Dono decide ‘doar’ bar tradicional de Curitiba e recebe mais de 100 propostas

Por - Josianne Ritz e Rodolfo Kowalski
O Canabenta foi aberto em 2008 e fica no Alto da XV: cardápio inspirado nos tradicionais botequins
O Canabenta foi aberto em 2008 e fica no Alto da XV: cardápio inspirado nos tradicionais botequins (Foto: Franklin de Freitas)

O agravamento do cenário econômico em decorrência da pandemia do novo coronavírus está obrigando diversos estabelecimentos a fecharem suas portas. E em Curitiba, um empresário resolveu adotar uma medida inusitada e deu certo. Ontem, Délio Canabrava, proprietário do tradicional Bar CanaBenta, localizado há 14 anos na Rua Itupava, no Alto da XV, decidiu anunciar que irá “doar” o seu negócio. Segundo ele, a resposta foi imediata, tanto que recebeu mais de 100 propostas: “Vou ter agora que praticamente fazer um concurso para decidir quem vai ficar com o Canabenta. Terei muito trabalho agora”.

Segundo a oferta de Délio, o interessado não precisa pagar nada para adquirir o bar, mas terá que assumir um passivo de R$ 350 mil , que inclui um financiamento do estabelecimento, que hoje conta com nove funcionários. “ Naturalmente, será feito um contrato com advogado, para formalizar toda a negociação e a doação do estabelecimento para o novo dono. Mas nós já fizemos um bom corte, tínhamos 21 funcionários”. Hoje, em tempos de novas restrições na chamada quarentena restritiva, o local funciona somente com delivery. “Quando pudemos abrir durante a pandemia, o movimento estava muito bom”. O principal motivo para a ‘doação’ é a dificuldade que o bar tem enfrentado nos últimos tempos e a nova quarentena restritiva por 14 dias determinada pelo governo do Paraná desde ontem foi a gota d´água para a decisão de passar para a frente o estabelecimento.

“Eu tenho outros dois negócios que vão muito bem, que é a Cantina do Délio, a Bela Banoffi e agora estou abrindo um congelados também, Empório Cantina do Délio. Então tenho três outros negócios que vão melhorzinho que o Canabenta”, explicou ele.

Na opinião de Délio, que começou como cozinheiro e está no ramo de bares e restaurantes desde 1997, os empresários têm, sim, chance de sobreviver à crise do coronavírus.: “Se focarem na qualidade de delivery e infelizmente reduzirem a folha de pagamento, porque os encargos são muito altos”.

O Canabenta foi aberto em 2008 e fica na rua Itupava, no Alto da XV. A inspiração do local vem dos tradicionais botequins, enquanto o cardápio traz gostosuras da gastronomia brasileira. As caipirinhas no pote são as queridinhas quando o assunto é drinks, enquanto o Pão com Bolinho, a Carne de Onça e o RollMops estão entre os destaques do cardápio.

Abrabar fala para associados ‘entregarem as chaves’
Após o anúncio do “lockdown parcial’, que suspende diversas atividades comerciais, entre elas bares e casas noturnas por pelo menos 14 dias, o presidente da Associação Brasileira de Bares e Casas Noturnas (Abrabar), Fábio Aguayo, enviou um vídeo aos associados recomendando que quem não vê condições de continuar a empreender que feche as portas. “Vamos entregar simbolicamente as nossas chaves no Centro Cívico e exigir linhas de crédito do Governo do Estado, daquele R$ 1 bilhão anunciado. Queremos saber quem teve acesso ao dinheiro”, diz.

Ele afirma não houve qualquer tipo de ajuda neste meio tempo, e que os empresários não conseguiram ter acesso às linhas de crédito prometidas pelo governo do estado e pelo ministério da Economia.

Obter empréstimo para contornar a crise desencadeada pela pandemia do novo coronavírus, aliás, tem sido um dos principais desafios dos pequenos negócios. A 4ª edição da pesquisa Impacto da Pandemia do Coronavírus, realizada pelo Sebrae em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra que 21,3% dos pequenos negócios no Paraná conseguiram obter crédito junto às instituições financeiras. Outros 31,1% ainda aguardam respostas e 47,7% tiveram o crédito negado. O percentual é maior que a média no Brasil, que é de 16% de sucesso na obtenção de crédito.

“Nos países desenvolvidos, existem políticas de crédito a juros zero porque os pequenos negócios são essenciais para o funcionamento do sistema econômico. No Brasil, o crédito continua caro e burocrático. Elas são 99% das empresas e respondem por a maior parte dos empregos. Em tempos de pandemia, a prioridade deveria ser manter as empresas vivas. Se não socorrermos as empresas que precisam de crédito, não vai haver empresa para voltar a produzir e não sairemos dessa crise tão cedo”, explica o presidente do Sebrae, Carlos Melles, ao analisar o cenário nacional.

Efeito

Comida di Buteco adia concurso em Curitiba
Os organizadores do tradicional Concurso Comida di Buteco anunciaram o adiamento da edição para 2021 devido à pandemia de Covid-19. O concurso, que já estava na 21ª edição e acontece em diversas cidades reúne cerca de 600 estabelecimentos e costuma levar mais de 8 milhões aos botecos.“

“Desde o início da pandemia foi criado um comitê de crise, com inputs tanto do poder público como de infectologistas ligados aos patrocinadores e também parceiros do Comida di Buteco, para análise da disseminação da Covid-19 no país. Após esse período de 90 (noventa) dias de acompanhamento da situação pandêmica e após consulta aos patrocinadores, parceiros, butecos do Comida di Buteco, o consenso foi pelo adiamento do concurso edição 2020 para 10 de abril de 2021”, diz a nota dos organizadores.

“Temos ciência do que representa este adiamento em termos de custos para o CDB, para os butecos participantes, para as marcas patrocinadoras e parceiros, mas, agora, o mais importante é garantir a segurança do público e a longevidade do concurso, pois tempos melhores virão”, diz texto sobre o adiamento.

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