Los Hermanos é bom! Você que é chato

- Atualizado às 00:21
Por - Maite Ritz

Depois de 14 anos a banda carioca formada por Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Rodrigo Barba e Bruno Medina lançou material novo. A inédita “Corre Corre” nos trouxe o conhecido baú lírico de Camelo e acerta em cheia na dor do peito e na musicalidade alinhada. Diversos sites de música e cultura compartilharam a boa notícia, que foi recebida com muitas reações “haha” e comentários extremamente apelativos no Facebook. Já era esperado? Já. Mas a questão é: por que vocês odeiam tanto Los Hermanos?

A banda formada em 1997 no Rio de Janeiro é conhecida pelo seu hit “Anna Júlia”, que foi lançado em 1999 e rapidamente se tornou viral. Ok, Anna Júlia não é a melhor música do mundo. Ok, a gente já cansou de ouvir ela. Mas de onde vem esse ódio todo? A fama da banda em produto bruto se dá grande parte por essa música e ao disco que ela integra. O álbum de estreia foi intitulado de “Los Hermanos” (1999) e foi certificado por disco de ouro, pelas mais de 100 mil cópias vendidas. Esse é o trabalho mais bem sucedido comercialmente da banda até hoje. Seus sucessores, “Bloco do Eu Sozinho”, “Ventura” e “4” renderam financeiramente de forma extremamente agradável também.

Deixando a parte técnica e financeira um pouco de lado, vamos a raiz do problema: “Hoje o dia está tão chato que devia se chamar Los Hermanos”. O meme é engraçado e válido, mas até que ponto? Constantemente a banda é jogada para escanteio e o maior argumento utilizado é que a música dos caras é chata. Isso é questão de gosto? Talvez. Senso comum? Pode ser. Negligência? Acredito que sim. No quesito de música, sempre acabamos por analisar as coisas inteiramente baseadas em nosso gosto, o que é compreensível mas não saudável. Eu posso ser suspeita por gostar de Los Hermanos e estar escrevendo esse texto, mas é preciso saber ponderar e dissertar sobre as situações. Não gostar é uma coisa, ser ruim é outra. Los Hermanos não é ruim, você que é chato e acredita que apenas seu gosto importa. Los Hermanos não é ruim, você que assumiu um meme e nunca parou realmente para escutar e tentar entender um pouco do que esses caras fizeram pela música brasileira.

Régis Tadeu, polêmico crítico musical, observou que eles fizeram "um tremendo mal não só ao rock nacional, mas à música brasileira" por inspirarem "uma geração inteira de clones patéticos". Ao citar os tais “clones patéticos” ele comenta Mallu Magalhães, Cícero e Vanguart. Ao meu ver a nova MPB incomoda, o desejo de se atrelar a uma forma e ao passado consomem o brasileiro vivo. O próprio Caetano Veloso lançou uma faixa intitulada de “Funk Melódico”, e a galera colocando cultura contra cultura, julgando bom e ruim por gosto. Mas a influência direta de Los Hermanos na criação dessa Nova MPB trouxe os jovens para as raízes brasileiras e criou grandes nomes que temos hoje. “Tim Bernardes”, compositor que integra a banda O Terno e possui um disco solo aclamado pela crítica (que inclusive ficou uma posição acima de Chico Buarque nos melhores discos de 2017 pela Rolling Stone Brasil) é fruto do legado musical de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante. Artistas como Rubel, Tuyo, Francisco El Hombre, Banda Gentileza e Pélico são descendentes do movimento que Los Hermanos levantou quando ressuscitou os jovens dentro da música brasileira lá em 1999.
Acho importante realçar que quando a banda de Camelo surgiu, era uma época de transição. O rock brazuca se dividia entre uma nova cena mineira em ascensão (Skank, Jota Quest, Pato Fu), bandas “oitentinhas” que sobreviviam da glória passada e bandas engraçadinhas (Mamonas, Raimundos e tal). Mas Nação Zumbi e Los Hermanos definitivamente moldaram a reforma da MPB que se seguiu pelos anos 2000 e perdura até hoje. O que é uma coisa maravilhosa! A música brasileira vive pelas mãos de jovens que arriscam e misturam batidas, sons, experimentos e a alegria do brasil com a face da solidão, traição, tristeza e amor, criando a atmosfera da nova MPB e do movimento jovem.

