Com crise na República, movimento monárquico reaparece em Curitiba

- Atualizado às 20:00
Por - Rodolfo Luis Kowalski
(Foto: Franklin de Freitas)

Escândalos de corrupção, uma presidente impichada (o segundo em menos de 25 anos), a economia em frangalhos e o desemprego em alta. Nos últimos anos, a República Federativa do Brasil definhou. E em meio ao cenário de caos e incertezas, é crescente o número de pessoas que buscam no passado uma solução para o presente, clamando, por exemplo, pela volta da monarquia, que reinou no país entre 1822 e 1889.

Em Curitiba, uma das instituições que defende a restauração do Império do Brasil e a devolução do poder aos descendentes de Dom Pedro II é o Círculo Monárquico Brasileiro (CMB). Fundada em 2013 na esteira das Jornadas de Junho (que evidenciaram a insatisfação popular com relação ao sistema político), a instituição possui representatividade em todos os estados brasileiros e conta com diversas células na Capital, em bairros como Bom Retiro, Centro e Boqueirão, e em outros municípios paranaenses, como Londrina e Foz do Iguaçu.

“É uma instituição recente até, mas os valores e a história que traz é algo de séculos”, afirma Josh Berveglieri, conhecido na alta sociedade curitibana como ‘Barão de Guaraúna’ (título honorário que recebeu da Soberana Ordem do Sapo por conta de seu parentesco com Domingos Ferreira Pinto, o "barão original") e representante do CMB no Paraná. “Temos o intuito de levantar de volta o ardor cívico da população, resgatar os valores históricos, a moral, os símbolos da pátria e os grandes nomes, porque muitos foram esquecidos e outros abafados por questões políticas”, complementa.

Em seu site, o CMB assinala não ver a monarquia “como algo intangível ou apenas histórico”, destacando acreditar que “na atual conjuntura dos fatos, o povo já clama por seu Imperador, só ainda não percebeu!”.

“Com essas últimas crises políticas, tem crescido e muito a vontade de mudar, de buscar uma saída. Mas a grande maioria não sabe para onde sair, não sabe o que buscar”, explica Berveglieri, destacando ainda que o número de adeptos ao regime monárquico e de curiosos tem crescido nos últimos tempos.

“O número de associados e de pessoas que querem estar juntos, querem conhecer, tem aumentado cada dia mais com essa situação toda. Pode ver: nas manifestações que tiveram na rua desde 2013 há cada vez mais pessoas com símbolos do Império, da Monarquia. Então essa crise tem feito crescer esse movimento e essa vontade (de restaurar o Império do Brasil)”, aponta o representante do CMB.

Por uma monarquia parlamentar e constitucional

De acordo com Josh Berveglieri, a maioria dos membros do Círculo Monárquico são, em geral, pessoas com mais de 30 ou 40 anos, “até por questão de estudo e conhecimento” (o próprio representante do CMB, contudo, é mais jovem e tem 22 anos). A grande maioria é católica e oriunda de famílias tradicionais, embora também existem monarquistas homossexuais e até mesmo ateus que apoiam o movimento.

“Para quem conhece o regime monárquico que se defende, essa questão religiosa fica uma coisa à parte. A pessoa entende que ali é uma questão de Estado, de organização do Estado, de organização dos poderes, de organização civil”, afirma Josh.

Ainda segundo o representante do CMB, a monarquia defendida pelo movimento é a Parlamentar e Constitucional. Ou seja: nada daquela história de “o Estado sou eu”. Opondo-se à monarquia tradicional e à monarquia absolutista, numa monarquia parlamentarista o rei é reconhecido como chefe do Estado, mas há uma constituição (série de leis fundamentais) que limitam os poderes do monarca, que na prática funciona como um Poder Moderador, garantindo estabilidade ao sistema político.

