Projeto Arte Parada no Ar expõe desabafo de artistas de Curitiba durante a pandemia

Por - Josianne Ritz
Livros parados, silenciosos
Livros parados, silenciosos (Foto: Divulgação)

A rosa Nova Produções Cultural criou o projeto Arte Parada no Ar, produção cultural em tempos de pandemia. A ideia é expor retratos e desabafos de artistas de Curitiba que interromperam seus trabalhos durante o isolamento social. “A ideia veio a partir das conversas com amigos e amigas que trabalham com arte em Curitiba. Senti a necessidade de deixar um registro, mesmo que virtual, em um site, do que estamos passando a partir do isolamento social. Vi algumas fotos de cenários de teatro vazios, ou de locais de ensaio parados, e me deu uma melancolia muito grande. Senti que era importante manter esse histórico para que no futuro a gente lembre o que foi ser artista neste fim de década em um Brasil tão injusto com os produtores de cultura”, conta Luiz Andriolli, mentor da Prosa Nova e do projeto Arte Parada no Ar.

Ele mesmo precisou parar três projetos: a peça de teatro ‘O casamento da filha do palhaço’, o livro “Opa”, de Adilson Farias, que estava para lançar pela Editora Prosa Nova e uma oficina literária que seria ministrada no Centro Cultural do Portão, que agora será online. “Tenho muito diálogo com artistas de várias áreas: músicos, artistas plásticos, circenses, pessoal do teatro, cinema. É triste ver que muita gente, de uma hora para outra, ficou sem renda alguma. E completamente desassistida pelo poder público, em especial, no que diz respeito às iniciativas federais”, diz ele. De acordo com o Andriolli, alguns editais de emergência e auxílio foram lançados, mas com valores modestos e com uma carga de burocracia alta: “Então, na prática, temos muitos artistas sem poder produzir e sem (o que é muito sério) condições de levar o sustento para casa. O Arte parada no ar procura dar alguma luz a mais sobre isso, somando-se a tantos manifestos que têm sido feitos por milhares de artistas brasileiros”, conta ele.

A inspiração para o nome do projeto vem do texto “Um grito parado no ar”, de Gianfrancesco Guarnieri. A peça estreou em 1973 em Curitiba, com direção de Fernando Peixoto. A obra driblou a vigilância da ditadura de então ao usar de uma linguagem metafórica para discutir os problemas sociais. O drama fala sobre as dificuldades de se fazer arte em um tempo de repressão.
Até agora, há sete relatos no projeto Arte Parada no Ar, mas o espaço está aberto para todos os artistas. Segundo Andriolli, há uma curadoria que seleciona histórias e disponibiza no site da Prosa Nova.

Saiba mais sobre o projeto: https://prosanova.com.br/arteparadanoarrubroobsceno/

Os desabafos

Interpretação subjetiva do momento
Um dos textos é de Laura Haddad, da Duplo Produções Culturais, que estava em cartaz com a peça “O Casamento da filha do palhaço”, apresentada pela última vez na sexta-feira 13 (de março) pré-pandemia . “Como nos quadros, artista que sou, tento pensar a vida do agora não em um retrato da realidade, mas uma interpretação subjetiva, interior, que analisa mais a fundo o que estou vivenciando nestes tempos melancólicos. Em várias imagens, os personagens de Hopper são consumidos por uma aura de melancolia, como algemas em um estado sem escapatória. Sim, assim estamos, mas não necessariamente, precisamos nos agarrar a isso para seguir em frente. O ponto não está em não ficar melancólico, triste, mas não se deixar paralisar por esse sentimento”, diz ela no desabafo.