Então sinto muito, mas os caras já estão na história do brasil. E eles são bons. Mas claro, isso analisando primeiramente a parte de influência histórica e legado. Agora vamos para a questão de som e composição, onde eles são mais criticados. Temos pontos que passam despercebidos pelos grandes críticos sentados atrás da telinha.

Vocês que amam dizer que Los Hermanos é ruim, já ouviram com atenção a obra dos caras? Usando as composições pós disco de estreia, vamos por partes. “Bloco do Eu Sozinho”, lançado em 2001, foi o sucessor da estreia do quarteto carioca e carregava um peso após o enorme sucesso de “Anna Júlia”. O quanto os caras amadureceram musicalmente em dois anos chega a ser absurdo! Trazendo um samba rock com pitadas do indie, Los Hermanos nos deu composições maduras sobre amor, solidão, carnaval e auto sabotagem. Por faixas, “Cadê Teu Suín”, homenagem a Tom Zé, é arquitetada de maneira incrível. “Sentimental” transpassa a dor do sentir demais misturando a voz arranhada de Amarante com guitarras melancólicas e uma sonoridade brilhantemente sofrida. “Veja Bem Meu Bem” traz a nova faceta de Camelo, o contador de histórias que traz a alma dos relacionamentos e do cotidiano verdadeiramente brasileiros.

No disco “Ventura” temos verdadeiros socos no estômago como “Do Lado De Dentro”, que explicita um relacionamento abusivo de maneira inexplicável. “Conversa de Botas Batidas” traz a história de um casal de idosos amantes que decidiram morrer juntos em decorrência de um vazamento de gás no motel, história que Camelo leu em um jornal e transformou em obra prima sonora. “O Velho e o Moço”, “De Onde Vem A Calma” e “Do Sétimo Andar” são a música brasileira em sua nova forma, fazendo das tripas, coração.

Por mais que você não goste de Los Hermanos, peço que preste atenção em algumas dessas composições que citei acima. Se não gosta da sonoridade, pense em Elis Regina cantando “Do Lado De Dentro”. A força da música desses caras é muito maior do que qualquer impressão que você possa ter. E por favor tenha a decência de entender que gosto e qualidade são coisas separadas e que está tudo bem. Eu não gosto de Legião Urbana, não ouço, não curto. Mas se me perguntarem quais os discos brasileiros mais fodas de todos, incluirei o “Dois” (1986) sem discursar. Os caras são bons. O legado deles é do caramba e a sonoridade é boa. Mas eu não gosto.

A questão central é que Los Hermanos trouxe um respiro para a juventude através da cultura brasileira em sua raiz cotidiana e simples, falando de amor e dor em sua pura forma, com histórias que podem ser vistas tanto em uma janela no Flamengo do Rio de Janeiro quanto na Praça Tiradentes de Curitiba. Los Hermanos mistura circo, carnaval, samba, amor, solidão, dor, amizade e tudo o que há na esquina da vida de uma forma brilhante. E isso é mais do que uma banda pode fazer desde 1999. As vezes a gente tem que descer um pouco do nosso palanque e entender que existem coisas boas fora do nosso paladar.

E mesmo que você ainda ache tudo isso uma merda, apenas peço que pense no que a música significa para as pessoas no geral e não só para você. A gente tem todo direito do mundo de gostar ou não gostar e de brincar com uma coisa ou outra, mas ódio gratuito sem fundamento não é bacana. Cuidado com as caixinhas.

Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba estarão realizando no próximo mês uma turnê de estádios quase esgotada passando por nove cidades do Brasil. Seu legado vive, apadrinha novos artistas, aquece o coração de quem pode e lota estádios no meio tempo. Mas o ódio sem fundamento contra Los Hermanos perdura pela eternidade da internet e das piadinhas, e não há nada que eu possa fazer além de um texto como este. Uma pena. Os caras são bons.

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