Símbolos da realeza brasileira sobrevivem nos dias de hoje

Mesmo 129 anos após a queda da monarquia e a ascensão da República, os símbolos do Império sobrevivem no Brasil. Na Marinha, por exemplo, há uma fita preta amarrada, que simboliza o luto eterno pela morte da Princesa Isabel, em 1920. Além disso, vários pavilhões e regimentos das forças militares levam nome dos imperadores, conta Josh Berveglieri.

O símbolo mais marcante, contudo, é a bandeira nacional. Enquanto muitos acrediram que o verde e amarelo é uma referência às matas e ao ouro do Brasil, a história verdadeira é de que o verde é uma referência à casa de Bragança, de Dom Pedro I, e o losango amarelo, da Casa de Habsburgo, de Dona Leopoldina, primeira esposa do primeiro imperador do Brasil.

“Quando fundaram o Império do Brasil, pegaram os símbolos pessoais deles para fazer a bandeira nacional. Então as cores que a gente usa na Copa (do Mundo) e vai para as ruas em manifestações, são cores da família imperial”, afirma Josh.

Leia abaixo, na íntegra, a entrevista com o representante do Círculo Monárquico no Paraná, Josh Berveglieri

 

BARULHO CURITIBA: O que é e o que pretende o Círculo Monárquico?

JOSH BERVEGLIERI: O Círculo é uma instituição que tem representatividade em todo o território nacional, em todos os estados, e é uma instituição, como consta em nosso estatuto, que visa restaurar o Império do Brasil dentro da democracia, que seria a constituição parlamentar, federativa, com o monarca representando e chefiando o Estado e o primeiro-ministro chefiando o governo. É basicamente o que já tínhamos no Império e o que existe em outras monarquias na Europa, na Ásia.

A instituição foi criada em 2013 e tem esse intuito de levantar de volta o ardor cívico da população, resgatar os valores históricos, a moral, os símbolos da pátria, os grandes nomes, porque muitos foram esquecidos e outros abafados por questões políticas. E apesar de ser uma instituição cujo ideal envolve política, é uma instituição suprapartidária, tanto que a própria monarquia, a própria instituição monárquica é suprapartidária, não tem partido, não tem lado, não é de direita, não é de esquerda, é uma coisa fora disso. É um movimento recente ate, foi criado em 2013, mas os valores e a história que traz é algo já de séculos.

BC: A criação do Círculo veio na esteira daqueles movimentos sociais de 2013 ("Jornadas de Junho"), já tentando identificar os desejos, os anseios da população e se apresentar como alternativa?

JOSH: Sim, sim. Porque cada vez mais, até com essas últimas crises políticas, tem crescido e muito a vontade de mudar, de buscar uma saída. Mas a grande maioria não sabe para onde sair, não sabe o que buscar. E o ideal apresentado pelo círculo monárquico brasileiro é o da monarquia parlamentarista.

 

BC: Por que vocês vislumbram na monarquia uma resposta para essa crise institucional que o Brasil enfrenta?

JOSH: Bem, têm muitas respostas. A principal, que o próprio Dom Bertrand usa, é mais ou menos a seguinte: para buscar como a nação era feliz, é preciso ver como ela era, como as coisas aconteciam na época em que ela era feliz. Não que na época do Império não tivesse problemas, não tivesse até corrupção. Mas era muito menor do que hoje em dia e, por exemplo, Império do Brasil na época era a nação mais respeitada aqui da América do Sul. Hoje em dia tem uma disputa com o Chile, a Argentina. A nossa moeda era muito forte, comparada com a libra esterlina; nossa Marinha era a segunda Marinha mais poderosa do mundo; um nível de corrupção baixíssimo; havia muito mais alternância no governo entre os diferentes lados, que na época eram o partido conservador e o partido liberal, principalmente na época do Dom Pedro II, que soube com a maior maestria como mediador, que é o papel do monarca, fazer com que houvesse essa alternância. É como se fosse a esquerda e direita se alternando de forma boa, de forma gentil, sem essa quebra que existe hoje em dia. E levando tudo isso em consideração e tendo o exemplo dos países que são monarquia hoje em dia, como Dinamarca, Holanda, Espanha e o Reino Unido, que tem uma qualidade de vida melhor, uma separação de poderes, que é uma coisa muito importante para não ficar tudo concentrado numa mão só, como fica com o Presidente da República que governa e chefia o Estado ao mesmo tempo. E essa separação de poderes, essa questão da mediação do Imperador e do Monarca no caso leva a essa menor corrupção, porque sempre tem alguém que está olhando o que está acontecendo, sempre tem alguém que vai punir. Então levando em consideração todos esses conceitos, esses ideais, essas práticas, vemos na monarquia essa resposta para resolver o máximo possível dos problemas do país.

