O abaixo-assinado de Betty Blue

Por - Histórias que o Ayrton Baptista Junior vasculha desde o radinho de pilha
(Foto: Divulgação)

Fazer abaixo-assinado por causa de um filme parece coisa do século passado. E foi mesmo no século passado que os espectadores das salas de cinema que a Fundação Cultural de Curitiba mantinha na Rua XV de Novembro assinaram um pedido para que ‘Betty Blue’, uma produção francesa de 1986, voltasse às telas do Ritz, do Groff e do Luz. Mas a solicitação feita em 1992 foi por água abaixo: a nova onda de exibições (que fosse apenas uma semana, um dia talvez) não aconteceu.

‘Betty Blue’, que o cineasta Jean-Jacques Beineix adaptou do romance ’Betty Blue – 37°2 de Manhã’, de Philippe Djian, é o tórrido encontro de um caseiro com uma moça incontrolável, em uma cidade litorânea. Enquanto ela incentiva a veia literária dele, não é apenas o amor que arde em chamas. A casa também...

A loucura e a incerteza contrastadas pela beleza da paisagem de verão e da estreante atriz Beatrice Dalle cativaram cinéfilos do mundo todo. E geraram reprises! Nas salas da FCC, onde o filme de Beineix se tornou um campeão de bilheteria, a segunda chance aconteceu em 1990. Mas a terceira vez, a do abaixo assinado, não veio.

Apesar do sucesso acima da média para um filme europeu, ‘Betty Blue’ não ficou somente longe dos frequentadores dos cinemas da XV depois de 1990. Aqui no Brasil, a fita teve pouco cartaz nos canais por assinaturas, foi lançado tardiamente em VHS e quando chegou ao DVD trouxe uma versão esticada, com uma hora a mais do que se viu nas telas. Uma versão que não pegou. E por que o abaixo assinado não foi atendido? Pergunte para a distribuidora, caso tenha notícias dela.

Mas não era mesmo fácil ser cinéfilo em 1992. Outro filme cultuado, o alemão ‘Asas do Desejo’, de Wim Wenders, teve uma concorrida reprise com sessão única e gratuita em um sábado à noite de 1994. A fila em frente ao Ritz quase invadia o provador da loja ao lado, a C&A. Alguém perguntou se não poderia haver uma segunda sessão. Não! A película de Wenders tinha poucas cópias no Brasil. Talvez aquela fosse a única. O filme ainda era uma produção recente (de 1987) e na segunda-feira as latas com a obra de Wenders voltaram para São Paulo.

Se aquela cópia de ‘Asas do Desejo’ escapou de ser uma fita gasta, o mesmo não aconteceu com ‘Jogos da Noite’, da sueca Mai Zetterling, na extinta Cinemateca do Museu Guido Viaro, vizinha do Largo da Ordem. Lançado em 1966, o filme permanecia em Curitiba com uma fita gasta, que arrebentou sete vezes durante uma exibição. O projecionista Hélio Borges só não usou Super Bonder para juntar as pontas. Nada dava jeito. Tantos intervalos forçados não tiraram da minha memória este curioso exemplar da tradição existencialista do cinema sueco: um homem visita o palacete onde morou na infância, mas a música não é o silêncio. Há um baile de mascarados e jazz a cercá-lo.

Não foi preciso um abaixo-assinado para que a Cinemateca do MGV exibisse ‘Jogos da Noite’. Aquela cópia não saiu da cidade porque o distribuidor esqueceu de pedi-la de volta.

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‘Betty Blue’ não voltou, mas a extraordinária Beatrice Dalle está em uma série da Netflix: ‘Dez Por Cento’, uma ficção sobre o mundo dos atores e de seus agentes. Beatrice representa ela mesma, chamada mais uma vez para um filme do gênero ‘perturbador’.

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