Centro de grupos folclóricos, Curitiba começa a ‘devolver’ cultura a países de origem

- Atualizado às 09:53
Por - Narley Resende
Grupo folclório, ontem, em apresentação no Bosque do Papa
Grupo folclório, ontem, em apresentação no Bosque do Papa (Foto: Franklin de Freitas)

A preservação centenária de culturas internacionais pode ter causado um efeito inverso e feito com que práticas esquecidas em localidades de origem tenham sido preservadas vivas graças a inciativas persistentes de grupos folclóricos de Curitiba. Com dezenas de grupos, a capital paranaense talvez seja a cidade do Brasil com maior número de culturas preservadas e nos últimos anos esses grupos passaram a se mobilizar para participar de festivais e encontros, em especial na Europa. A surpresa é que algumas práticas haviam sido extintas em determinadas localidades e os curitibanos descendentes passaram a ensinar aos povos de origem.

“Antes não era comum que os grupos folclóricos daqui fossem aos países de origem de suas culturas por ser inviável viajar, por custo. Era mais caro e hoje há mais possibilidades. Quando chegamos, vimos que nós estudamos muito e preservamos práticas já extintas lá”, conta o coordenador de práticas folclóricas da Fundação Cultural de Curitiba, Carlos Hauer, descendente de alemães e integrante de um grupo germânico de Curitiba.

Embora imprecisa para ser afirmada categoricamente, a extinção de práticas fica clara pelos relatos encontrados por pessoas engajadas nos países de origem. Os grupos curitibanos, então, passaram a reensinar as culturas aos locais. Hauer afirma que o conteúdo diversificado de quem integra os grupos de Curitiba também surpreende.

“Uma coisa que vi na Alemanha foi quando as pessoas olhavam e perguntavam sobre um suspensório, que tem a imagem de Ludovico Segundo, um dos reis da Baviera, e os alemães não sabiam quem era. Isso porque quem é da Baviera só dança música da Baviera, quem é do Norte, só dança do Norte, e nós, não. Acabamos estudando muito de todo o país. Por isso temos traje do Sul, traje do Norte e acabamos representando um pouco de cada canto. De repente eu sabia a história do rei e e eles não sabiam”, conta.

No ano passado, a pesquisadora alemã Sabine Kiefer, da cidade de Colónia, na Alemanha, esteve em Curitiba e outras cidades brasileiras, como Blumenau (SC), que concentram grande número de colonos, e concluiu que os descendentes brasileiros ainda utilizam palavras e termos extintos na Alemanha contemporânea. “Veio fazer o doutorado e pesquisou muito dos alemães que vieram para o Brasil. Foi para Gramado (RS), Blumenau (SC), e ficou espantada porque percebeu que aqui ainda se usam palavras da língua alemã que não são mais usadas e isso é natural. As comunidades se destacaram”, conta.

O acesso facilitado às origens também promoveu intercâmbio cultural entre os brasileiros e estrangeiros no Rio Grande do Sul, que também promoveu a correção de tradições seguidas em Curitiba. “No começo, na Associação Cultural 25 de Julho, em Gramado, eles traziam sempre alguém da Alemanha, Áustria ou Suíça e começamos a ver que havia alguns erros, inclusive, nos trajes. Com isso, começamos a corrigir”, diz Hauer.

No ano passado, o primeiro grupo de fora da Europa a participar da Europeav, que ocorre desde 1964, foi um curitibano de folclore alemão. “O nosso grupo foi o primeiro de fora da Europa a participar, na cidade de Viseu, em Portugal. Neste ano a gente foi para a Alemanha, em um festival com cinco mil pessoas, com palcos espalhados por toda a cidade. Você caminha e vê os grupos. Acho que antes era muito difícil as passagens, e os grupos estão começando a se organizar”.

Recentemente, os grupos do Centro Espanhol do Paraná, o polonês Wisla e o ucraniano Barvinok foram alguns dos que levaram a cultura preservada de Curitiba para os países de origem. O Barvinok foi o mais recente. No último dia 2 de agosto, integrantes viajaram para participar da 4ª Edição do Festival internacional de dança e música em Lviv, cidade ucraniana perto da fronteira com a Polônia.

Viagem recente

O Barvinok foi o único grupo paranaense a participar do festival, em Lviv, segundo a diretora do coletivo Solange Oresten. Ao todo, 47 integrantes, entre dançarinos e coralistas, participaram das atividades. Descendente de primeira geração do país do Leste Europeu, Solange Oresten, afirma que está foi a primeira vez que um grupo brasileiro participou de um festival na Ucrânia. “É o primeiro grupo do Brasil. Esse festival está no quarto ano e todos os grupos recebem a carta convite. Como vamos fazer 90 anos no ano que vem, a gente resolveu programar. É tudo por conta do componente, passa de R$ 10 mil por pessoa”, conta. 