BC: E por que a monarquia caiu no Brasil, se teria essa aprovação popular?

JOSH: Realmente era bem aprovado. Por exemplo: na última eleição que aconteceu no Império, no Senado só duas cadeiras foram ocupadas por republicanos. O resto dos eleitos eram todos monarquistas. O povo apoiava, a figura de Dom Pedro II era muito amada, a monarquia era muito respeitada diplomaticamente. Mas o que levou ao fim da monarquia foram dois pontos principais, e um deles é o fim da escravidão. Quando a princesa Izabel assinou a Lei Áurea ela sabia que estava perdendo o trono, mas a família imperial, desde quando fundaram o Império do Brasil, tinha ideia de fazer um Império sem escravos. Mas por questões políticas não foi possível realizar isso nessa época. Quando veio a Lei Áurea, a elite, principalmente pecuária, pessoal com fazendas, ficaram totalmente aborrecidos, queriam uma indenização por terem perdido os escravos. Têm histórias do pessoal que até o dia 12 de maio tinha quadro do Imperador e da Imperatriz na parede mas de um dia para o outro tirou porque virou contra (a monarquia) por causa do fim da escravidão. Então essa questão social e monetária da elite, que teve um rombo grande com o fim da escravidão, essa questão da perda do apoio deles foi crucial.

Mas o que levou à proclamação da República é uma história muito pouco conhecida, porque Marechal Deodoro, que foi quem fundou a República do Brasil, foi enganado. A República do Brasil nasceu de uma mentira. Em 15 de novembro, quando Deodoro saiu em cima do cavalo acompanhado de outros militares ele não bradou "Viva a República", ele bradou "Viva Sua Majestade o Imperador", porque a intenção daquele golpe daquele dia era derrubar o gabinete do Visconde de Ouro Preto, porque Marechal Deodoro e uma porcentagem significativa dois militares eram contra o Visconde de Ouro Preto. Com essa situação toda, Quintino Bocaiúva, Ruy Barbosa, que eram republicanos, aproveitaram de uma fraqueza do Marechal Deodoro e da situação de golpe envolvendo o Estado para conseguir a República. Eles falaram para o Marechal que Dom pedro II tinha colocado como presidente do Conselho de Ministros o Silveira Martins, que era do Rio Grande do Sul, e eles sabiam muito bem que o ponto fraco do Marechal Deodoro era uma questão que envolvia o Silveira Martins, que eles dispoutaram na juventude o amor de uma tal de Adelaide e o Marechal saiu perdedor dessa disputa. Então quando eles contaram que Dom Pedro II havia escolhido o Silveira Martins, ele (Deodoro) disse "não, esse não. Esse eu tiro a qualquer custo de lá". E daí, influenciado pelos republicanos, eles foram atrás da proclamação da República. mas era uma mentira, na realidade Dom Pedro II havia colocado o Conselheiro Saraiva como presidente do Conselho de Ministros. Então eles se aproveitaram de uma situação caótica que era para derrubar o Visconde de Ouro preto e dessa situação pessoal do Marechal Deodoro e criaram uma mentira que levou à proclamação da República do Brasil. Então a República do Brasil nasceu de uma mentira.

 

BC: E por que não houve uma reação à proclamação da República?

