Conheça a história de Aramis Chain, um dos últimos livreiros do Brasil

- Atualizado às 16:23
Por - Rodolfo Luis Kowalski
Aramis Chain em sua livraria: resistência
Aramis Chain em sua livraria: resistência (Foto: Franklin de Freitas)

Aos 76 anos de vida, o curitibano Aramis Chain já viveu e viu muito. Principalmente, arrisco dizer, já leu muito. Há 52 anos comanda a Livraria do Chain, localizada em frente à reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e que em 1993, em votação realizada pela Folha de S. Paulo, foi eleita como a melhor do Brasil. Hoje, desponta como um dos últimos livreiros do Brasil, profissão que ele mesmo diz estar em extinção, embora sua livraria resista e, como o próprio afirma, não esteja em "decadência". É que seu diagnóstico, em verdade, é mais profundo. "Eu tenho a livraria, que não está em decadência. Quem está em decadência, na verdade, é a cultura hoje no Brasil.”

A ideia de montar o negócio, conta, surgiu quando os cursos de pós-graduação começavam a engatinhar na UFPR, onde formou-se em História. Durante a graduação, para manter os estudos e também para se manter, vendia até enciclopédia britânica. Foi quando seus professores lhe deram uma sugestão que mudaria sua vida: “Se gosta tanto de livro, por que não abre uma livraria? Nós estamos precisando de livros importados.”

Surgia assim a livraria “Uma Nova Ordem”. Mas o nome idealizado pelo proprietário não pegou. "Desde o início o pessoal já dizia ‘vai lá no Chain, ali do lado da Reitoria’”, relata o livreiro, que então abraçou o nome Livraria do Chain, hoje estampado na fachada do estabelecimento.

Nos tempos áureos chegou a ter 40 funcionários em sua loja e o movimento de pessoas ávidas por conhecer o mundo era intenso. “No período, por exemplo, das décadas de 1970 e 80, era impossível falar com você, tal o número de pessoas desesperadas no querer saber o mundo, saber o Brasil”, recorda ele.

Os leitores, no entanto, rarearam e na sequência ainda vieram as novas tecnologias e as grandes redes online de venda de livros, como a Amazon. Hoje, o número de empregados é 20% do que já foi um dia e, ainda assim, há tempo para o livreiro para bater papo longamente com um jornalista durante a manhã de uma sexta-feira (14 de fevereiro).

Para os que ainda se apaixonam pelas letras, a boa notícia é que o acervo da Livraria do Chain segue riquíssimo, com opções para todos os gostos. "A livraria vai indo, ainda com relativo estoque e a abrangência de todas as áreas, todas as ciências, o que hoje é difícil de você ver", comenta.

Esse, inclusive, é um dos motivos para a livraria levar a fama de que se um livro é difícil de ser encontrado, basta procurar na Chain que a odisseia chegará ao fim. Fama essa que diverte o livreiro.

"Acho interessante. As pessoas falam: 'eu procurei em todos os lugares e só encontrei aqui'. E ainda dizem: 'eu dou preferência só para você, Chain'. É fantástico esse modo de ser."

Bem Paraná – Primeiramente, qual o nome completo do senhor, está com quantos anos de vida...
Aramis Chain - Estou aqui sendo gravado, num dia maravilhoso de Sol (a entrevista foi feita na sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020), com um amigo repórter, e ele está na Livraria do Chain, que foi criada por Aramis Chain, que sou eu. Estou com 76 anos de idade e a livraria tem 52. Então você pode ver que eu já bem novo tinha esta empresa. Fiz concurso público para efetivar o magistério, era o governador Paulo Pimentel, eu fiz História e durante alguns anos lecionei. Ao mesmo tempo montei uma livraria de importação de livros, porque os cursos de pós-graduação estavam começando a se fazer aqui na Universidade Federal do Paraná, que é ao lado de onde eu tenho a livraria. Deixei o magistério para me dedicar com exclusividade e foi um boom, porque nessa época as livrarias confundiam-se com papelarias. Hoje, se você for ver, tem algumas empresas que se dizem livrarias, mas só vendem papel. São resquícios do que ocorreu nesse período.

