‘Escrever é a minha forma de resistir’, diz Giovana Madalosso, que lança 'Suíte Tóquio'

- Atualizado às 20:11
Por - Lycio Vellozo Ribas
Giovana Madalosso: “Minhas preocupações são a estética e a ética”
Giovana Madalosso: “Minhas preocupações são a estética e a ética” (Foto: Renato Parada / Divulgação)

Uma babá que foge com a criança da patroa, enquanto essa patroa vive um casamento em crise e se apaixonada por outra mulher. Esse é o ponto de partida de ‘Suíte Tóquio’, novo livro da escritora curitibana Giovana Madalosso. Nele, a autora entrega o livro que pretendia entregar, com questões afetivas e tensões de classe, mas também entrega um romance que fala de convenções sociais e da domesticação das pessoas.

A produção de ‘Suíte Tóquio’ era uma ideia incubada desde 2018, quando Giovana lançou ‘Tudo Pode Ser Roubado’, seu segundo livro – o primeiro foi o livro de contos ‘A Teta Racional’. Desta vez, a produção foi mais trabalhosa. Para achar o tom das personagens principais, a autora viajou de ônibus até Maringá e também foi ao Acre visitar uma reserva indígena.

‘Suíte Tóquio’ estava em pré-venda até o dia 10 de setembro. Segundo a autora. não há previsão de um lançamento formal — embora ela programe eventos virtuais de lançamento. Entre esses eventos e o trabalho como roteirista, Giovana falou com exclusividade ao Bem Paraná.

Bem Paraná – De onde vieram as ideias para ‘Suíte Tóquio’?
Giovana Madalosso – Da minha casa, da casa onde cresci, das ruas do meu bairro. De observar durante tanto tempo a relação simbiótica entre babás, crianças e patroas no Brasil. Num país com tão poucas creches, com cargas horárias tão descabidas e homens que ajudam muito pouco, a vida profissional das mulheres só se sustenta porque existem babás e, nos bairros mais pobres, mulheres que “olham os filhos” das outras, usando um termo que usam. Quis falar do que chamo de exército branco, essa força uniformizada que sustenta a nossa sociedade e tantas vezes é tratada de forma injusta. Mas para falar do todo, fui buscar o singular, uma babá com seus dramas únicos que, por um motivo que só vamos entender lá pelo meio do livro, resolve fugir com a menina de que cuida. Paralelamente, conto a história da mãe da criança, que não consegue conectar-se com a maternidade, num casamento em crise, apaixonada por outra mulher.

BP – Como foi a produção do livro?
Giovana – ‘Suíte Tóquio’ tem duas narradoras: a babá e a mãe da criança. Desde o começo eu sabia que meu maior desafio seria achar uma voz própria para cada uma, o que subentende não só um vocabulário e uma sintaxe distintas mas acima de tudo um jeito diferente de ver o mundo – o que acaba por também refletir-se na linguagem. Fiquei meses trabalhando só nisso. E, enquanto isso, fui fazendo pesquisa. Sabia que a babá fugiria de ônibus para o entorno de Maringá e fiz essa viagem de Viação Garcia, descendo em cada parada, coletando imagens, impressões, cheiros. Visitei uma fazenda de bichos da seda, porque foi num lugar como esse que a babá passou a infância. Para a outra narradora, visitei uma reserva indígena no Acre. A essa altura, eu já tinha centenas de quilômetros rodados, vozes concretas para cada uma e a escrita avançava cada vez mais rápido. Em dois anos concluí o livro.

BP – Em 2018, quando lançou ‘Tudo Pode Ser Roubado’, você tinha como projeto um romance em que discutia questões relativas à maternidade, com tensões pessoais e tensões de classe. Quanto disso está presente em ‘Suíte Tóquio’?
Giovana – Acho que entreguei o romance que eu queria entregar, com questões afetivas e tensões de classe, e também entreguei um outro romance, inesperado inclusive para mim, que fala de convenções sociais e da nossa domesticação, traçando paralelos com o mundo animal. Talvez essa seja a parte mais gratificante do fazer literário. Quando você começa a escrever um romance, tem uma ideia, mas nunca uma ideia completa, de onde e no que vai chegar.

