Olhares e xingamentos: a experiência de usar camisetas de candidatos nas ruas de Curitiba

- Atualizado às 18:43
Por - Rodolfo Luis Kowalski
Na Boca Maldita, rea\u00e7\u00f5es entusi\u00e1sticas de apoio a camiseta de Bolsonaro \/ Camiseta pr\u00f3-Lula quase provocou briga entre militantes advers\u00e1rios
Na Boca Maldita, rea\u00e7\u00f5es entusi\u00e1sticas de apoio a camiseta de Bolsonaro \/ Camiseta pr\u00f3-Lula quase provocou briga entre militantes advers\u00e1rios (Foto: Fotos: Franklin de Freitas)

Olhares. Muitos olhares. Em alguns momentos, chega a parecer que todas as faces estão voltadas para minha direção. Não deixa de ser curioso: em tempos nos quais a política é, em disparado, o assunto mais recorrente nas redes sociais, posicionar-se pública e concretamente sobre política (para além do mundo virtual, digo) parece uma loucura para alguns, um ato heroico para poucos e uma grande estupidez para a maioria.

Na semana que antecedeu este “experimento”, foram muitos os alertas, comentários preocupados e pedidos de cuidado de amigos e familiares. Dentro da própria redação do ‘Bem Paraná’, aliás, houve quem se opusesse à pauta. “É boa, mas não vale o risco”.

Tamanha preocupação não era à toa. Numa eleição marcada pelo ódio (dos dois lados), já foram mais de 100 casos de violência eleitoral em todo o país desde o início de outubro, inclusive com casos que terminaram em morte (como o que vitimou o capoeirista Moa do Katendê, 63 anos, registrado em Salvador no último dia 8).

Ainda assim, ontem e anteontem a equipe do ‘Bem Paraná’ foi às ruas vestindo camisas de apoio à Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL). A ideia era verificar qual seria, afinal, a reação dos transeuntes à camisa vermelha, com as inscrições “Lula é Haddad / Haddad é Lula”, e à camisa amarela, escrita “Bolsonaro Presidente”.

“Companheiro”- O início da caminhada foi pela Rua XV chegando até o shopping Mueller, vestindo a camisa em apoio ao PT. Antes mesmo de chegar na rua mais movimentada da cidade, apoiadores de Lula e Haddad trataram de se manifestar. De dentro de um ônibus uma senhora faz um “L” com a mão, símbolo da campanha Lula Livre. Em seguida, um “companheiro” que passa por nós desabotoa a camisa que usava para mostrar que, por baixo, também utilizava uma camiseta de apoio ao ex-presidente petista.

Já na região da Boca Maldita, os olhares de asco e os resmungos predominam, se misturando com os apoios, em geral discretos, à candidatura de Haddad. A caminho do Shopping Mueller, encontro outro “companheiro” com a camisa vermelha. Chama-se Joseph. “Faço campanha há mais de 10 anos pelo PT. Até hoje não fui agredido, mas todo dia tem xingamento. Entra por um ouvido e sai pelo outro. Esses são tempos de barbárie”, comenta ele.

Chegando ao Shopping, os olhares de nojo se intensificam. Acompanhado da namorada, um rapaz me encara fixamente. Passo pelos dois, e o rapaz continua encarando. Resmunga alguma coisa com a parceira e segue sua caminhada. Faço o mesmo.

 

“No ‘ninho da vespa’ viro atração bizarra”

Na sequência, rumamos para a Reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR), local em que, cerca de duas semanas antes, um estudante com boné do MST fora agredido por torcedores do Coritiba que bradavam o nome de Bolsonaro.  Optamos por fazer o primeiro teste utilizando a camisa com o rosto do candidato do PSL.

Enquanto lanchávamos, uma reação engraçada: uma jovem, que ao que tudo indica havia acabado de sair da aula, olha de relance para dentro da lanchonete que fica na reitoria e segue em frente. Incrédula, é obrigada a dar alguns passos para trás e olhar novamente para dentro do estabelecimento: sim, havia alguém com uma camisa do Bolsonaro ali.

Café tomado, volto à caminhada. No pátio da Reitoria, viro uma espécie de atração bizarra. Um estranho no ninho. Alguns carros que passam pela rua buzinam em apoio a Bolsonaro. Os olhares, contudo, são incriminadores.

É na escadaria em frente à Biblioteca Central que as coisas ficam mais “quentes”. Entrei no meio do “ninho da vespa” para fumar um cigarro. Um rapaz passa ao meu lado e comenta: “Sério que você veio aqui com essa merda? Coragem, em”. “Esse babaca só veio se aparecer aqui”, diz outro. Quando chega um ônibus com estudantes da UFPR um dos jovens que desceu do coletivo vibrou ao me ver em sua frente, com a camisa amarela. “É Mito!”, diz ele.

 

“Segundos passos: tensão na Rua XV”

Ontem, decidimos voltar à Rua XV, desta vez usando a camisa amarela, de Jair Bolsonaro. Diferente do que se viu no dia anterior, quando usei a camisa do PT, desta vez as reações de apoio foram mais entusiásticas, inclusive com pessoas vindo me cumprimentar pela aparente opção eleitoral. Já as reações de asco partiram todas de mulheres e foram mais tímidas.

“Não sei como alguém vota nesse cara, só pode ser piada”, disse uma jovem para a amiga que a acompanhava.

Já no final do passeio, vesti novamente a camisa vermelha com os rostos de Lula e Haddad para fazer uma foto final para a reportagem, em frente à barraca da campanha petista. Enquanto isso, os militantes fazem o trabalho de divulgação oferecendo aos transeuntes adesivos da campanha. Um dos cidadãos, contudo, não gostou. “Só se for para limpar a bunda”, respondeu o homem, que estava acompanhado, ao que tudo indica, de sua namorada ou esposa.

O militante pró-Haddad retruca: “Que bela educação, em, meu amigo! Falar uma coisa dessas com uma donzela do lado...” Era o que o antipetista precisava para começar a ameaçar partir para cima dos militantes e os chamar para a “porrada”. O clima esquenta e por pouco não tem início uma briga, mas a turma do “deixa disso” consegue apartar a confusão.

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