Corte de bolsas coloca tratamentos para doenças crônicas, remédios novos e outras pesquisas em risco na UFPR

- Atualizado às 07:34
Por - Redação Barulho Curitiba com UFPR
(Foto: Marcos Solivan/UFPR)

Imagine que você foi contratado para trabalhar no desenvolvimento de remédios que podem melhorar a vida de portadores de doenças que praticamente não têm tratamento disponível. Para isso, mudou-se para outro estado e reprogramou sua vida com base nesse emprego, contando com o salário que receberia. Porém, quando começou a trabalhar, descobriu que não iria mais receber pagamento. É nessa situação que centenas de pesquisadores se encontram após o corte de bolsas anunciado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) no início do mês.

Farmacêutica, mestre e doutora pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Quelen Iane Garlet pesquisaria novas terapias para o controle de diferentes patologias neurológicas como estresse pós-traumático, ansiedade e modulação da memória. No mesmo dia em que teve sua bolsa do programa de pós-doutorado aprovada, ela recebeu a notícia de que a sua bolsa era uma das afetadas pelo corte. Moradora de Santa Maria (RS), Quelen já retornou para sua cidade e não vai prosseguir no Programa de Farmacologia.

Segundo a Capes, a bolsa destinada à pesquisadora estaria ociosa, mas, na realidade, ela estava no meio de um processo seletivo. “O recurso era um estímulo a essa pesquisa incrível, que agora será parada, com a qual eu teria a chance de colaborar e de inserir outras técnicas, contribuindo para novos tratamentos de transtornos neurológicos. Eu deixei toda a minha vida em Santa Maria para seguir meu sonho de ser pesquisadora”, revela.

Kauê Cézar Sá Justo se encontra em um cenário bastante semelhante. Também farmacêutico, ele é mestre pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e seu projeto de doutorado propõe investigar problemas relacionados à medicação em pacientes com artrite psoriática, para garantir aos portadores da doença melhor tratamento e menos efeitos adversos. Em razão de seu orientador estar afastado para pós-doutorado no Instituto Scripps Research (Califórnia), ele precisou de um pouco mais de tempo para programar sua defesa, que foi realizada no dia 18 de abril, e por isso acabou perdendo a bolsa.

“Desde a minha saída do mestrado até a entrada recente no doutorado, eu tive que deixar de lado por um tempo os estudos pela necessidade de trabalhar. Agora, precisei me reorganizar para poder voltar aos estudos e, apesar de estar matriculado, não conseguirei fazer minha mudança para Curitiba”. Justo mora em Campo Grande (MS) e abriu mão de algumas oportunidades de emprego para seguir com sua pesquisa.

A biomédica Tatiana Zaire Curi, que é mestre pela UFPR também não tem certeza se conseguirá dar continuidade ao doutorado, já que todas essas pesquisas exigem dedicação integral. Seu estudo foca em substâncias químicas às quais estamos expostos no dia a dia e que podem afetar o desenvolvimento dos fetos por serem capazes de interferir com o sistema endócrino.

“Essas substâncias chamadas ftalatos são plastificantes presentes em diversos produtos de uso comum no cotidiano. Eles vêm sendo fortemente associados com a maior incidência de problemas reprodutivos como redução da fertilidade, aumento em alguns tipos de câncer, entre outros”, afirma.

Tatiana diz não ter dúvida sobre gostar do que faz e sobre a carreira que pretende seguir, porém reforça a importância do incentivo. “Esses cortes nos deixam bastante desanimados. Espero que a situação seja revertida, pois muitos estudantes dependem unicamente da bolsa como renda e se dedicam ao máximo para a pesquisa no Brasil, que é essencial para o desenvolvimento do País”.

A pesquisa sobre novos tratamentos para a dor crônica facial realizada por Érika Ivanna Araya também corre o risco de ficar estagnada, já que a estudante acabou de retornar do doutorado sanduíche na Universidade de Calgary, no Canadá, e não teve a sua bolsa reativada pela Capes aqui na UFPR. A farmacêutica, que é de nacionalidade argentina, trouxe na bagagem do Canadá inúmeras técnicas moleculares para identificação de neurônios que são ativados em condições de dor crônica.