BP – O livro tem o conflito interno da babá Maju, o choque de realidade para a menina Cora e as crises pessoais de Fernanda, mãe de Cora. Como foi trabalhar com cada uma dessas personagens, que parecem tão reais?
Giovana – Para um personagem parecer real é preciso que ele parta de algum lugar existente dentro do autor. Busquei em mim o que havia da Maju, busquei em mim o que havia da Fernanda, e até para compor a Cora, de quatro anos, procurei em mim alguma coisa, ajudada também pela observação que fiz da minha filha e de suas amigas. Até agradeço a uma dessas meninas no final do livro, ela foi uma grande fonte de inspiração.

BP – O livro estava em pré-lançamento. Como será o lançamento? Haverá algo especial por causa da pandemia?
Giovana – Alguns brasileiros decretaram o fim da pandemia, mas, até onde eu sei, ninguém avisou isso ao vírus. Então acho que ainda não é a hora de sair dando autógrafos e abraços, o que é uma pena porque adoro fazer lançamentos físicos. Mas isso não impede o virtual, que será muito bacana também. No dia 15 de setembro, às 18h30, farei um lançamento ao vivo no Youtube da editora Todavia e no dia 29 lerei trechos junto com a atriz Maria Ribeiro, no Instagram dela e da Todavia. Aliás, para quem se interessar, recomendo que sigam meu Instagram, por onde me comunico bastante com os leitores.

BP – Como é a sua rotina de escritora e roteirista?
Giovana – Escrevo quando minha filha está na escola. Vocês podem imaginar o quanto estou escrevendo durante a pandemia… Tem dias que rendem muito, outros pouco, outros nada. Antes me angustiava com os dias em que não saía nada que prestasse. Hoje entendo que esses dias fazem parte de um processo, sem as páginas que jogo fora não existiriam as páginas que guardo.

BP – Qual é a sua grande preocupação ao escrever?
Giovana – Minha primeira preocupação é estética, afinal faço arte, quero emocionar o leitor. A minha segunda preocupação, não menos importante, é ética. Trabalho para que meus livros deem uma rasteira em certos padrões, especialmente no que toca a mulher, e tento falar de temas que acho relevantes e urgentes. Nesse mundo que tenta com tanta obstinação andar para trás, escrever é a minha forma de resistir.

BP – Como você avalia a leitura e a literatura nos dias de hoje, em que as pessoas parecem mais interessadas em aplicativos de celular e vídeos?
Giovana – Não podemos lutar contra o novo. Quer dizer, até podemos, mas vamos tomar uma surra. Por isso sou simpática a todo e qualquer tipo de suporte narrativo. Meus livros estão disponíveis em audiobook, em ebook, acho fantástico que sejam lidos no próprio celular, que virem audio-visual. O problema é não conseguirmos mais terminar um conto sem dar like em algum lugar. Terminar uma conversa sem checar mensagens. Não falo do altar do desapegado: também sofro dessa patologia. Mas ter consciência disso já é alguma coisa.

BP – Você trabalhou bastante as redes sociais para divulgar o livro. Como avalia a eficiência de campanhas nas redes para o lançamento de um livro?
Giovana – Trabalhar o livro nas redes ajuda bastante, ainda mais agora, em tempos de pandemia. Mas não acho que o escritor tenha obrigação de fazer isso. O escritor tem que focar em escrever e publicar um bom livro. Se fizer isso, o livro vai andar por contra própria. Carlos Drummond de Andrade não tinha Facebook e vejam onde chegou. Diversos escritores contemporâneos não têm perfil em nenhuma página. Redes ajudam, claro, mas não são, e nem devem, ser substanciais. Os posts vão, a boa literatura fica.

BP – A quantas anda a adaptação de seu livro anterior, ‘Tudo Pode Ser Roubado’, para o cinema (ou o streaming)?
Giovana – ‘Tudo Pode Ser Roubado’ estava em vias de ser produzido pela Fox, mas a Fox foi vendida para a Disney e a série não se encaixou no novo perfil de programação. Voltamos à estaca zero e, no momento, estamos avaliando propostas de outros canais.

BP – Recentemente você escreveu um conto de um casal durante a pandemia “E o coronavírus vos declara marido e mulher”, publicado na revista Época. Qual a chance de haver mais contos seus compilados em um livro?
Giovana – Com certeza lançarei uma coletânea de contos nos próximos anos, só não sei exatamente quando.

BP – Qual o seu próximo projeto?
Giovana – Um livro de poesias.

Comentários

© 2018 Barulho Curitiba