A partir de 20, 30 anos atrás, começou um desequilíbrio no conhecimento e na cultura. As livrarias foram desaparecendo por um processo de globalização e há uma grande mentira de dizer que nos outros países se está lendo. Muito pouco. Até uma livraria de Portugal, famosa, teve de pedir ajuda do governo para não fechar as portas. Outra livraria, no Porto, também em Portugal, cobra de quem quiser entrar lá dentro. Virou um museu, realmente.

Hoje, o sujeito que entra numa livraria, ele não pertence a esta sociedade do consumo, que é o consumo da maconha, da cerveja, de tudo isso que estamos vendo. Novas leis foram instituídas a favor deles, contra nós. Então é essa situação que estamos vendo com os livros.

A livraria tem ainda um sentido das ciências humanas, biológicas, abrange todas as áreas. Quando eu comecei era o período militar, então os militares vinham aqui porque eu importava muito livro que trazia Nietzche, Freud, Marx, Engels. Eles vinham e diziam: “Escute, o senhor na verdade é comunista”. E depois da Constituição, pós-1988, sofri a pressão dos caras de esquerda, que vinham e diziam “mas escute, você está vendendo os livros da direita? Você na verdade é fascista, você é nazista”.

Primeiro lugar, no Brasil nunca existiu esquerda e direita. Existiu aproveitadores políticos que se diziam desse lado ou deste, haja vista que você vê a história do Brasil e é a coisa mais infame. Eu, que fui professor de História, nos livros está escrito que o Brasil é dividido em três: o branco, o negro e o índio. Porra... O índio é brasileiro e o branco é brasileiro como o negro. Então o Brasil é constituído de branco, de negro, de índio. Já se fazem as divisões porque têm quadrilhas para trabalhar dividindo o Brasil.

Aliás, o Brasil não é hoje um país. O Brasil é uma casa de comércio, ele é obrigado a produzir para os donos do mundo. É um celeiro. Aí o povo entusiasmado diz assim: “Veja, nós somos os primeiros na soja!” Mas quanto você ganhou na soja? Quanto você ganhou na exportação do café ou do açúcar? “Ah, isso vai pra saúde”. Saúde é uma brincadeira de mau gosto, para não falar em educação. O ensino à distância, como diz o nome, o ensino está distante. 

Enfim, este é o Brasil.

BP – O senhor nasceu aqui em Curitiba mesmo?
Chain - Nasci aqui em Curitiba, mas meus pais e avós são todos estrangeiros. Meu avô nasceu no Líbano, é de origem xiita. Mas recebi, há muitos anos, uma visita de um embaixador do Irã, que disse que uma família de nome Chain saiu do Irã há mais ou menos 200 anos, por conta de guerras, e vieram atravessando todo aquele Oriente Médio para chegar nos Montes Líbano, onde o grupo xiita é maioria atualmente naquela região. Fiquei interessado por essa história, tenho interesse, mas ainda não fui atrás. Do outro lado, materno, tem um pouco de alemão com ucraniano. Essa comunidade visivelmente vem aqui também fazer compras. Mas a livraria, no período por exemplo das décadas de 1970 e 1980, era impossível falar com você, tal era o número de pessoas desesperadas no querer saber o mundo, saber o Brasil.

BP – Chegou a ter quantos funcionários? E hoje emprega quantas pessoas?
Chain - Cheguei a ter 40 funcionários. Hoje tenho 20% disto (oito funcionários). Se você também for ver, você pode fazer redes de bebida, de bares. Mas de livrarias é brincadeira, têm algumas até vendendo vinho. Na minha época de infância eu lembro que nós tínhamos 26 livrarias-livrarias, e só tinha uma livraria de livro lido. Porque o livro usado, o chamar de sebo, é uma coisa muito pejorativa chamar disso. Em Portugal já existe um outro nome (alfarrábios) muito mais delicado para tratar.

