Em tempos de polarização em Curitiba, ir ao bar também pode ser um ato político

Por - Rodolfo Luis Kowalski
A proprietária do Cosmos Bar, Jana Santos: “Apoio foi massivo”
A proprietária do Cosmos Bar, Jana Santos: “Apoio foi massivo” (Foto: Franklin de Freitas)

A política é ubíqua, aponta o cientista Robert Dahl logo nos primeiros parágrafos da obra “Análise Política Moderna”. E em tempos de polarização, essa ubiquidade pode ficar escancarada ao ponto de o simples ato de ir ao bar ou ao restaurante se tornar também um gesto simbólico politicamente.

Ontem, por exemplo, o Cosmos Gastrobar, localizado no bairro Batel, em Curitiba, deu um exemplo disso, causando furor nas redes sociais. Na frente do estabelecimento, localizado na Alameda Presidente Taunay, foi instalada uma placa com os seguintes dizeres: “Fora Bolsonaro, dentro só vacinado”. Embaixo da frase, a hashtag #passaportedavacinasim, seguida pelo texto “Entrada apenas de pessoas vacinadas com a 1ª ou 2ª dose. Favor não ser negacionista”.

Proprietária do bar, Jana Santos destaca que desde o início da pandemia ela própria e o Cosmos já vinham se posicionando muito claramente, cobrando medidas de isolamento social e apoio financeiro às empresas. Ela, inclusive, foi uma das líderes do movimento “Fechados pela vida”, que reuniu dezenas de pequenos empresários do ramo da gastronomia e do entretenimento, pedindo a adoção de medidas amplas e efetivas para contenção da crise sanitária.

Com a placa colocada na frente do estabelecimento, ela conta que realiza uma espécie de grito de desabafo.

“A gente sempre postou isso [o ‘Fora, Bolsonaro’], não é uma coisa nova. Só não era tão grande na porta. É um grito de desabafo. Esses meses todos, a gente praticamente faliu ano passado e não precisava ter sido assim. As coisas podiam ter fechado, o governo ter dado apoio às empresas. Quase fechamos as portas. Foi o apoio dos nossos clientes, pedindo pelo delivery, um serviço que a gente nem tinha antes da pandemia, que nos permitiu sobreviver”, conta a empresária.

Desde a divulgação da nova placa do estabelecimento nas redes sociais, os perfis do bar explodiram em adesão e evidência, comemora Jana. “O apoio foi massivo, enorme. Ganhamos muitos seguidores e cada vez que entro no Instagram têm mais. Nos sentimos abraçados pelas pessoas”, diz ela, revelando que chegou a ter medo da polêmica que o posicionamento político da empresa poderia causar.

“Mas as pessoas querem ir num lugar em que se sintam seguras. Teve um outro comentário atacado, mas é normal. Vivemos num mundo em que até a vacinação virou motivo pra briga política. Mas enfim, deixamos nosso posicionamento bem claro e é escolha das pessoas virem ou não”.

Questionada ainda sobre a possibilidade de o bar vir a ter prejuízos ou deixar de faturar por conta do posicionamento político, que poderia, por exemplo, afastar eleitores do presidente Jair Bolsonaro do local, Jana é bastante direta e sincera: “Se Bolsonaro não faliu a gente, não vai ser essa pequena torcida muito raivosa que vai conseguir. Prejuízo tivemos foi pela política econômica desastrosa [do governo federal]. Sem vacina, não tem como a gente falar em qualquer normalidade”.

Bek’s viraliza e ganha clientes após politização

Anteriormente, outro bar de Curitiba já havia ‘causado’ ao abraçar uma bandeira política. Foi o Bek’s & Bar, que no final de junho mandou um recado diretamente aos clientes que apoiam BOlsonaro, dizendo que se apoiavam tanto o presidente da República, deveriam se posicionar também em suas atitudes e não indo mais ao estabelecimento. “Cliente fascista é livramento”, escreveu o bar na época, em uma postagem no Twitter.

A postura um tanto audaciosa do bar repercutiu e muito, virando notícia, inclusive, em veículos de imprensa de fora do Paraná. Basicamente, o Bek’s acabou viralizando e, se perdeu alguns clientes de direita, ganhou outros tantos mais à esquerda do especto político. De 600 seguidores no Twitter, por exemplo, o local já chegou a 9.015.
“Prefiro falir com dignificade do que trabalhar num espaço hostil. Se a pessoa se identifica com o fascismo, não tem como ser gentil com ela”, chegou a declarar a empresária Giovanna Lima, em entrevista à Chico Alves, colunista do UOL.

Capital paranaense também já teve bares mais à direita

Não é só de bares à esquerda, porém, que é feita a boêmia curitibana. Recentemente, por exemplo, a cidade chegou a ter dois estabelecimentos que, no auge de popularidade da Operação Lava Jato, tentaram capitalizar com a clientela mais à direita. Foi o República de Curitiba Bar, inaugurado em meados de 2016; e o tradicional “Aos Democratas”, que foi reinaugurado em 2017, quando adotou o nome “Aos Democratas República de Curityba”.

Os dois empreendimentos, no entanto, não tiveram vida longa na capital paranaense. O primeiro foi fechado em meados de 2018, enquanto o segundo, que chegou a ficar fechado entre 2014 e 2017 antes da reinauguração, também já voltou a fechar as portas.

Além disso, a capital paranaense também conta com várias lojas da rede de lanchonetes Madero, cujo dono é Junior Durski. Sócio de Luciano Huck, ele é eleitor de Jair Bolsonaro e chegou a reclamar, ainda no começo da pandemia, no final de março de 2020, que o Brasil não poderia parar por “5 ou 7 mil pessoas que vão morrer”.

Mais de um ano e meio depois, a Covid-19 já foi responsável por ceifar mais de 600 mil vidas no país, enquanto a rede de lanchonetes do Madero se encontra em dificuldade, conforme as demonstrações finaceiras do restaurante relativas ao primeiro trimestre deste ano.

RÁPIDA

Passaporte vacinal

Recentemente, a Fiocruz já emitiu um parecer recomendando a adoção do passaporte da vacina em todo o território brasileiro, como forma de incentivar toda a população a se imunizar contra a Covid-19. No Paraná, no entanto, ainda não foi adotada nenhuma medida nesse sentido: tanto a Câmara Municipal de Curitiba como a Assembleia Legislativa do Paraná já arquivaram propostas desse tipo, enquanto a Secretaria Estadual de Saúde (Sesa-PR) declarou recentemente estar ainda estudando o assunto.

Por isso, quem quiser conhecer o Cosmos Gastrobar deve levar qualquer documento que comprove que a pessoa já tomou a primeira ou segunda dose da vacina anticovid. Pode ser o canhoto da vacinação, mostrar o comprovante no aplicativo Saúde Já, da Prefeitura de Curitiba, ou qualquer outra forma de comprovação. “Aceitamos qualquer prova, já que ainda não existe um documento oficial”, explica a empresária Jana Santos.

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