“A dor na face afeta a fala, a alimentação, além de diversos outros fatores no cotidiano das pessoas e não existe um bom tratamento disponível. O objetivo da minha pesquisa é demonstrar novas áreas a serem exploradas para futuros tratamentos que possam dar uma solução às pessoas que sofrem com essa dor”. Ela conta que a bolsa de estudo é seu sustento e o recurso que possui para participar de congressos e mostrar que as pesquisas brasileiras são importantes e trazem inovação.

Para Maria Fernanda de Paula Werner, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia, conceito 5 pela Capes, se essa situação não for revertida, a continuidade da Pós-Graduação ficará seriamente prejudicada, pois não há um panorama favorável iminente. Ela conta que teme pela asfixia e desconstrução do curso, que completou 19 anos em 2019. Foram retiradas 12 bolsas do programa que estavam em processo de implementação e o impacto na pesquisa será imediato.

“Um pós-graduando que se dedica exclusivamente à pesquisa precisa da bolsa como recurso para o seu sustento. Infelizmente, o cenário que está se formando aumentará a ‘fuga de cérebros’ dos nossos talentos que irão procurar formas de ingressar no exterior, onde a pesquisa é valorizada e incentivada”, diz Maria.

Em 2018 a Capes aprovou o início de nove novos cursos na UFPR, entre mestrado e doutorado, que agora se encontram abalados. Para esses cursos, foram atribuídas novas bolsas que, até a data do corte, ainda não haviam sido implantadas justamente pelos programas estarem em processo de seleção de estudantes.

Um exemplo é o recém aprovado doutorado em Comunicação, que recebeu a atribuição de quatro bolsas, para distribuir entre integrantes da sua primeira turma, no dia 24 de abril e, em seguida, no dia 8 de maio, teve as mesmas bolsas suspensas. Essa situação, além de comprovar que não houve ociosidade, gera um impacto em 100% das bolsas e praticamente inviabiliza o programa que é novo e precisa de incentivo.

Manoela Fortes Fiebig foi aprovada para essa primeira turma do curso e vê a possibilidade de não concretização desse sonho. “Sou natural de Palmeira das Missões, cidade do interior do Rio Grande do Sul, e estudei a vida inteira em escolas públicas. Enquanto filha de professora da rede estadual e de balconista de farmácia, eu e meus dois tivemos dificuldade em acessar determinadas coisas. Por isso a rede pública sempre foi muito importante para nós, tanto na área de educação quanto na de saúde”.

A jornalista mora em Passo Fundo (RS) e pediu demissão do emprego para poder se mudar para Curitiba e se dedicar integralmente à pesquisa e ao curso. “Atualmente estou desempregada e a bolsa era meu passaporte, a única possibilidade de conseguir cursar o doutorado. Seguir carreira acadêmica sempre foi meu plano de vida e essa notícia me deixou extremamente triste e sem norte, pois venho de uma família humilde que não tem condições de me ajudar financeiramente”.

Na mesma situação está o colega de turma de Manoela, Nilton Cesar Monastier Kleina, que pediu demissão de um emprego de longa data para focar na pós-graduação. “Sem a bolsa, terei que dedicar boa parte do dia com trabalhos como freelancer, o que pode prejudicar a própria atividade acadêmica”.

Apesar das dificuldades, ele não pretende abrir mão do sonho da carreira de pesquisador e de docente. “Sou casado e minha esposa complementa a renda, mas claro que agora nosso orçamento vai precisar ser totalmente revisto. Porém, acho que é justamente nessa situação que a universidade mais precisa dos seus alunos”.

Cortes

No início do mês, a Capes anunciou a suspensão de mais de cem bolsas de estudo só na UFPR. O argumento de que essas bolsas estavam ociosas não se justifica, já que eram recursos que tinham destino, mas em grande parte estavam em processo de atribuição ou de seleção, o que acontece devido à saída de alunos que terminaram o curso e à entrada de novos estudantes.

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