Mas a livraria vai indo, ainda com relativo estoque e a abrangência de todas as áreas, todas as ciências, o que hoje é difícil de você ver.

Na década de 1990, final de ano, o telefone tocando à noite. Era 1993. Domingo fui abrir o jornal e trazia “A Livraria número 1 do Brasil é a Livraria do Chain”. Esse prêmio foi muito interessante e recebi muitos elogios de diversos lugares.

Mas os políticos, têm políticos célebres aqui no Paraná, que dizem que quando querem comprar livro vão para São Paulo ou compram pela Amazon. Ou seja, estamos vivendo o desemprego pela culpa do próprio brasileiro, que não compra mais o pão da padaria, a fruta da frutaria. Ele não vai comprar o arroz e o feijão da mercearia que está ali ao lado. Ele vai hoje nesses grandes supermercados internacionais e depois quer saber porque a família dele não tem emprego mais, porque ele mesmo está desempregado. Supermercado, essas grandes empresas, é uma mentira dizer que emprega.

BP – Podemos dizer que o Brasil ou que a sociedade brasileira em geral é o exemplo d’O Homem Medíocre, livro que o senhor mesmo me recomendou a leitura anos atrás?
Chain - É, exatamente. Eu estava no Colégio Estadual do Paraná - sempre estudei em escolas públicas, que nessa época eram fundamentais, eram excelentes - e lá eu conheci essa obra por um professor que me disse: “você quer aprender a ser ético? Está aqui esse livro”. O livro era em espanhol, eu li, depois consegui adquirir. Mal sabia que depois de me formar eu ia me tornar livreiro e editor. Essa obra me acompanha o resto da vida junto com outro livro, chamado “O Homem Moderno”. É o fundamento básico da ética e moral que um ser humano deveria de ter. Na Argentina é considerado o livro número dois, depois da Bíblia. O autor é um argentino, José Ingenieros. Ao lado disso tem uma série de romances, mas são romances com finais bons de conhecimento, de fundamentação familiar. E falando em família, onde é que está a família hoje? Então esses fatos me deixam um pouco triste de ver para onde está indo esse país. Salários extraordinários com pessoas que será que estão produzindo pelo Brasil? Essa é a pergunta. E o povo, na verdade, está só andando atrás deles.

BP – Aproveitando até esse gancho sobre a família, como foi a tua infância aqui em Curitiba e como também que nasceu essa paixão, esse gosto pela leitura?
Chain - Em casa de meus avós e mesmo em casa de meus pais nunca deixamos de ter uma pequena biblioteca. Nessa época existiam as revistas e os jornais, como Manchete, Cruzeiro, Gazeta (do Povo), O Dia, O Estado do Paraná, então tudo isso era lido. Viemos de uma classe média aonde você não chamava os vizinhos de classe média ou classe rica. Ao lado de nossa residência estava o Adubos Boutin, que era uma família de alemães com posse. Mas todos íamos jogar, todos os vizinhos. Tinha o polaco, o negro, o alemão. E a gente chamava de polaco, negro, sem preconceito. Hoje não pode chamar. Então era uma sociedade mais de família local e regional. Isso aí desapareceu. Hoje, se você for ver, é o terrorismo. Hoje você tem de tomar cuidado com o que fala.

Nasci no período da rodoferroviária atual. As vezes dava enchente, que passava ali o Rio Belém, Ivo. O asfalto estava se começando naquela região e a gente brincava muito na rua: bolinha de gude, futebol, que se fazia as peladas, brincava-se de bete ombro, víspora... Qualquer coisinha assim para reunir os elementos. Hoje...

