‘Ayahuasca foi a ferramenta que me ajudou a mudar’, revela Fábio Elias

- Atualizado às 09:21
Por - Narley Resende
Fábio Elias: “Música é trabalho. Trabalho ao mesmo tempo que me divirto”
Fábio Elias: “Música é trabalho. Trabalho ao mesmo tempo que me divirto” (Foto: Franklin de Freitas)

Uma das bandas de rock mais consagradas de Curitiba, a Relespública, celebra seu aniversário de 30 anos nesta quinta-feira (14) no Jokers. O líder do grupo é Fábio Elias, de 43 anos, “nascido dia 29 de dezembro de 1975, no Hospital Nossa Senhora das Graças, nas Mercês, curitibano de nascença”, como ele mesmo se apresenta quando questionado sobre “quem é Fabio Elias”. Mais do que isso, Elias é músico, cantor, compositor, guitarrista, casado com Catia, pai de \Giulia, 6, e Pietra, de 2 anos. É roqueiro e ex-cantor sertanejo. “Eu vivo de música (…). ‘Ah, você foi para o sertanejo por causa de grana’. Não, eu fiz rock para ganhar dinheiro também”, pontua. É um músico profissional, que entende e explica o significado disso. Ele viveu a evolução dos meios e formatos musicais, partindo da busca por gravadoras, discos, fitas K7, CDs, DVDs, MP3 e, agora, streaming. Fabio Elias viu os ‘inferninhos’ de música ao vivo da cidade evoluírem ao que são hoje. “Nesses 30 anos tudo aconteceu. Foi uma evolução do que era para o que é, mas ninguém sabe aonde vai. Se dizem “você já passou por tudo”, digo “não, a gente está passando por tudo e ainda vai passar por mais”. Esse caminho ainda levou a Relespública para além dos limites da capital paranaense. “Fez tudo que tinha que fazer”, gravou discos em gravadora, com produtora, participou de programa de TV, DVD gravado pela MTV, fazendo shows do extinto Empório São Francisco ao Rock in Rio...

A Reles mantém desde 1989 com os mesmos integrantes, mas com pelo menos uma triste mudança no caminho. “Em 1991, Daniel (Fagundes) entrou na banda e infelizmente, em 1994, só três anos depois, um acidente fatal aqui na cidade vitimou Daniel e ele foi ser nosso produtor lá no céu, nosso integrante nas nuvens”, conta Elias.

Na vida pessoal, Fabio Elias também amargou sérios problemas. Lidou por anos com vício em álcool e drogas. “Limpo” desde junho de 2018, hoje diz lidar com tranquilidade perante a realidade do underground curitibano. Elias atribui sua vitória contra o vício a três questões centrais: amor próprio e decisão; apoio de sua esposa Catia; e ao uso do chá enteógeno Ayahuasca, por meio do ritual do Santo Daime. “Me ajudou a me libertar de um mal e me reencontrar comigo”.

Bem Paraná - Você esteve em outras bandas?
Fabio Elias - Minha primeira banda foi a Relespública. Montei outras bandas depois, como os Garotos Chineses, participei da Aerodiesel, da Grié Forte, que toco até hoje e é uma junção de bandas, um supergrupo de rock curitibano, com Fabio Elias, da Relespública; Oneide Dee Diedrich, da Pelebroi Nao Sei; Raphael Machado, da Dissonantes; e Ivan Rodrigues, filho do nosso saudoso Ivo Rodrigues, da Blindagem. E tenho também alguns projetos paralelos de tributos, que faço, ao The Who, que é o The Wholes, o tributo ao Ira, que é o Clandestino. São bandas que gosto muito e para mim não é nem um tributo, é um prazer. Não tenho pretensão nenhuma de ser igual aos meus ídolos, porque eles são muito grandes, muito mestres. Faço para me divertir. Se não for divertido, não tem graça. rock and roll para mim é isso, é quando acaba o dia e você ter algo para se divertir, algo para fazer, para aliviar a pressão.