JOSH: Dom Pedro II, ao meu ver, não quis reagir, até pelo temor de alguma espécie de guerra civil. Digamos que ele buscasse o apoio popular para reagir. A elite estava contra ele por conta da perda dos escravos. Aí os militares sob o comando do Marechal Deodoro estavam contra também, aí restrava uma outra parte dos militares, principalmente a Marinha que sempre foi muito monarquista, e mais a população geral em si e obviamente os ex-escravos que estariam ao lado de Dom Pedro II. Então talvez até por medo de um confronto civil ele não reagiu. E a família imperial foi expulsa praticamente com a roupa do corpo no meio da madrugada para nionguém ver. BOtaram eles num navio e expulsaram eles de madrugada sem quase ninguém perceber. Então quando o pessoal acordou de manhã, tinha quase tudo sumido e virado uma República.

E outro ponto interessante é que a República, quando foi proclamada, no documento de proclamação tinha uma cláusula dizendo que é a República Provisória do Brasil e que em pouco tempo teria uma consulta popular, que não aconteceu. E se tivesse acontecido, com certeza teria voltado a monarquia. Na realidade, essa consulta veio a acontecer em 1993, mas mais de 100 anos depois e depois de toda a questão de que o vencedor é quem conta a história, então a história que foi passado ao povo foi a história republicana, escondendo todos os fatos verdadeiros do Império, todo esse apoio popular, o que simbolizava e como realmente funcionava, sempre contando de forma pejorativa. Então a população da época do plebiscito de 1993 não tinha mais nada de conhecimento sobre o Império, sobre como funcionava. Então ficou uma coisa meio utópica.

BC: No estatuto do Círculo fala-se em "realizar pressão política por meios democráticos". O que isso significa?

JOSH: Um exemplo prático que podemos ver é uma votação que existe no site do Senado Federal que visa uma nova consulta popular sobre o regime de governo, entre República e Monarquia. Dentro da Constituição está previsto que você pode propor ações para o Senado e essa é uma das ações propostas, que se atingir um número determinado de apoiadores ela entra na lista para um dia ser votada. Essa é uma forma democrática, dentro da nossa Constituição, de propor essa renovação. Embora, ao meu ver, seria um tiro no pé fazer essa consulta agora, porque a grande maioria da população, apesar de buscar uma saída, não aguentar mais a situação que o país passa, não conhece como funciona de verdade uma monarquia, o que significa, então tem uma visão muito pequena e pejorativa sobre o assunto.

BC: Quando se fala em monarquia, costuma vir à mente aquela ideia do "Estado sou eu", do rei absoluto. Afinal, monarquia combina com democracia?

JOSH: Combina. Combina e você pode consultar de uma forma efetiva e indiscutível na lista dos 10 países mais democráticos do mundo, onde seis são monarquias. Dos outros quatro, três são repúblicas parlamentaristas e só uma República Federativa como o Brasil. Neses países (com monarquia), o povo tem muito mais liberdade, liberdade individual é mais respeitada, eles votam nos seus representantes de forma mais efetiva do que aqui, a maioria da população tem condições de estudo, tem sua saúde e segurança totalmente garantida... São países muito desenvolvidos, até porque a monarquia envolve muito uma questão cultural, uma questão de valores, uma questão histórica que ajuda o país a se manter nesse nível mais avançado. Mas aqui no Brasil você fala em Monarquia o pessoal pensa ou em Luís XIV, rei absoluto, aquela coisa da Disney da rainha má, ou então pensa que é só um enfeite, só fica cheio de joias a rainha e cheio de medalhas o rei dando tchauzinho da sacada. Mas não é, o monarca tem seu papel efetivo reconhecido pela COnstituição, tem seus deveres como monarca, não é uma figura só simbólica. Ele é simbólico no sentido de representar o país, porque ele é o chefe de Estado, representa o país no exterior, quando vem um chefe de Estado do exterior é ele quem recebe. Então ele é a cara do país e o símbolo de união do país, do povo, de continuidade, de respeito, de tradição, de tranquilidade. E isso sim é uma coisa simbólica e ele encarna isso. Mas no papel dele como chefe de Estado, no papel institucional, ele é um servidor público efetivo, um mediador entre os poderes. Mas aqui precisa muito ensinar sobre essas coisas para o pessoal, porque é tudo muito confuso pela falta de conhecimento e depois da República a história da monarquia começou a ser apagada, a ser divulgada de forma pejorativa.