Semana passada uma senhora veio aqui comprar uns livros e me disse: “ainda bem que têm as escolas para obrigar os meus filhos a lerem livro”. Eu disse que a escola é um complemento da educação que ela dava lendo com eles. Ela responde dizendo que tinha pavor de livro e que o marido dela também, que ele não podia nem ver um livro na frente. Essa é a sociedade que está educando, que não tem biblioteca em casa, mas pode ter um local para a cerveja, para whiskey, para todos esses aparelhos eletrônicos. E quando você está na angústia, então, dizem aí os doutores das ciências: “viaje, faça turismo”. Mas será que quando você faz turismo e volta, resolveu o problema? Por isso ler o “Admirável Mundo Novo”, do Aldous Huxley, que é um livro muito interessante, de reflexão, que é o que estamos vivendo hoje. O produto que ele diz, a Soma, que é uma goma de mascar, hoje é a maconha. Esse é o mundo que estamos vivendo.

BP - E por que decidiu cursar História?
Chain - O primeiro vestibular que eu fiz foi de engenharia química. Mas sabe o que acontece? Meus familiares, uns diziam para fazer Medicina, outros para fazer Engenharia. Mas fui muito influenciado por meus avós e outras pessoas que me contavam histórias de seus países e tive grandes professores nessa época. Daí fiz o vestibular sem fazer cursinho, porque nessa época não tinha tanto cursinho para passar, e me dei muito bem. Isso aí me abriu tanta leitura... Qual é a ciência que não necessita de História? A História, eu diria, é imperativa para tudo. Aí você vai vendo um pouco da História antiga, medieval, moderna, contemporânea... Nós temos divisões nesse sentido (na livraria), então muita gente vem aqui.

Aliás, acho interessante. As pessoas falam: “eu procurei em todos os lugares e só encontrei aqui”. E ainda dizem: “eu dou preferência só para você, Chain”. É fantástico esse modo de ser. Mas a livraria vai indo. Sofrendo agruras, mas vai indo.

BP – E o teu nome tem uma história curiosa também, porque não foram teus pais que tiveram a ideia.
Chain - Meu nome é Aramis. Meus pais estavam discutindo o nome e um vizinho passou e disse: “escute, por que você não dá o nome de Aramis?”. Daí meu pai achou interessante, minha mãe achou interessante, e saiu o nome Aramis. A origem, na verdade, é grega, e não francesa, embora tenha “Os Três Mosqueteiros”. Mas o nome não vingou, vingou o sobrenome. Minha mãe que me contou essa história e um dia eu estava atendendo muita gente na livraria e chega um senhor aqui e me diz: “fui eu que te dei esse nome”. Ele já estava aposentado, morava em Paranaguá e me contou toda a história. São valores. Nome é muito importante como histórico, como o nome de um país. E quando o sujeito é malandro, imoral, suja aquele nome. Ele perdeu a honra e perdeu para toda a família. Mas alguém está cuidando de seu sobrenome ou de seu nome? Não! O que vale hoje no mundo é poder e dinheiro.

BP – E por que para ti isso do nome é algo tão relevante?
Chain - O nome é honra. Até um dos símbolos do cristianismo é ‘honra teu pai e tua mãe’. E como é que você vai honrar teu pai e tua mãe se você perdeu seu sobrenome? Se você perdeu, na verdade, os valores? Empresas, você pode ver, nós tínhamos empresas fantásticas aqui: Hermes Macedo, Prosdócimo, Simon... E de repente perdeu-se tudo isso. Se você for ver. atrás de tudo isso foi a ganância, o poder, e não souberam dar continuidade. Hoje uma empresa que tem 50 anos é uma brincadeira nesse país.

BP – Uma resistente.
Chain - É. A resistência.

BP - Ainda mais se for uma livraria.
Chain - É, a nossa livraria ainda está resistindo a isso. Minha filha trabalha aqui comigo. Mas isso é a história. Aqui passou muita gente, não preciso nem citar. Visitas de muita gente de fora. Para te falar, até o Brizola fez reunião aqui com o pessoal quando ele voltou (do exílio). Trafegou aqui muito o (Paulo) Leminski, grandes médicos... Se você for ver, quanta gente que foi tratado na área da pediatria e depois de melhorar, crescer, foi agradecer a esse médico ou essa médica? Raramente as pessoas fazem isso. Devia de voltar, nem que seja com meia dúzia de laranjas, e dizer: “Doutor, o senhor está aposentado, mas eu quero agradecer ao cuidado que o senhor me teve quando eu era criança”. Esse sentido de bondade, de hospitalidade, de amor às coisas, amor ao local, morreu tudo.