BP - A primeira formação da Relespública era diferente?
Elias - A Relespública começou em 1989, com Ricardo (Bastos) e (Emanuel) Moon e eu na banda, mas aí a gente sentiu necessidade de um vocalista. Em 1991, Daniel (Fagundes) entrou na banda e infelizmente, em 1994, só três anos depois, um acidente fatal aqui na cidade vitimou Daniel e ele foi ser nosso produtor lá no céu, nosso integrante nas nuvens. Reles sempre manteve a mesma essência. Depois houve outras formações, mas o trio original está junto até hoje.

BP – A Reles, como dizem, “fez tudo que tinha que fazer”, gravou discos em gravadora, com produtora, participou de programa de TV, DVD gravado pela MTV, do vinil e fita cassete ao MP3 e streaming. “Chegou lá”. O cenário da música mudou muito?
Elias – A gente passou pelo vinil, depois pelo CD, DVD, MP3, clipe... A gente passou toda a transformação da música e do mercado musical. Nesses 30 anos tudo aconteceu. Foi uma evolução do que era para o que é, mas ninguém sabe aonde vai. Quando você acha que está tudo em um formato estabelecido, muda. Se dizem “você já passou por tudo”, digo “não, a gente está passando por tudo e ainda vai passar por mais”.

BP - Vocês se adaptaram ao streaming, aos aplicativos?
Elias – A gente está se adaptando a tudo isso. Nessas mudanças todas, cada vez era com uma editora, uma gravadora, com uma assinatura em um contrato diferente. Então, temos que regularizar tudo isso para poder se adaptar aos novos tempos. A gente sempre se preocupou única e exclusivamente com a banda. Hoje são todos pais de família e não temos só esse emprego. Não vivemos só da banda. O baixista tem o trabalho dele, o baterista tem o trabalho dele, eu tenho outros trabalhos na música. Em um país como o Brasil, onde você não sabe o que vai acontecer daqui a um mês, quem dirá um ano, a gente não pode se programar muito. Tem que saber cobrar o escanteio, correr e cabecear.

BP - Entre as cidades do Brasil, Curitiba é pior para a música?
Elias – Curitiba é a melhor cidade do Brasil. Já fui de reclamar mais, mas a gente não pode. Tem espaço para tudo. Curitiba é uma cidade linda, organizada, que ama o rock, que ama música, que ama o sertanejo, qualquer música que tem festa. Tem restaurantes bons, casas boas de shows. Tem gente muito boa, tem políticos bons, artistas bons, jornalistas bons. Curitiba é uma cidade muito foda, vamos dizer assim.

BP – Você mudou o gênero da sua música para o sertanejo por um tempo. Por quê?
Elias – As pessoas dizem “você foi para o sertanejo para ganhar dinheiro”. Eu vendia limonada quando era criança, para ganhar dinheiro. Precisava de dinheiro para comprar minhas coisas. Para comprar uma corda de guitarra é R$ 50,00 o jogo. Precisa ter um jogo para cada guitarra e uma reserva para cada guitarra. Faça as contas para quem tem seis guitarras, quem tem um estúdio com uma porção de instrumentos para poder trabalhar legal. Tudo é dinheiro. “Ah, você foi para o sertanejo por causa de grana”. Não, eu fiz rock para ganhar dinheiro também. Se me chamarem para um trabalho eu vou fazer, é um trabalho.