BC: As monarquias se legitimam através do reconhecimento de um vínculo direto com o divino. Nesse sentido, um retorno à monarquia não representaria uma quebra com aquele ideal de igualdade pautado pelos iluministas e consagrado pela Declaração dos Direitos dos Homens?

JOSH: Na realidade, isso parece uma coisa complicada, mas é algo muito simples. Nas monarquias têm os títulos de nobreza, as pessoas recebem medalhas, mas isso no dia a dia, na realidade, não quer dizer nada. Você ter um título de nobreza é algo muito legal socialmente, as pessoas adoram, mas serve só para as festas. No dia a dia, todo mundo é igual perante a lei, independente se você é o duque de não sei onde ou se você é um gari. Você pode pegar um caso desses na Espanha. A irmã do rei, a Infanta Cristina, ex-duquesa de Lugo, o marido dela desviou dinheiro de uma instituição e ela foi a julgamento como qualquer outra cidadã. E o marido dela, que era duque, foi julgado e está na cadeia. Aqui no Brasil, quantos políticos sabemos que roubaram e quantos deles estão presos? Quase nenhum, só recentemente que alguns foram parar (na cadeia), mas até pouco tempo não ia nenhum. Então essa questão social de igualdade, principalmente nas monarquias atuais, perante a lei todo mundo é igual.

BC: Ainda com relação ao poder do monarca estar relacionado a uma divindade, como seria possível, nesse contexto, a manutenção de um Estado laico?

JOSH: Tradicionalmente, o monarca é um representante de Deus na terra, está ali por desejo divino e tal. Mas isso é uma questão histórica, aquela coisa de consideração. Mas na prática não existe uma interferência religiosa no Estado. Por exemplo, o Rei da Espanha, quando foi proclamado em 2014, jurou pela Constituição, não tinha nenhum símbolo religioso presente, não jurou por Deus, por nada. Jurou pela palavra dele como monarca e pronto, não envolveu religião nenhuma. E ele é católico oficialmente, casou na Igreja católica, em cima da coroa dele tem uma cruz, para mostrar que Deus está acima dele, que é outra questão tradicion al, mas nas decisões dele, no Estado mesmo em si, não tem nenhuma interferência. A religião é uma questão pessoal de cada um.

BC: Quais são os maiores defeitos da nossa República?

JOSH: Além de ter nascido de uma mentira, de uma confusão e de uma questão econõmica relacionada à abolição da escravatura, os defeitos da República, além da origem dela, já começa em seu primeiro dia. A primeira lei aprovada na República do Brasil foi o aumento do salário do presidente, enquanto Dom Pedro II manteve por 50 anos o mesmo salário e ainda doando metade para ajudar pessoas a estudarem fora do país, ajudarem em causas abolicionistas. Durante 50 anos o salário dele de imperador foi o mesmo e as primeiras leis da República foram para triplicar o salário do presidente. Então já começou a roubalheira ali, o favorecimento de um ou de outro por amizade, por interesses políticos, essa coisa de comprar votos levando dinheiro público junto, a perda dos valores, hoje em dia o pessoal não sabe cantar o hino nacional, não sabe sua própria história. E socialmente falando, o princiopal foco é a questão da corrupoção, que afeta na saúde, na educação, no seu trabalho, afeta de forma geral. E sem um moderador para ajudar o máximo possível a regrar essa stiauação, a coisa desanda e vira no que a gente viu nos últimos anos.