BP - O senhor também serviu ao Exército, né?
Chain - Ah, sim. Servi. Iniciei meu CPR e foi um período muito bom e interessante. Tinha 17 para 18 anos. Terminei apto a ser sargento, mas na metade do período tive um problema de ouvido e aí eu não pude terminar por causa disso. Logo em seguida fiz as provas para concurso de professor e a coisa correu muito bem.

BP - E antes da livraria o senhor participou também dos Arquivos Paranaenses, do esforço para levantamento e conservação da memória de municípios da região metropolitana de Curitiba.
Chain - Isso é verdade. Eu fui também do Instituto Histórico do Paraná, os arquivos aqui da Lapa, por exemplo, eu trabalhei. Nessa época o grupo de professores trabalhava gratuitamente e nisso foi feito o levantamento da documentação paranaense, aonde pegaram as regiões, os museus, cartórios, lugares onde havia essa documentação. Dizer que não houve escravidão no Paraná é uma mentira muito grande. O que o índio e o negro sofreram desgraçadamente... E ainda há resquícios sobre isso. Mas não só eles. Os imigrantes que vieram, ucranianos, poloneses, foram colocados nas terras mais desgraçadas e, com grandes sacrifícios, ainda conseguiram sobreviver e formar suas famílias. Isso é um pouco da história nossa, da qual eu participo principalmente no setor da comunidade alemã e ucraniana. São coisas que fazem bem à gente lembrar.

BP - E como surgiu a livraria, a ideia de montar o negócio?
Chain - Eu tive grandes professores, como Bento Munhoz da Rocha, Brasil Pinheiro Machado, Cecília Westphalen... Quando eu estava terminando História vendia até enciclopedia britânica para terminar o curso e prover algum dinheiro. Eles disseram: “Escute, se você gosta tanto de livro, por que não abre uma livraria? Nós estamos precisando de livros importados”. E foi aí que comecei. Entrei com o nome da empresa e comecei a importar da Espanha, Portugal, que era o período militar. O caso de Portugal era interessante. Eles viviam um regime autoritário, então as editoras de Portugal publicavam esses livros de esquerda, mas não vendiam lá. Aí eu e mais uns dois, três no Brasil, que nós tínhamos essas livrarias chamadas de livrarias subversivas, recebíamos esse material. E hoje, na verdade, a esquerda acha que é subversivo eu vender um livro de algum ministro atual. “Como é que você está vendendo um livro do Moro?”. Então são, na verdade, partidos, como o próprio termo diz. São partidos. Vai me dizer que isso é esquerda ou direita? Esses caras estão interessados no dinheiro e no poder.

BP - E o nome desde o início era Livraria do Chain?
Chain - Era. Eu tinha colocado como “Uma Nova Ordem”, mas não pegou. Desde o início o pessoal já dizia “vai lá no Chain, ali do lado da Reitoria”. E aí vingou como livraria. Tive diversas filiais no Paraná, Santa Catarina. Mas tem o velho ditado, que o olho do dono é muito melhor. Não dava certo e ainda não dá certo, tanto que as empresas têm porcentual para roubo, para corrupção, para perda. Eu viajei, fui para alguns países, e a coisa fantástica é que você pegava o jornal, colocava o dinheiro e ninguém precisava ficar vigiando nada. E funciona.

