Em Curitiba, conservadorismo agora se aprende na escola

Por - Narley Resende
Picler: “Academia tem que acordar e dar espaço para isso”
Picler: “Academia tem que acordar e dar espaço para isso” (Foto: Walquir Aureliano)

Um curso inédito de pós-graduação em “conservadorismo” foi lançado nesta semana pelo Centro Universitário Internacional (Uninter), que tem sede em Curitiba. Idealizado pelo ex-deputado estadual Wilson Picler, que é filiado ao PSL, do presidente Jair Bolsonaro, o curso, à distância, aposta em mostrar como é o pensamento conservador, na política e na filosofia, e pretende defendê-lo. Segundo o texto de apresentação da pós, o Partido Conservador “fez muito pelo Brasil no Império”, mas hoje esse pensamento teria substituído por um “protótipo de social-democracia, incapaz de traduzir os valores fundamentais para os cidadãos”.
De acordo com a descrição, “o predomínio de teses socialistas impediu que se disseminasse o debate com o pensamento conservador. Essa é a lacuna que o curso vai preencher, via Educação a Distância (EAD)”.

Picler é o principal sócio do Uninter. Conforme prestação de contas à Justiça Eleitoral, foi o maior doador individual da campanha de Bolsonaro no País. A fortuna declarada do empresário é de R$ 48,3 milhões. Ele doou ao partido R$ 800 mil, em duas parcelas de R$ 400 mil, em 2018, no período de pré-campanha. “Importante ressaltar que foi para o caixa partidário, com finalidade de estruturar o partido no Paraná antes das eleições”, destaca Picler. O objetivo, segundo ele, foi apoiar a estruturação do PSL no Paraná, diante da ausência do fundo partidário na ocasião.

Após fazer a doação ao partido, o ex-deputado chegou a se lançar pré-candidato ao Senado em 2018, depois recuou e anunciou que sairia suplente na chapa de Fernando Francischini (PSL), que acabou desistindo da candidatura e se elegendo deputado estadual. Para a eleição, Picler alegou estar impossibilitado de participar do pleito em razão de um suposto impedimento legal, já que ele não teria se desincompatibilizado do cargo na universidade dentro do prazo determinado pela lei eleitoral. Após isso, perdeu também controle do partido para o qual doou quase R$ 1 milhão. Hoje, Pìcler atua como conselheiro informal de Bolsonarno e se afastou de Francischini. 



“Eu percebi que a academia tem que acordar e também dar espaço para isso (conservadorismo). O país acordou para isso e deu uma resposta nas urnas, por uma diferença pequena, mas houve”
Wilson Picler, ex-deputado federal e sócio da Uninter


ELEIÇÕES 2018

Empresário admite que viu ‘oportunidade’ após onda Bolsonarista
O empresário admite que foi o idealizador do curso de Conservadorismo. “A esquerda dominou todas as academias desde o período da redemocratização. Temos hoje uma carência de pensadores conservadores”, avalia.
O empresário garante que a instituição abriga também professores de esquerda, embora não haja um curso de pos-graduação temático similar ao lançado para fomentar o conservadorismo. “Temos grupos e colegas professores que são de esquerda e a gente se respeita. Temos o curso de Serviço Social que é, na sua essência, no espectro político, de esquerda, tem isso em sua excência. O curso de Relações Internacionais já é mais equilibrado”, aponta.
Há também, segundo o empresáio, uma visão de mercado para o lançamento do curso, já que a demanda teria se mostrado positiva à instuição privada. Eu percebi que a academia tem que acordar e também dar espaço para isso (conservadorismo). O país acordou para isso e deu uma resposta nas urnas, por uma diferença pequena, mas houve. Se não fossem os estigmas do próprio Bolsonaro ainda acho que a diferença teria sido maior. A sociedade disse ‘não’. Queremos outro caminho. Na realidade, a gente fez essa interpretação toda do que está acontecendo, eu vi essa oportunidade de a nossa instituição ser plural. Hoje há um déficit de pensadores do conservadorismo. O curso foi muito bem recebido, comemorado. Teve muita procura, então mostra que a Uninter deu uma resposta para a sociedade”, diz.

PERFIL

Professores ‘não contaminados pela esquerda’
O corpo docente do curso ainda não foi publicado. Segundo Picler, a ideia é que a ideologia seja abordada por professores acreditam nela. “A Uninter apresenta então essa alternativa de conhecimento conservador, com professores conservadores, que são mesmo. Não são professores de esquerda querendo explicar conservadorismo”, explica.
Segundo Picler, os professores das universidades são “contaminados pela esquerda”. “Temos que na sociedade os professores foram mais influenciados pela esquerda. Quem estuda em uma Federal, o que você espera que aconteça? As públicas em geral estão mais pendentes à esquerda. O funcionalismo público em geral é de esquerda. O salário do funcionário público dobrou no governo do PT”, expecula.

ANÁLISE

“Pós à distância não forma, muito menos pensadores”, diz cientista da UFPR
Ex-coordenador do curso presencial de pós-graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o professor Emerson Urizzi Cervi vê a criação de uma pós-gradução sobre conservadorismo como uma proposta essencialmente comercial, com valor acadêmico reduzido. “Uma pós à distância não vai formar pensadores conservadores. Pós à distância não forma, muito menos pensadores”, critica. Para Cervi, “esse tipo de pós inédita tem um objetivo único sempre: explorar um veio comercial ainda não explorado. Caso contrário não seria inédita”, dispara.
O professor opina que do ponto de vista comercial o curso tende a ser um sucesso. “O objetivo deve é explorar um ‘pensamento médio’ negativo, no sentido de ser contra algo, e vender aulas para milhares de pessoas”, avalia.
Para o professor, a falta de informação quanto ao corpo docente também limita uma avaliação do curso. Outro ponto é a disposição dos alunos. “A questão da distância é a seguinte, dizem os educadores: ela depende muito mais de quem faz do que de quem oferece. Educação à distância funciona para alguns, com determinadas características, e não funciona para outros”, diz.
A exigência de que o professor seja alinhado ideologicamento com a proposta do curso também mostra que a proposta é apenas comercial. “Ao falar sobre socialismo, esquerda, ensino público, ele mostra como a proposta dele é comercial, pois se tivesse mesmo um caráter pedagógico central, não exigiria carteirinha ideológica de professor”, pontua.


“O objetivo deve é explorar um ‘pensamento médio’ negativo, no sentido de ser contra algo, e vender aulas para milhares de pessoas”,
Professor Emerson Urizzi Cervi, ex-coordenador do curso presencial de pós-graduação em Ciência Política.


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