BC: E como seria a aceitação da população ao retorno da monarquia?

JOSH: Os próprios príncipes defendem que só voltam através do clamor popular. Então, pelo ideal defendido, se eles voltassem a população que estaria esperando por eles, que estaria pedindo. Se voltasse de repente ou por um meio mais imperativo, seria um pouco mais chocante pelo motivo (de a população) de não conhecerem. Mas só voltariam pelo clamor popular mesmo, não através de um golpe.

BC: Como alguém pode fazer para participar do Círculo?

JOSH: Para se tornar membro do círculo é fácil, pode fazer isso através do site. Tem um link de cadastro, você faz e manda seu cadastro. Conforme for aprovado você se torna membro do Círculo Monárquico Brasileiro, recebe certificado, material, e se quiser pode até assionar uma espécie de pacote em que você recebe material monárquico todos os meses ou de dois em dois meses. E aqui em Curitiba a gente realiza de dois em dois anos um Encontro Monárquico, que acontece em todo o país. Aqui no Sul fazemos um ano em santa Catarina e outro no Paraná, e este ano será aqui. Recebemos pelo menos um dos príncipes aqui, são feitas uma série de apresentações e palestras seguidas por um almoço e mais algumas apresentações e o final fica a cargo do príncipe. Geralmente recebemos o príncipe Imperial Dom Bertrand, que é o membro mais atuante da família (real).

BC: Tem noção de quantos integrantes participam do Círculo no Paraná?

JOSH: Não tenho exatamente o número de apoiadores agora. Mas aqui no Paraná nós temos outros pontos de apoio em Curitiba, tem em Londrina, Foz do Iguaçu outros pontos de representação do Círculo Monárquico Brasileiro.

BC: E esse momento de crise institucional tem feito aumentar a adesão ou ao menos a curiosidade com relação à monarquia?

JOSH: Sim, sim, a curiosidade, principalmente. Até pouco tempo atrás, antes de estourar essa crise toda, o pessoal não procurava saber muito, você falava o pessoal não dava bola. mas depois disso começaram a procurar saber mais, como funciona, o que é, o que a gente defende, o que a gente pensa, como era naquela época, como outros países que são monarquia hoje em dia pensam e funcionam. De associados e pessoas que querem estar juntos, querem conhecer, tem aumentado cada dia mais com essa situação toda. Pode ver nas manifestações que tiveram na rua desde 2013, tem cada vez mais pessoas com símbolos do Império, da Monarquia, então essa crise tem feito crescer esse movimento e essa vontade.

BC: Quem são os integrantes, o perfil dos participantes do Círculo Monárquico?

JOSH: A grande maioria deles são pessoas com mais de 30, 40 anos, até por questão de estudo e conhecimento, que entre os jovens é raro um conhecimento desses. A grande maioria é católica, é mais tradicional, aquela coisa de família tradicional, com pai, mãe, filho, mas também existem monarquistas homossexuais, ateus.... Para quem conhece o regime monárquico que se defente, essa questão religiosa fica uma coisa à parte. A pessoa entende que ali é uma questão de Estado, de organização do Estado, de organização dos poderes, de organização civil.

BC-  Existem outros movimentos como o CMB em Curitiba?

JOSH: Desde a época do plebiscito tem a Frente Dom Pedro II, mais antiga até que o Círculo Monárquico, mas que é só de Curitiba. Mas tem vários membros, as pessoas fazem encontros, também recebem o príncipe aqui…

BC: Como analisa a relação do Paraná, do paranaense com a monarquia?

JOSH: Eu vejo que a monarquia é muito bem aceita, principalmente em Curitiba, onde o pessoal é mais tradicional, tem um pouco mais de conhecimento histórico até pelas famílias que existem aqui. Eles tem uma aceitação e uma curiosidade muito maiores do que em lugares que não têm história. O Paraná passou a existir por conta da monarquia, o desenvolvimento das estradas de ferro, foi tudo na monarquia. E querendo ou não, todo mundo, mesmo que da boca para fora diga outra coisa, acha bonito e gosta daquela coisa de realiza, de título, de reverência, de elegância, aquela pompa... Todo mundo gosta, acha elegante.

