Basquete de rua renasce e se reorganiza em Curitiba

- Atualizado às 21:30
Por - Narley Resende
(Foto: Franklin de Freitas)

Em alta em Curitiba e outras cidades do Brasil na década de 1990, o basquete de rua ressurgiu neste ano na cena esportiva da capital paranaense e tem demonstrado força ascendente. Entre os praticantes, há consenso de que uma soma de fatores é responsável pelo recomeço, embora ainda distante de uma consolidação. O basquete de rua está mais forte após a retomada na TV aberta das transmissões de jogos da NBA, a liga americana de basquete, passando também pela reforma de quadras em praças públicas e pela organização de grupos de praticantes.

Essa organização, porém, é apenas por lazer, já que os prêmios máximos dos torneios não passam de kits com uniformes, medalhas e troféus. “É o nosso lazer organizado”, resume o almoxarife Luiz Passos, de 40 anos, que é técnico do time FiftySeven Streetball. A equipe de rua tem 15 anos e é a mais antiga da cidade em atividade na liga independente.

Impulsionada pela chamada Liga Interpraças, um torneio surgido em 2016, uma conexão de jogadores é formanda hoje pelo evento extraoficial que rivaliza em números de adeptos com qualquer outro oficial na região. Sem ligação com federação ou confederação, o evento reúne 192 jogadores em 16 times inscritos para o torneio deste ano.

“Hoje o Interpraças tem primeira e segunda divisão (Ouro e Prata). O campeonato surgiu nos últimos anos com o pessoal que jogava se reunindo em times”, conta Luiz Passos. No entanto, ressalta o técnico do FiftySeven, outros fatores coincidiram para alavancar o basquete de rua. “As partidas da NBA estarem passando na TV aberta ajudou bastante. Antes passava em TV a cabo, então não era tão popular. Antigamente passava na TV aberta e também era isso que ajudava”, compara.

Além dos jogos em TV aberta, o terceiro principal fator é o de qualidade das quadras de rua. “A praça central em Curitiba no basquete sempre foi a Oswaldo Cruz. Ela ficou fechada por três anos para reforma e quando reabriu ficou muito melhor”, conta. A revitalização da praça começou em 2015 e terminou em 2018. Com isso, segundo Passos, o número de praticantes e de projetos envolvendo o centro esportivo público aumento.

Outra demonstração de que faltava apenas incentivo para que o esporte se impusesse foi um evento patrocinado por marca de cerveja realizado em maio. No projeto publicitário, a marca também escolheu cinco quadras em grandes cidades do Brasil (Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte) para serem reformadas. Os locais foram pintados e receberam tabelas e aros novos. Para marcar a reinauguração das quadras, a marca de cerveja promoveu um evento gratuito com muitas atrações que envolvem o lifestyle do esporte, batalhas, shows e outras atrações. Praticamente um dia dedicado a tudo que envolve a cultura do basquete. “Encheu muito, foi muita gente mesmo. Como evento de basquete surpreendeu”, contra Luiz Passos.

Três eventos formam a liga independente

O Interpraças está na quarta edição. O evento é organizado pela BSS Sports e forma uma liga independente. Outros dois torneios do basquete amador contemplam a liga, o Taça Curitiba masculino e feminino, que tem apoio da Prefeitura, e o Torneio Interamericano, considerado o mais sofisticado. O responsável pela BSS Sports é Bruno Sartório, de 39 anos. Ele conta que há dois anos foi decidido dividir os Interpraças em divisões. “Em 2017, os 12 melhores colocados foram para a Ouro e os que foram entrando ficaram na Prata. É todos contra todos. Os oito melhores permanecem e quatro caem”, explica.

Sartório afirma que a evolução das esquipes passa pelo incentivo por parte de Prefeituras. “Não é como eram as duas primeiras edições, que eram só praças. São equipes que treinam, não necessariamente clubes, mas tem de prefeituras, como é o caso de Quatro Barras e Campo Largo. Tem equipe de São José dos Pinhais. Muirtos atletas de clubes também acabam participando.

A partir da segunda metade de julho, o calendário de competições do basquete de rua de Curitiba terá eventos todos os fins de semana. “Quem for assistir aos jogos da Taça Curitiba a gente vai sortear para fazer arremesso do meio da quadra e a pessoa que acertar vai ganhar prêmio em dinheiro”, convida Sartório.

Embora se admita que há estímulos, o principal, segundo os envolvidos, é a “cultura urbana” que se mantém viva mesmo sem qualquer patrocínio. O próprio basquete de rua surgiu nos bairros pobres das cidades estadunidenses em resposta à exclusão social, ao racismo e à crise econômica que os Estados Unidos atravessaram com a quebra da bolsa de Nova York, em 1929. Desde o final da década de 1970, ela passou a se confundir com o movimento Hip Hop, cujo estilo se reflete nas letras dos rappers, na dança de rua (o break), nas gírias, na arte do grafite e na moda – não por acaso, inspirada no basquete americano.

O Hip Hop chegou ao Brasil no início de década de 1980 por intermédio de equipes de som, das revistas, dos discos, filmes, vídeo clipes e programas de TV. Junto com o estilo, o basquete veio de carona, assim como a indústria de produtos esportivos dos EUA que inundou lojas e o comportamento da juventude.

O gerente da Decathlon Barigui, uma das maiores lojas de esportes de Curitiba, Renan França afirma que o aumento na demanda pelo basquete é evidente, embora ainda não tenha reflexo no mercado. “A gente consegue identificar que tem, sim, um crescimento no último ano. Todo últmo sábado do mês a gente organiza jogos de basquete 3x3. Tem atá 15 times e movimenta bastante gente. Tem um pessoal que participa que vem de São José, de Araucária. Tem quatro times femininos jogando. Com relaçao às vendas tem outras variações, quanto ao momento (econômico) que estamos vivendo, mas pelos eventos que a gente percebe que a procura aumentou tanto pelo basquete de rua, quanto pelo de quadra”, confirma. No caso da loja, o engajamento é de uma das funcionárias, Angela Laschewitz, que é jogadora e organiza os eventos.


Envolvimento
As iniciativas dos próprios grupos de moradores também se destaca. Na Praça Brigadeiro Eppinghaus, no Juvevê, por exemplo, quem reformou a quadra e mantém conservada são os próprios frequentadores, na maioria jovens que moram na região. “A praça já foi citada até na ESPN”, conta Passos. Neste ano, a Liga Interpraças ocorre em ginásios fechados espalhados por diversas regiões da cidade. “Na semana que vem a rodada será no Parque dos Peladeiros. Alguns jogos tem até muito público, só que é difícil porque um lugar fica longe do outro, então ainda falta uma divulgação.

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