Letrux traz seu climão para o palco do Festival Coolritiba

- Atualizado às 18:59
Por - Henrique Romanine
(Foto: Sillas Henrique)

No final da década passada, Letuce, duo do cenário underground carioca, chamou a atenção pela sua inusitada mistura de MPB, indie e pop. Na linha de frente, dois artistas envolvidos com diversas formas de expressão cultural: Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos, que acabaram desenvolvendo um relacionamento amoroso. Com trabalhos elogiados, a dupla se separou pessoalmente em 2015, e profissionalmente, em 2016. Foi quando Letícia, buscando novos horizontes, assumiu a persona de Letrux e deu início à sua carreira solo.

Mesmo com todo o respaldo criado pelo projeto anterior, Letícia não imaginava o destaque que teria, através do seu novo caminho musical. Lançado em 2017, o álbum "Letrux Em Noite de Climão" conquistou a crítica, angariando títulos de diversas publicações especializadas como um dos melhores trabalhos do ano. O público não demorou a embarcar na sua proposta sonora, que misturava diversas referências (do pop à disco, do retrô ao futurista), o que lhe rendeu comparações com Marina Lima e Anitta (sendo considerada a versão indie da cantora).

Mesmo assim, Letrux construiu uma carreira própria e de muita originalidade, que vem angariando cada vez mais admiradores, e que o público vai poder conferir em toda a sua totalidade, no palco do Festival Coolritiba, no próximo dia 11 de maio.

Conversamos com Letícia sobre a carreira-solo, sobre a estética do seu trabalho, sobre comparações com outras artistas e temas diversos, na entrevista que você confere abaixo.

Barulho Curitiba - Uma das grandes façanhas do seu trabalho solo foi o alcance que ele obteve, tendo sido feito de maneira totalmente independente. Lá atrás, quando você começou o projeto, imaginou que ele alcançaria esse reconhecimento?

Letrux - Nunca imaginei que tudo isso aconteceria, porque na hora da composição e gravação, estava tão imersa no trabalho em si, que não conseguia prever nada. Fiz, compus, gravei porque era o que precisava ser feito, eu tinha que parir esse disco, essas canções, mas não pensei que tudo isso rolaria. Queria? Queria, claro, sempre queremos, mas nunca se sabe, e tendo a não criar muitas expectativas, porque a vida é cheia de imprevistos. Então é uma grata surpresa tudo isso que tem rolado sim.

Barulho - O álbum desperta várias sensações e emoções no ouvinte. Ao mesmo tempo que é um trabalho que conforta, ele “cutuca o dedo na ferida”. Você acredita que é isso que falta na música atual, atingir a alma do público?

Letrux - Não posso dizer o que falta na música atual, não faço ideia, não tenho essa noção. Meu trabalho é de cutucar o dedo na ferida porque eu Letícia, sou assim. Não deixo nada embaixo do tapete, vou até o fim das coisas e de tudo, então minha obra também vai pra esse lugar. Ao mesmo tempo sou uma pessoa solar, engraçada, gosto de me divertir, de ser boba, mas também gosto desse lugar profundo das zonas sombrias da vida. Não podemos ser só bobos e leves o tempo inteiro. É preciso se aprofundar.

Barulho - O álbum possui uma vibe bem anos 80, tanto nas composições quanto na sonoridade. Fica impossível não lembrar de Madonna e de Marina Lima, de quem você é, inclusive, amiga. Elas foram as suas grandes referências femininas na concepção visual e sonora do disco “Letrux em Noite de Climão”?

Letrux - Acho que elas duas, mais Rita Lee, Patti Smith, PJ Harvey, Janis Joplin, Maria Bethânia, todas essas mulheres maravilhosas fazem parte da minha história e outras mulheres na literatura, no cinema e na minha vida também. Sou diariamente alimentada por essas figuras extraordinárias. Então é natural as pessoas reconhecerem isso na obra, talvez.

Barulho - Falando na concepção visual, ela é muito forte em seu trabalho. Como você define esse caminho: essa concepção é mais intuitiva ou racional?

Letrux - Esse disco foi metade intuição, metade razão. Sou assim. Acredito no meu instinto, mas também sou organizada, faço esquemas disciplinares pra não enlouquecer também, né? Rá! Acho que equilíbrio é importante nesse caso. Nem tanta pretensão mas nem tanto relaxamento.

Barulho - O seu trabalho solo possui uma carga sensual que não chega a ser explícita. Mas lembra bastante os climas usados nos grupos de trip-hop. Isso chegou a ser uma influência para você, durante a concepção do álbum?

Letrux - Acho que para o Arthur e Natália, que produziram o disco, sim, é uma influência. É um disco sensual, mas esquisito também, acho que eu gosto de brincar com esses símbolos.

Barulho - O Festival Coolritiba tem como foco colocar no palco artistas que, se não estão inseridos completamente no mainstream, possuem um público grande, forte e fiel. Qual a sua visão sobre esse movimento de cooperação que sempre existiu na música brasileira, mas que, de uma maneira errônea, nunca é abordado como deve ser?

Letrux - É ótimo tocar em festivais independentes pelo Brasil, percebemos o quanto há SIM pessoas interessadas numa música que não toca nas rádios populares, nem na TV. Uma pena essa falta de atenção ou crédito para o artista independente, mas aos poucos vamos crescendo, subindo e somando.

Barulho - E falando do festival, o que você pode adiantar para a gente sobre o show? Tem algo preparado especialmente para o público?

Letrux - Fizemos um show em Curitiba só, sempre bom retornar a uma cidade e mostrar como o show cresceu, amadureceu, estamos cada vez mais entrosados e inspirados. Vai ser forte.

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