Com queda no Fies, cresce o número de bolsas em faculdades particulares no Paraná

- Atualizado às 09:45
Por - Narley Resende para o Barulho Curitiba
Luis Gustavo trocou de faculdade até conseguir uma bolsa
Luis Gustavo trocou de faculdade até conseguir uma bolsa (Foto: Franklin de Freitas)

A queda no número de beneficiários do Financiamento Estutantil (Fies) do governo federal e o esvaziamento das universidades particulares causado pela crise econômica fez aumentar o número de bolsas parciais de estudo oferecidas por instituições privadas de ensino. O objetivo é evitar o fechamento de turmas e encerramento da oferta de cursos. O Paraná, segundo levantamento do site Quero Bolsa, que reúne ofertas em todo o País, concentra 203 mil bolsas em 77 instituições de ensino em 2019. Segundo a empresa, o maior desconto oferecido é de 76%, válido para todo o período de curso. Na Grande Curitiba são 47 mil vagas.

Os cinco cursos com maior oferta de bolsas são Direito, Enfermagem, Administração, Pedagogia e Psicologia. Esses cursos também são os mais buscados por quem quer estudar e precisa de uma bolsa de estudo para cursar a graduação.

Há duas modalidades de financiamento, a primeira a juros zero é destinada a pessoas que tenham renda familiar mensal per capita de até três salários mínimos. A outra, chamada P- Fies , tem juros variáveis e é destinada a pessoas com renda familiar mensal per capita de até cinco salários mínimos.

O Ministério da Educação (MEC) informou ao Jornal Bem Paraná que o Estado teve neste ano 4298 vagas de Fies (juros zero) abertas para o início do ano e 1883 para o segundo semestre. O P-Fies, modalidade parcial financiada por bancos públicos e privados, não tem dados fechados por Estado. A maioria das vagas é viabilizada pela Caixa Econômica Federal e pelo Banco do Brasil, que não fornecem os números.

Na semana passada, encerrou o prazo para que estudantes do ensino superior que aderiram ao Fies oficializassem pedido de renegociação de dívida. Os débitos podem ser divididos em, no mínimo, 48 meses, sendo a parcela resultante da renegociação maior que R$ 200 obrigatoriamente. Além disso, há a parcela de entrada. O estudante deverá pagar ou 10% da dívida consolidada vencida, ou R$ 1.000 — o que tiver o maior valor.

Mais de 500 mil alunos estão com os contratos de financiamento na fase de amortização e com atraso no pagamento das prestações. Somado, o saldo devedor total alcança cerca de R$ 11,2 bilhões. Terminou neste mês o prazo para Fies. O Ministério da Educação (MEC) disponibilizou 46.600 vagas em 1.756 instituições de todo o Brasil.

Com 20 anos de existência, o Fies atingiu o seu auge em 2014, quando 732.673 contratos foram firmados. Com a crise econômica, entretanto, o fundo teve uma queira brusca em 2015, registrando 287.473 contratos. Depois disso, o financiamento foi minguando a cada ano, chegando a 82.424 contratos firmados em 2018. De acordo com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), a dívida atingiu esse valor porque três em cada cinco estudantes que usaram o programa para financiar os custos da universidade, estão inadimplentes.

Levantamento do site Quero Bolsa aponta que mais de 2 milhões de estudantes brasileiros estão na faculdade graças a algum incentivo financeiro. É a metade dos 4 milhões de alunos matriculados em cursos presenciais de graduação em instituições privadas de ensino superior (IES) do País. Enquanto o Fies perde espaço ano após ano, desde 2015, a oferta de bolsas de estudo disparou. O crescimento foi de 56,55%, entre 2010 e 2017, segundo apurou a equipe de inteligência educacional do Quero Bolsa.

Com base nos dados do Censo da Educação Superior constatou-se que o total de alunos matriculados com bolsas de estudo oferecidas pela iniciativa privada passou de 530.093 para 829.856. É a segunda modalidade de benefício com mais alunos matriculados, perde apenas do Fies, que fechou 2017 com 1,071 milhão de contratos ativos.

“Este é um retrato que está em transformação”, afirma o diretor de inteligência educacional do site Quero Bolsa, Pedro Balerine. “Há uma forte queda na concessão de novos contratos de financiamento via Fies ao mesmo tempo que as instituições de ensino oferecem cada vez mais bolsas de estudo. Nessa velocidade, os próximos Censos devem mostrar que as bolsas de estudo vão passar a ser o principal benefício utilizado por quem quer estudar”, completa.

A plataforma Quero Bolsa mapeou e reuniu em seu site mais de 2,8 milhões de bolsas em todo o Brasil, para o ano de 2019. São vagas para cursos de graduação e pós-graduação nas modalidades presencial e a distância.

“Tamanha oferta foi gerada depois que as instituições de ensino viram o ingresso de alunos despencar com os cortes no Fies e com o crescimento do desemprego. Não havia alternativa a não ser chamar para si a responsabilidade de viabilizar o ingresso de alunos e manter seus cursos em funcionamento”, explica Balerine.

Falta de alunos causa competição “antiética” de descontos

A corrida por alunos que preencham turmas desfalcadas faz as universidades oferecerem descontos considerados “desleais”, já que visam alunos já matriculados. O diretor de Ensino Superior do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares do Paraná, José Karam considera a postura antiética.

“De fato esta acontecendo. O desemprego, quando atinge, atinge a família toda do desempregado, então se são quatro pessoas de uma família, os quatro ficam impossibilitados de fazer faculdade. A situação econômica vem desmotivar. Esse 'quero bolsa' é um abrevio que vai afetar a economia de muitas instituições de ensino. Isso não responde à necessidade econômica da universidade. Existe uma competição de descontos para alunos saírem de uma universidade e ingressarem em outras. Eu não acho ético isso.”

Karam confirma que as universidades já não contam com alunos do Fies em sua receita. “A quantidade de bolsas do Fies não representa 10% do que tínhamos em 2015. Entre todos os alunos, 7% estão matriculados pelo Fies. O programa não atende quem de fato precisa, que é a Classe C.”

O estudante Luis Gustavo Oliveira é um que enfrentou dificuldades e trocou de faculdade até conseguir uma bolsa. Ele tentou o Fies pela primeira vez em 2015 e não conseguiu. Depois, ingressou em uma universidade, no curso de Jornalismo da PUC-PR, mas com bolsa parcial, ainda com valor superior ao que poderia pagar. Tentou o programa Pravaler, de bolsas privadas, da Tuiuti, mas também não conseguiria pagar. Em 2016, conseguiu a bolsa. “O site do Fies tinha muita instabilidade e era difícil concluir a inscrição. Em 2016 acabei conseguindo uma bolsa do Fies em outra instituição”, conta.

Oliveira paga hoje R$ 68,00 mensais. Quando concluir o curso, em 2021, terá que pagar uma parcela mensal de R$ 333,00 até 2033, quando termina o financiamento original.

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