Outro ponto é que o país ter uma monarquia não significa que vai ser de direita ou de esquerda. No Império do Brasil, por exemplo, conservadores e liberais se alternavam no poder tranquilamente. Porque a monarquia é o Estado, o chefe de Estado. O governo vai ser eleito pelo povo.

 

BC: Nas últimas semanas, saiu a notícia de que o príncipe Luiz Philippe de Orléans e Bragança poderia sair como candidato a vice na chapa de Jair Bolsonaro. Como o movimento recebeu essa notícia?

JOSH: O Dom Luiz faz parte do ramo de Petrópolis, e na família imperial brasileira existem dois ramos: o de Petrópolis e o de Vassouras. O herdeiro dinástico, o que tem a legitimidade para voltar a reinar no Brasil, é o ramo de Vassouras, que é atualmente presidido por Dom Luiz de Orleans e Bragança. E esse ramo de Petrópolios são descendentes de Dom Pedro II, da Princesa Izabel, mas não tem a legitimidade dinástica. Isso porque a princesa Izabel tinha dois filhos e o mais velho deles abdicou dos direitos dinásticos por ele e pela descendência dele para casar com uma condessa europeia que não vinha de nenhuma dinastia, e dentro da família imperial brasileira os príncipes tem de casar com uma outra princesa de alguma dinastia também. Se não for para fazer isso, tem de abdicar dos direitos dele. Então por isso passou do filho mais velho da princesa Izabel para o segundo filho dela, que é o avô do atual chefe da casa imperial. Então Luiz Felipe não é herdeiro dinástico, mas é descendente da família imperial.

A ideia inicial dele era se lançar candidato a deputado federal por São Paulo, se não me engano. Não sei se ele continua com essa ideia ou se é realidade que ele quer ser vice do Bolsonaro. Levando pelo lado de que a Família Real é suprapartidária, não se envolve com a questão política, isso ficaria um pouco contraditório. Mas encarando que ele não é um herdeiro dinástico, não precisa seguir essas regras, ele é livre para fazer as escolhas dele como cidadão, como uma pessoa que quer lutar pelo bem do Brasil. Mas querendo ou não, pelo sobrenome que ele carrega, afetaria um pouco a família real. Mas os principais nomes da família real nunca declararam apoio a ninguém, sempre se mantiveram apolíticos. Mas talvez a oportunidade de ele estar na vice-presidência da República seria um importante fator para o movimento monárquico mostrar os ideias, como realmente funciona, dar uma visibilidade ao movimento. Mas não tem como adivinhar, tem que ver o que o tempo traz...

 

BC: Quais os símbolos do Império que permanecem vivos até hoje na República?

JOSH: Na Marinha, o quepe que eles usam tem uma fita preta amarrada. Aquilo ali significa um luto eterno pela morte da Princesa Izabel, na década de 1920. Vários pavilhões, vários regimentos das forças militares levam nome dos imperadores. A bandeira nacional, o verde e o amarelo muita gente acredita que é por causa das matas e do ouro. Mas o verde é da casa de Bragança, Dom Pedro I. E o amarelo, o losango amarelo, é da Casa de Habsburgo, da Dona Leopoldina, a primeira esposa dele. Quando fundaram o Império do Brasil, pegaram os símbolos pessoais deles para fazer a bandeira nacional. Então as cores que a gente usa na Copa, e vai para a rua e coisa e tal, são cores da família imperial. O Brasil até hoje é representado pelas cores da família imperial, mesmo na República. O nosso hino nacional também já era o hino nacional na época do Império, mas só a melodia, a letra veio depois, na década de 1920. E esse hino, essa melodia, nasceu da abdicação de Dom Pedro I, quando ele volta para Portugal e fizeram o chamado Hino Sete de Abril, que tinha essa melodia e outra letra. Mas a melodia ficou tão popular que anos mais tarde foi usado como hino de coroação de Dom pedro II, virou a melodia mais popular e ficou como hino nacional do Brasil. Só a letra que foi criada na década de 1920.

