolado e possamos prosseguir, aponta Luan Sampaio.

Já William destaca que, caso não seja possível realizar o evento dentro da PUC, o Coletivo irá buscar um espaço fora da instituição. “Já estamos vendo isso, mas ainda esperamos que a PUC libere o espaço para que possamos fazer o evento, desenvolver os trabalhos do coletivo.”

DCE, Centro Acadêmico Sobral Pinto e Grupo Lara Lemos se posicionam

O CASP, Centro Acadêmico do Curso de Direito, também divulgou na noite desta quinta-feira (22 de agosto) uma nota sobre 
o episódio envolvendo o Coletivo Estudantil Diversidade. A nota de repúdio, divulgada no perfil da entidade no Facebook, aponta que a PUCPR teria alegado que "não apoiaria eventos de grupos ou movimentos estudantis com forte apelo ideológico, sejam eles de esquerda ou de direita, e que a partir de agora a universidade iria solicitar e analisar os projetos, de forma bem detalhada, para certificar sua adequação com as diretrizes do Grupo Marista."

Ainda segundo o CASP, uma nova reunião foi realizada hoje com membros da Diretoria de Identidade e da Coordenação do Curso de Direito da PUCPR. A situação, contudo, não foi revertida mesmo após o diálogo porque os funcionários da Universidade teriam alegado tratar-se de uma posição institucionalizada.

"Dessa forma, nos manifestamos contrariamente à posição do Grupo Marista em não conceder a reserva de auditório para a palestra de fundação do referido coletivo, pois entendemos que a universidade deve acolher todos os seus estudantes, independentemente de posicionamento político, étnico,racial, de gênero e de orientação sexual. A universidade deve ser, sobretudo, um ambiente plural."

Nesse mesmo sentido também foi o DCE e o Grupo Lara de Lemos - Mulheres de Direito da PUCPR. "Mesmo após duas reuniões com a coordenação do curso de Direito e com a Diretoria de Identidade, a faculdade continuou se negando a conceder ao coletivo um espaço para a realização do evento de lançamento do grupo, inclusive alegando que o coletivo é uma “causa de fronteira”, escreveram os estudantes. "Por isso, é de entendimento do Lara, que a luta contra a LGBTfobia dentro da universidade também deve ser constante e diária. É preciso seguir investindo em políticas de acolhimento para que as todas as pessoas se sintam a vontade com suas individualidades, o que inclui suas sexualidades. Integrar e acolher os estudantes é um dos papéis da instituição de ensino. Essas políticas passam exatamente pelo Coletivo da Diversidade, e a falta de apoio da universidade demonstra que a PUC, como instituição de ensino superior, ainda tem muito a crescer e se aprimorar nesse sentido."

Confira abaixo, na íntegra, a noite de repúdio divulgada pelo Coletivo Estuidantil Diversidade (CED)

NOTA DE REPÚDIO

COLETIVO ESTUDANTIL DIVERSIDADE PUCPR

Em 16/05/2019 fundou-se na PUCPR o COLETIVO ESTUDANTIL DIVERSIDADE (CED), que tem por objetivo promover a conscientização, debates e pesquisas em relação ao público LGBTI+, por meio de políticas acadêmicas dentro da Universidade. Desde a fundação o coletivo teve mais de 100 apoiadores, dentre estudantes, Centros Acadêmicos, Grupos estudantis etc.
Para iniciar os trabalhos do CED, organizamos um evento de lançamento, agendado para o dia 28/08, com o objetivo de demonstrar a importância dessa abordagem dentro da Universidade e apresentar o planejamento desenvolvido para o Coletivo.
Para realizar o evento, buscamos reservar um auditório da PUCPR, o que é comumente feito pelos acadêmicos ao desenvolverem seus eventos. Todavia, fomos supreendidos com resposta negativa da instituição, afirmando que não apoiaria (nem com a liberação de seus espaços) movimentos estudantis que tratem de “pautas de fronteira” (sic).
Diante disso, anunciamos NOSSO TOTAL REPÚDIO À PONTIFICA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ, por mostrar-se retrógrada e conservadora em relação à uma pauta social (e acadêmica) tão relevante.
Tal posicionamento revela ainda mais a necessidade de nos colocarmos em posição de enfrentamento ao preconceito com causas LGBTI+.
A PUCPR é reconhecida por ostentar o título de PONTIFÍCIA, tendo, dentre outros objetivos, a preocupação com a formação cidadã de seus alunos e uma preocupação social baseada na solidariedade e fraternidade. Diante disso, o incentivo ao combate à discriminação deve ser o mínimo esperado da Universidade, e não medidas que dificultem ou flertem com a censura em relação à uma causa tão digna e legítima.
Estamos firmes contra medidas desestimulantes e preparados para confronta-las como for necessário.

“Todos somos seres humanos, temos dignidade. Se uma pessoa tem uma tendência ou outra, isso não lhe tira a dignidade como pessoa. As pessoas que dividem rejeitar o outro por um adjetivo não têm coração humano.” Papa Francisco.

#QueremosNossoEspaço

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