Livros parados, silenciosos
Há também o depoimento de Josiane May Bibas, do projeto Freguesia do Livro, que faz livros circularem entre quem gosta de ler e entre aqueles que não tem acesso fácil à leitura: “Agora, é na Freguesia que eles estão parados, silenciosos em nossas estantes, não conseguindo chegar a quem os quer e deles precisa. Escolas fechadas, instituições em recesso, estabelecimentos comerciais num abre-não-abre, coordenadoras da OSC na faixa de risco… E como a leitura seria balsâmica nos tempos que correm. O silêncio impera nas prateleiras da Freguesia, um silêncio cheio de palavras e ideias, livros aguardando impacientes para partir, pedidos prontos e estagnados esperando o momento de chegar a novos leitores”.

Morte da alma
A bailarina e artista circense Marina Prado fala no texto publicado na Prosa Nova que a arte está morrendo, não de morte morrida, mas de morte da alma. “Sim! Os artistas estão morrendo.. espaços de arte estão morrendo… Não de morte “morrida”.. pior que isso.. a morte da alma . O corpo continua ali… Vazio… Ao invés da cidade criar ferramentas de apoio aos artistas … Ela nos tira.. a única possibilidade de retomar a alma”.

Vai passar
Cícero Lima, diretor da CL Produções, escreve no seu texto que busca novas possibilidade de estrear um monólogo com o ator Thadeu Perrone mesmo on line. “ O processo se iniciará com uma curta temporada versão Live e, planejamos, levar este projeto para o palco. Enquanto isso, a incerteza e a espera nos fragilizam. Mas o amor à arte também nos une e nos fortalece. Não. Não estou só! O público logo irá entrar e essas poltronas vazias ao meu redor estarão cheias de vida e de calor humano novamente! E quando voltarmos ao “novo normal”, então seguirei para a coxia iniciando mais uma noite de trabalho. Vai passar! A arte resiste!”

‘Maldição lobisomensística’
O músico Asaph Eleutério lembra que tinha uma um projeto aprovado e uma apresentação marcada para o dia 29 de março pela Fundação Cultural, no Parque Tropeiro. “Ser artista nunca foi nenhum “dom miraculoso” para mim. Sempre esteve mais para maldição do lobisomem. Entretanto, agora tudo mudou. Deixo meu violão, velho de guerra encostado no ar. A foto talvez não tenha sido a melhor. Mas juro que tentei. Quero dizer algo com ela. Sim, estou parado no ar. Mas não me sinto inerte. Me sinto mais como em um estado novo desta minha maldição lobisomensísitica”, relata ele.

“Interrompeu a arte, mas não nossos sonhos’
Stela Fischer e Leticia Olivares, da Rubro Obsceno, que trabalha com projetos artísticos e sociais teatrais voltados para diferentes grupos de mulgeres, como soropositivas e em situação de violência, também está no Projeto Arte Parada no Ar. Em parceria com a performer mexicana Violeta Luna, elas criaram “Para aquelas que não mais estão”, um espetáculo memorial dedicado às mulheres que foram – e continuam sendo – assassinadas por feminicídio em toda América Latina. Este trabalho foi apresentado em São Paulo, Curitiba, Santiago do Chile, Bogotá, Buenos Aires, São Francisco, Holstebro e, neste último mês de maio, embarcaríamos para La Havana, participar do Festival Teatro Latinoamericano y Caribeño Mayo Teatral, promovido pela Casa de las Américas: “ Não fomos. As malas não foram feitas. Até o próximo ato. A pandemia interrompeu a arte, não nossos sonhos”.

“Coronavírus fechou as portas”
O poeta Alvaro Posselt lançou seu livro “Entre miados e ronronos” em 12 de março de 2020 em um evento ocorreu num restaurante durante o horário comercial. Muitos amigos não puderam comparecer. “Não há problema, faço outro para abril”, pensei. No entanto, na semana seguinte o próprio restaurante teve de fechar as portas, assim como muitos lugares. “ Meu investimento em livros ficou estacionado em dezenas de caixas. Não pude fazer nada para divulgar e vender meus livros. Sou poeta por profissão, tenho nove livros publicados. Visito escolas, bibliotecas, participo de eventos literários. O Coronavírus fechou as portas do meu trabalho!”, lamenta ele no texto.

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