BP - E como foi no início da livraria e lidar com a ditadura militar aqui no Brasil?
Chain - Olha, quando você... É aquela célebre fábula do lobo e o carneiro. O carneiro está bebendo a água no riacho, vem o lobo e diz “Eu vou te comer”. O carneiro responde que está bebendo água embaixo do lobo, que não está bebendo a água dele, e o lobo então acusa o pai do carneiro. “Mas meu pai morreu há muitos anos”. O lobo, então, responde: “De todo modo eu vou te comer”. Estou te contando isso porque é essa a situação. Se alguém quer te perseguir porque você tem valores, porque você tem ética, você tem moral, ele inventa, como o lobo. E eu sofri bastante isso. O ciúme, a inveja, na verdade, ainda são valores imorais que estão constituídos na cultura latino-americana. Veja o pobre para quem você dá moeda. As vezes ele te agradece, as vezes ele te odeia. Tem de ver esses dois lados da moeda. Mas eu sofro, sofro bastante. Principalmente inveja e ciúme. E o que eu tenho? Eu tenho a livraria, que não está em decadência. Quem está em decadência, na verdade, é a cultura hoje no Brasil.

BP – E como o senhor vê essa transformação? O movimento na livraria mudou muito?
Chain - Com certeza absoluta. Os aparelhos eletrônicos, que mentirosamente o indivíduo diz que lê pela internet. Isso é mentira, ninguém está lendo. Raridade são pessoas de certa idade ou que estão montando bibliotecas. Têm alguns que eram candidatos, queriam ganhar eleições, e queriam comprar livro em metro para colocar atrás, (fingir) que o cara era um senhor da leitura. Quer dizer, é tudo fachada, tudo fachada.

BP - E o que mais te agrada ler? Qual o teu gosto literário?
Chain - Olha... Tudo que você possa ver. Por exemplo, no período do quartel eu fiz enfermagem. Então gosto muito da área da biologia, um pouco da neuro. História nem se fala, né. Gosto dos autores Eça de Queiroz, Monteiro Lobato. Eu acho Lima Barreto fenomenal e é impressionante: os negros não conhecem Lima Barreto, um dos maiores escritores do Brasil. E por quê? Porque na verdade os professores estão buscando autores novos ou ficam exatamente naqueles do ano passado, do ano retrasado. Repetição. Mas casar a literatura com História, com Política, isso é fundamental. Você pega um “Admirável Mundo Novo”, “O Retrato de Dorian Gray”, você pega “Recordações do Escrivão Izaías”, você pega “Triste Fim de Policarpo Quaresma”... Mas também, se você for analisar, todos esses grandes escritores (brasileiros) desse período, quase todos morreram de cirrose, pela desgraça de ver como o Brasil estava caminhando. Com exceção de Machado de Assis. Mas se você for ver porque se lê bastante Dom Casmurro, é porque tem uma passagem interessante de uma personagem que ela tem um deslize. E aí começa a discussão: ela deu ou não deu? E fica nisso a discussão, essa coisa de tesão e tal. E aí passa o ano, passa o mês e outras coisas importantes. O sexo está adentrando muito cedo na cabeça da pessoa. Se você pegar “O Alienista”... pelo amor de Deus, é um grande livro, aonde o Dr. Bacamarte, que é um psiquiatra, põe todo mundo na cadeia naquela cidade. Talvez nós estejamos precisando de Bacamartes aqui, viu.

BP - Ainda existem livreiros no Brasil?
Chain - Eu diria para você que é um grupo profissional em extinção, porque o livreiro tem de ter conhecimento, ele tem de ler. Então muitos estão como ermitão, indo ficar no seu canto, porque ninguém mais quer escutar coisas corretas.

BP – Qual o segredo para que façamos crescer o gosto pela leitura entre a população?
Chain - Você viu, ao chegar, que o pai estava com o menino aqui. É muito importante. Quando eu comecei a livraria, eu lembro que os pais vinham com os filhos e os filhos tinham um comportamento decente. Hoje as crianças vêm, pegam o livro, rasgam, jogam no chão e os pais ficam olhando. Antes eles chegavam, o pai dava um livro, a menina ou o menino sentavam e davam uma olhada. Mas eu ainda tenho um tipo de público assim, porque esse filho hoje é avô e agora traz os netos aqui. É com esse grupo social que eu consigo sobreviver.

