Cuidado! É cada vez mais fácil e barato produzir uma 'deep fake´

- Atualizado às 14:52
Por - Folhpress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Eu só acredito vendo." De Silvio Santos a são Tomé, algumas pessoas precisam de provas imagéticas para ter certeza de que algo aconteceu. Nos tempos atuais, porém, imagens são cada vez menos decisivas para provar a veracidade de algo. Nos últimos dias, viralizou um suposto vídeo íntimo de João Doria, em que o candidato tucano ao governo paulista participaria de uma orgia.

Para olhos leigos -e para muitos treinados também- o vídeo parece legítimo. Perícias indicaram que se trata de "deepfake", isto é, o rosto de Doria teria sido inserido digitalmente no vídeo. Parece ficção científica, mas é algo possível -e não restrito aos grandes estúdios.

Hoje em dia, para fazer um "deepfake" basta "uma boa placa de vídeo, uma boa conexão e algum conhecimento técnico em manipulação de imagens", diz Jair Peres, professor da Escola Britânica de Artes Criativas, em São Paulo.

Também é preciso possuir imagens da pessoa que se quer emular, o que é trivial no caso de pessoas públicas, mas também não é impossível no caso de cidadãos comuns, em tempos de superexposição voluntária nas redes sociais.

Por fim, é necessário um programa de computador para processar as imagens, que pode ser desde um de última geração até um software baixado de graça da internet.

Sobre o vídeo íntimo atribuído a Doria, Peres diz que "tecnicamente falando, é perfeitamente possível ser um 'deepfake' mesmo".

A técnica não é exatamente recente, mas vem sendo aperfeiçoada. No início da década de 1990, o ator Brandon Lee morreu acidentalmente durante as gravações do filme "O Corvo", antes que a produção fosse finalizada. Para que todo o trabalho não fosse perdido, a solução encontrada foi inserir digitalmente o rosto do ator sobre o de um dublê.

Em "Velozes & Furiosos 7", com a morte de Paul Walker, seu rosto também foi projetado digitalmente em dublês.

Já com Carrie Fisher, o contexto foi diferente. A atriz não participou de "Rogue One" e só viria a morrer depois que o filme estava finalizado. A técnica foi usada para recriar uma princesa Leia de 19 anos, idade que a atriz tinha quando participou do primeiro filme da franquia "Star Wars".

Esse tipo de ferramenta também pode ser utilizada para troca de imagens de fundo e retoques em geral.

No Brasil, o uso da ferramenta não é algo fora da realidade. "Eu trabalhei em campanha política até 2002. Na época, já havia softwares aqui no país para fazer retoques em tempo real de rugas e sinais faciais. Você pode filmar um ator destruído e dar um tapa para corrigir as imperfeições", diz Peres.

Hoje em dia, a técnica "é muito mais acessível e mais barata", diz. É cada vez menor o abismo entre ferramentas ultratecnológicas, a que só grandes estúdios costumavam ter acesso, e o que está ao alcance do usuário comum.

Mas essa massificação dos softwares de efeitos visuais respinga em um campo bem delicado, uma vez que a técnica também tem sido usada para fins não tão artísticos.

O "deepfake" já foi usado para inserir os rostos de atrizes como Gal Gadot e Natalie Portman em cenas de filmes pornográficos. E nada impede que seja empregado em imagens e discursos de políticos.

Peres, que também é vice-presidente da Associação dos Montadores de São Paulo, diz que não acredita que "regulação vá coibir esse tipo de coisa, mas sim educação".

Para a advogada Clarissa Oliveira, do escritório Stocche Forbes, uma possível forma de combater os males do "deepfake" e de outras fake news seria a responsabilização das plataformas que veiculam esse tipo de mídia, como WhatsApp, Google e Facebook, impondo fiscalização.

Segundo ela, empresas de indústrias tradicionais "já têm que lidar com essa responsabilidade". "Tanto a legislação brasileira quanto a mundial responsabilizam as empresas pelo que elas divulgam."

Comentários

© 2018 Barulho Curitiba