Por que vale a pena fazer iniciação científica? 

- Atualizado às 18:57
Por - Redação Barulho Curitiba
(Foto: Divulgação)

“Eu tive acesso a um conhecimento que ia além do que era ensinado em sala de aula”. “Eu descobri o que gostaria de fazer no futuro”. “Eu aprendi como se faz ciência”. “Eu amadureci”. Esses são exemplos das respostas que você ouvirá quando perguntar a um estudante ou a um ex-aluno de graduação por que vale a pena desenvolver um projeto de iniciação científica (IC). A lista de aprendizados vai desde a ampliação da capacidade de atuar na academia e entender as especificidades do universo científico até o aprimoramento de habilidades sociais relacionadas ao trabalho em equipe e à criatividade.
 

Pouco importa se você pretende criar sua própria empresa, ser funcionário de uma organização já existente, tornar-se um pesquisador em uma universidade ou dar aulas no ensino básico, fazer IC pode se tornar um diferencial relevante em sua carreira independentemente do caminho que seguirá e costuma até facilitar a aprovação em processos seletivos. Vale prestar atenção em todos os bate-papos em que ex-alunos de graduação bem-sucedidos são convidados para relatar suas experiências: tem sempre alguém que se lembra do quanto foi incrível a experiência vivida durante a IC.

 

Por que isso acontece? O que há de tão especial em um projeto de IC? “Hoje, para trabalhar em qualquer área, você precisa ter uma formação sólida. E eu não vejo nada melhor do que fazer uma IC para proporcionar essa formação”, explica a professora Regilene Oliveira, que preside a Comissão de Pesquisa do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. 

Para facilitar o contato entre os alunos interessados em desenvolver um projeto de IC e os professores que desejam orientá-los, a Comissão disponibilizou no site do ICMC uma planilha com informações sobre a quantidade de vagas que os docentes têm disponíveis, a linha de pesquisa em que cada um atua, o projeto que o estudante poderá realizar e os pré-requisitos necessários para preencher as vagas. Para acessar as informações, basta consultar este link: icmc.usp.br/e/f598b.

Sábados de IC – Uma cena já é tradição durante o período letivo no ICMC: aos sábados de manhã, as lousas de algumas salas de aula são tingidas de giz por estudantes que, em inglês, explicam conceitos matemáticos nada triviais para uma turma pouco convencional. Os pupilos que assumem o papel de alunos têm pouco em comum já que se mistura quem ainda cursa o ensino médio com graduandos dos mais diversos semestres de vários cursos oferecidos pelo campus da USP em São Carlos e até pós-graduandos. O que os une é a vontade de aprender matemática no programa de iniciação científica criado pelo professor Hildebrando Munhoz em 1974.

 

“Um projeto de iniciação científica abre portas para os alunos: eles passam a ter médias melhores, aprendem a estudar, aprimoram o inglês, passam a editar textos e começam a ganhar prêmios”, explica Hildebrando, que se aposentou em 2013, mas nunca interrompeu o programa. Já perdeu a conta de quantos alunos de IC orientou, com certeza mais de 100. Muitos deles conseguiram ser aprovados em processos seletivos de universidades renomadas no exterior e conquistaram duplo diploma. Alguns ocupam hoje cargos de destaque em universidades de ponta no Brasil e no exterior.

 

Esse é o caso de Guilherme Mazanti, pós-doutorando na Université Paris-Sud, no Laboratório de Matemática de Orsay, na França. Formado em Engenharia Elétrica pela Escola de Engenharia de São Carlos, Guilherme foi informado por amigos sobre o programa criado por Hildebrando. No início de 2007, fez sua primeira reunião com o professor e, em fevereiro daquele ano, começou a participar das atividades.

 

Depois de dois anos de iniciação científica e antes que concluísse a graduação, Guilherme foi aprovado em uma prova da École Polytechnique, na França, e conquistou uma bolsa de estudos para estudar lá. “Foi o programa de iniciação científica com o Hildebrando que me preparou para essa prova. Passei dois anos e meio na França fazendo um programa de duplo diploma. Voltei para São Carlos, terminei o curso na USP, retornei à França para o mestrado e doutorado e, agora, estou fazendo o pós-doutorado”, conta Guilherme.