Mas é isso, desde cedo (incentivar a leitura). Eu, quando professor, fazia assim com os alunos: contava metade da história e dizia que na aula seguinte terminava. Fazer com que o jovem se interesse. O filho e a filha, antes de dormir, você contar uma pequena história, que depois você vai ver que é tarde demais, você não recupera. Você recupera o sol de ontem ou o luar da semana passada? De jeito nenhum. Não se recupera nada, nem um minuto do que nós conversamos aqui. Então ter esse sentido é um sentido para a vida.

BP - E como o senhor imagina o futuro do mercado dos livros, das livrarias?
Chain - Tétrico. As empresas estão fazendo quadrilhas, poderia te dizer. As editoras religiosas, por exemplo, estão fazendo com que as escolas religiosas comprem de editoras religiosas. Grandes editoras, grandes universidades, estão publicando os seus livros, dos seus professores. Com raridade que vemos uma Cia das Letras, que está sobrevivendo, mas está sobrevivendo porque vendeu mais de 70% das suas ações para uma empresa chamada Penguim. E assim muitas estão desaparecendo, sendo compradas ou então o indivíduo está vendendo para organizações internacionais. As editoras estão sofrendo e está aí a Amazon. As editoras passam seus livros para esse grupo internacional. Quando você recebe um livro da Amazon, a Amazon não paga imposto. Mas se eu importar (um livro), eu pago. É toda uma legislação contra o brasileiro.

BP – E como imagina o futuro do Brasil? Tem alguma esperança?
Chain - O Brasil, na verdade, eu acho que ainda vai ser uma casa de comércio, aonde as pessoas vêm e dizem: "quero 30 mil toneladas de soja, de arroz". E nós servilmente iremos produzir para as pessoas, como é o caso da Inglaterra, que não produz o café e no entanto dita o preço da saca do café. Esses são os impérios que dominam, seja Inglaterra, China, Estados Unidos, Rússia... Esses serão sempre impérios. Os outros serão casas de comércio.

BP - E o que acontece com o povo nessa história, com as pessoas?
Chain - O povo será sempre um detalhe, porque as pessoas que fazem parte desse círculo vão em busca do poder para servir o poder. E isso é a regra na História. Cártago, por exemplo, sumiu porque era uma casa de comércio. Roma tinha projeto de império. Países que se montam apenas comercialmente, nesse sentido, passam a desaparecer se eles não produzem para si, para o seu país, e ficam locados no poder dos outros. “Para eu ser forte tenho que me aliar àquele”, mas aquele que é mais forte sempre verá você como um subalterno. Não há honra num país assim. Quando você amarra um rabo com um cidadão poderoso, se ele der o arranque, ele arranca o teu rabo. Então eu vejo que os países da América Latina e da África estão nessa situação.

BP - Para encerar, quais os livros que recomendaria como leitura obrigatória?
Chain - Eu diria que tenho bons livros para uma biblioteca básica aí. Mas se você quiser ler, por exemplo, “O Homem Medíocre”, “O Homem Moderno”, “Sem Família”, “O Retrato de Dorian Gray”, “O Admirável Mundo Novo”, toda a obra de Monteiro Lobato. Autores portugueses são muito interessantes, alguma poesia de Fernando Pessoa. Têm alguns livros que estão saindo de mitologia que são muito bons também. A mitologia tem um pouquinho de verdade, fábulas também são interessantes para você compreender a essência do ser humano. Na política nem se fala. Pega o Eduardo Galeano, que é muito bom, não é só o “Veias Abertas da América Latina”, ele tem outros livros. E discorrer sobre a Segunda Guerra Mundial, ler não só o lado do vencedor, ler o lado do vencido. Porque tem essa história de “não tem isso de revisão”. Mas se você não fizer uma revisão da História, como é que os negros vão saber de sua história? Como é que os índios vão saber da sua história? Como é que os alemães e italianos vão saber? A Polônia? A Hungria? Revisão é revisão. Vem do verbo rever. Vamos rever, rever tudo.

Comentários

© 2018 Barulho Curitiba