Oresten é um exemplo de quem preserva antigas tradições. Ela conta que seus pais nasceram na Ucrânia e vieram ao Brasil ainda jovens. Mesmo assim, a família sempre preservou a tradição. “Meus pais vieram da Ucrânia e tem outros que os pais e os avós e alguns já são descendentes de mais para frente. Meus pais eram de Sokal, minha mãe veio muito pequena, mas meu pai veio rapazinho. Nós mantemos até hoje as tradições de folclore. A religião da minha família era Ortodoxa”, conta. Boa parte dos descendentes de imigrantes ainda não conhecem a “terra natal”, mesmo assim assumiram a missão de preservar a cultura.

Além do Brasil, representado pelos curitibanos, participam do festival grupos da Inglaterra, Austrália, Argentina, Canadá, Estados Unidos e Croácia. O Paraná tem a maior concentração de ucranianos do Brasil.

“Se parar para pensar, é a cidade com mais grupos do País”

A representatividade cultural curitibana é ainda mais ampla. Embora tenha a maior comunidade ucraniana, Curitiba também abriga grande número de outros descendentes. “Toda cidade tem uma característica, mas Curitiba sem dúvida está entre as que tem maior representativa, se não for a maior”, afirma Hauer.

“Os grupos filiados à Aintepar (Associação Interétnica do Paraná em Curitiba), que promove o festival de etnias há 57 anos, tem 18 grupos, e um de fora, o holandês de Castrolandia. Chega a 25 grupos, ou mais, na verdade, porque alguns não se associaram e outros são ligados a escolas ou não tem grupos oficiais. Santa Catarina tem muitos alemães ou outras cidades com muitos italianos, mas Curitiba que concentra tantas (culturas) juntas, eu acho que Curitiba está entre as que mais concentram. Tem grupos de alemão, polonês, ucraniano, japonês, árabe, português, que anda meio parado, mas tem o Bacalhau com Notas. Tem escolas de tango, como o Espaço do Tango, que já fez até congresso de tango, da Argentina, mas é mundial, porque são de afrodescendentes da Argentina. Sem falar no fandango que é do Paraná mesmo. O que mais tem são os italianos. Os italianos foram brigando, brigando (risos), e agora acho que tem uns seis, se não me engano. Acho que começou com grupo Dante Alighieri ou Garibaldi”, conta.

Os árabes, segundo Hauer, são ainda mais diversificados. “Tem sírios e libaneses, mas os árabes são 22 países. Eles não fazem parte da associação, mas tem muitas escolas. Como grupo tem o Masbha. Mas tem pessoas que dançam. Tem, por exemplo, a Marcia Luz que traz outras meninas que dançam. Outra é Cris Farah, que é independente, que dança, junta as pessoas para dançar”, afirma.

Ciganos, sem nacionalidade definida, também marcam suas tradições em Curitiba. “A comunidade cigana tem as pessoas que dançam também, mas os ciganos não tem um grupo com nome, tem um ligado à escola Carmen Romero, já se apresentaram aqui e é muita energia, muito colorido. Eles são ligados ao Clã Sara Cali. Quando eles fizeram apresentação aqui trouxeram integrantes do clã”, diz.

A representatividade não para por aí. “Temos o pessoal de Angola, que é o grupo vozes de Angola, que parte de um grupo que fugiu da guerra, ficou aqui em Curitiba e formou um grupo de coral. Temos também um grupo que já vi dançando, mas eles não vem (aos festivais), que é o grupo integracionalista, que mistura cultura colombiana e boliviana. Temos ainda um grupo folclórico Matsuridaico, dentro da fundação tem o Grupo Nikei (japoneses), que toca os taikos, e um que não faz parte da Aintepar. Chineses tem um grupo, quando recebemos os embaixadores do Brics, e conversei com um grupo que faz a dança do dragão e a dança do leão, que eles se unem a um grupo de Ponta Grossa. E o os indianos. Falando assim, vamos lembrando, e são muitos mesmo”, aponta.

Hauer destaca também os grupos folclóricos locais. “Temos um monte de escolas de samba também, né. Temos também os centros de tradição gaúcha. Em Piraquara tem uma aldeia que tem um coral que já se apresentou aqui. Eles também preservam bem a cultura”.

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