 

A dinâmica das atividades realizadas aos sábados pelo professor Hildebrando é bastante interessante: além de mesclar em um mesmo ambiente alunos mais adiantados, alguns que já estão na pós-graduação, com veteranos na iniciação científica e alunos iniciantes, ele estimula que os participantes apresentam, alternadamente, seminários em inglês abordando tópicos em matemática profunda. Há também seminários especiais para a resolução de problemas. Essa dinâmica possibilita que os alunos mais experientes sirvam de modelo para os mais novos e que todos juntos aprendam lições fundamentais. “Aos poucos, eles vão tomando gosto pela matemática. Não precisam fazer provas e a gente constrói um ambiente de colaboração, que não é estressante”, pondera Hildebrando. “O erro também ensina a gente”, completa. 

Desde 2010, com o aumento na procura dos estudantes interessados em participar do programa, Hildebrando estabeleceu uma parceria com o professor Marcio Gameiro, do ICMC. Até hoje coordenam juntos a iniciativa.

Upgrade no currículo – Aluna do curso de Ciências de Computação do ICMC, Sabrina Tridico embarcou para o exterior, pela primeira vez, em 2007. O destino: Estados Unidos. Ela concorreu e ganhou uma bolsa para participar do maior evento do mundo voltado a mulheres na computação, o Grace Hopper Celebration. Naquele tempo, não imaginava que essa seria só a primeira de muitas outras viagens a terras distantes.

 

Durante o Grace Hopper Celebration, Sabrina entregou o currículo em vários estandes na tentativa de conquistar um estágio. Ao voltar ao Brasil, foi contatada por uma empresa de tecnologia chamada Audible, que atua no ramo de livros em áudio. Depois de quatro entrevistas por Skype, foi chamada para lá estagiar e, no início de 2018, embarcou novamente para sua segunda experiência em solo norte-americano.

 

Sabe o que saltou aos olhos da empresa no currículo de Sabrina? A IC realizada a partir do segundo semestre da graduação: “Era o único projeto técnico que eu tinha no meu currículo: a construção de um sistema de reconhecimento de figuras geométricas em 3D voltado para robótica educacional”. 

Agora, Sabrina está prestes a se formar e já tem emprego garantido na Microsoft a partir de janeiro do próximo ano. Depois do estágio na Audible, ela também conquistou um estágio na Microsoft e daí para a contratação efetiva foi só mais um pequeno passo.

Não perca a oportunidade – Quem é aluno de graduação da USP e deseja seguir as pegadas de Sabrina e Guilherme, basta ficar atento às oportunidades que surgem todos os anos. Por exemplo, este ano, as inscrições estão abertas até 20 de maio para os editais de dois programas da Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP) da Universidade: o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) e o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (PIBITI).

 O objetivo de ambos é proporcionar a aprendizagem de técnicas e métodos científicos, estimulando o desenvolvimento pessoal, profissional e o pensamento crítico dos alunos, que são orientados por pesquisadores experientes. Nos dois casos, são oferecidas bolsas a alunos de graduação da USP, no valor de R$ 400,00 por mês, pelo período de 12 meses, com vigência a partir de agosto de 2019. Para saber mais, acesse o Guia para a Iniciação Científica e Tecnológica elaborado pela PRP.

 

Além disso, os quatro departamentos do ICMC possuem seus próprios programas de IC. Para se inscrever em um desses quatro programas, basta o aluno entrar em contato com um dos professores do departamento, que o docente efetuará a inscrição do estudante. Para facilitar esses contatos, os interessados podem também conversar com os chefes dos departamentos. Eles orientarão os estudantes quanto às áreas de pesquisa em que podem atuar bem como sobre os possíveis orientadores disponíveis, de acordo com os interesses de cada um.

 

“Alguns alunos acreditam que uma iniciação científica está necessariamente vinculada a uma bolsa ou a um desempenho exemplar na graduação, o que não é verdade. O aluno pode fazer sua iniciação científica sem bolsa. Nesse caso, o departamento emite um certificado para comprovar as atividades realizadas”, esclarece a professora Cynthia Ferreira, do ICMC. Ela explica que, caso o aluno queira uma bolsa, caberá a ele e a seu orientador redigir um projeto e submetê-lo a uma agência de fomento à pesquisa, tal como a FAPESP ou o CNPq. “O principal propósito desses programas é incentivar todos os alunos a exercerem essa atividade complementar tão importante para a sua formação”, finaliza Cynthia. 

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