 

BC: Qual a importância simbólica da família monárquica para uma nação?

JOSH: Na monarquia, essa questão do monarca, da família real ser símbolo da nação, ser símbolo da união deles, atualmente temos isso na Copa do Mundo, quando envolve futebol geralmente. E nas monarquias não. Quando é aniversário do Rei, uma data nacional como o Sete de Setembro, é uma data importantíssima para gente, mas ninguém dá tanto valor, muitas vezes nem sabe o que significa direito. Na monarquia não, as pessoas têm noção do valor histórico delas, porque o monarca é um símbolo vivo dessa história toda, do poder deles, da origem deles. É uma forma de deixar vivo os símbolos nacionais, fazer o povo ser patriota, ter uma referência. E isso de ser uma referência entra em tudo: costumes, tradições, os valores que eles levam, questão de vestimenta. Eles unem tudo isso e juntam as pessoas, a população.

Custa muito menos ter uma monarquia do que uma república. Um exemplo são os dois países vizinhos, Espanha e Portugal. A Casa Real Espanhola custa 8 milhões de euros por ano. A República de Portugal, um país menor e que recolhe menos imposto por ano, custa mais de 20 milhões por euros. Na Inglaterra a Realeza custa 30 milhões de euros por anjo. E aqui no Brasil a Presidência custa R$ 200, R$ 300 milhões. Então não tem como comparar. E contraditoriamente, o país fica muito melhor representado com uma monarquia do que com uma república. Tem mais respeito aos símbolos nacionais, e isso querendo ou não socialmente resulta numa população mais bem educada, desenvolvida.

 

BC: Também soube que o senhor possui um título honorário de nobreza. Como é essa história?

JOSH: Em 1880 o Imperador Dom Pedro II e a Imperatriz Tereza Cristina fizeram um tour pelo Paraná. Quando passaram por Ponta Grossa, a pedido do presidente de província na época, meus antepassados por parte de pai que hospedaram eles, ficaram uma semana lá. No último jantar do imperador, esse meu antepassado se levantou e disse que poderia ter mandado matar mais um boi, ter feito outro baile, mas que o que ele iria fazer em homenagem ao Imperador, uma vez que a Família Imperial sempre foi contra a escravidão, era libertar todos os escravos dele e deu as cartas de alforria para o Imperador entregar. E Dom Pedro II ficou tão maravilhado com isso que quando voltou para o Rio de Janeiro deu o título de Barão de Guaraúna para esse meu antepassado, porque o Rio Guaraúna passava nas propriedades dele. Por parte de pai eu descendo dele. E aqui em Curitiba existe a Soberana Ordem do Sapo, uma instituição que surgiu no Século XIX. Era um jornal cultural que circulava aqui em Curitiba e se chamava O Sapo, que era a capivara da época. E na década de 1970 foi fundada a Soberana Ordem do Sapo, que é para reunir os vultos de Curitiba, as pessoas que se destacam. E tem um número máximo de cadeiras, de até 100 membros. Aí, por distinção dessa ordem, os membros recebem o título de barão e baronesa. E daí me convidaram para entrar para Ordem, sou o membro mais jovem. Tem vários políticos, o Prefeito Rafael Greca é membro, donos das grandes empresas, pessoal da cultura... E quando fui entrar, tendo esse conhecimento todo monárquico, não queria inventar um título e como tem toda essa história na minha família, escolhi o Barão de Guaraúna honorariamente. Socialmente o pessoal adora isso, todo mundo me apresenta como barão e aproveita por não ser um título inventado, ser uma coisa histórica, e acabou ficando.
 

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