BP – Você foi chamado para o sertanejo ou foi uma busca sua, uma análise de mercado?
Elias – Desde criança ouvi música sertaneja. Minha família é do Interior do Paraná. Meu pai é de Wenceslau Braz, minha mãe é do Interior de São Paulo. Meu avô cantava modinha para mim. Aprendi a tocar viola antes de violão e guitarra. Tocava viola quando tirava férias da escola na casa do meu tio no interior. Tinha uma viola pendurada em um prego lá e eu pegava e ficava tocando. A música sertaneja é nossa música popular brasileira. Tom Jobim é nossa música tipo exportação. Mas a música mais consumida no Brasil é a sertaneja, de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Para quem quer viver de música no Brasil, a música sertaneja, entenda, é o principal mercado musical brasileiro. Se quiser entrar para o mercado precisa entender a música sertaneja. A princípio eu queria ser compositor de música sertaneja, compor para esses caras que já estão estabelecidos na música sertaneja. Mas acabei recebendo um convite para cantar e gravar minhas próprias músicas. Eu não esperava esse convite. Foi o produtor Plauto Marote. Na época ele era produtor de Zezé de Camargo e Luciano e Zezé estava com problema na voz, estava fazendo cirurgia, coisa que também passei, fiz cirurgia nas cordas vocais. Então, enquanto ele estava parado esperando Zezé se recuperar eu apareci com as minhas músicas, com um pen drive cheio de músicas minhas. Eles disse “mas essas músicas não são suas? Grave aí”. Falei “mas eu tenho uma banda de rock”. Ele respondeu “se eu tocasse só o que eu gosto só tocava MPB”.

BP – O que você gostou mais de fazer, sertanejo ou rock? Você disse que faz “tudo por diversão”
Elias – Faço tudo por diversão, mas sempre aceito trabalhos com relação à música. Música é trabalho. Trabalho ao mesmo tempo que me divirto. É que nem trabalhar em um parque de diversões. Fazer música sertaneja foi um prazer, foi divertido também. Não foi só por dinheiro. Se fosse, não faria. Quem trabalha só por grana é infeliz.

BP – A Reles vai fazer um show especial de aniversário no dia 14 de novembro. Você considera que a banda está em um trabalho contínuo, planeja uma “retomada” ou uma mudança? Como está a cena musical em Curitiba hoje?
Elias - Sempre existiu e sempre vai existir a cena musical. A Reles está nesta cena, já esteve, está e espero que esteja no futuro também. É uma banda consagrada, não é nova. A gente quer contar a nossa história até aqui e quer a partir daí contar uma nova história. Queremos fazer um álbum novo, fazer uma história nova.

BP – Você já escreveu quantas músicas?
Elias – Não sei. Nunca parei para contar. Tem oito CDs, dois DVDs, meus discos solo, além de músicas que foram lançadas sem gravar em disco, com single, vamos dizer.

BP – Era mais fácil escrever antigamente?
Elias – Eu tinha mais tempo. Com filho agora fica mais difícil. Antes eu só tinha uma preocupação que era fazer música e tocar. Agora é diferente. Tem essa preocupação, mas também tem que cuidar da família. Tenho que cuidar das minhas filhas. Estou mais velho, a criatividade e você passa a ser mais crítico sobre aquilo que você faz. Por um lado é mais fácil fazer aquilo que você já faz, mas tem que cuidar para não ficar uma forma repetitiva, automática que perde a graça. Você não fica tão espontâneo, com aquele criatividade do mundo da fantasia, acaba dando lugar para a realidade.

BP – Você trabalhou com seus ídolos e em grandes shows, como Rock n Rio. Qual show você destaca?
Elias – Houve shows importantes. Rock n Rio, que você citou, mas foram vários festivais. Os de música independente, a Group Rock, Goiânia Noise, Mada, ene festivais espalhados pelo país inteiro. Show especial, eu gosto daquele de tocar em lugar pequeno, que o público está ali, que estamos cuspindo na cara do público e o público cuspindo na cara da gente e todo mundo se abraçando no final, sentir aquela energia ali. Estar junto com o público é onde o artista tem que estar. Fazer show grande é legal, com puta estrutura, palco, iluminação, P.A. (Public Address / caixas de som amplificadas) e milhares de pessoas. É legal demais, quem é que não gosta disso? É o objetivo, isso. Mas voltar sempre a tocar naquele PUB para o nosso público, para a nossa gente, para a nossa galera é recarregar as baterias dos celulares e ficar 100%.

BP – Trabalhando em PUBs, na noite, por tanto tempo, você teve problemas com álcool e outras drogas?
Elias – Tive. Já bebi tudo que tinha que beber, já fumei, já cheirei tudo que tinha que fazer já. Em 30 anos de banda, por 25 fiquei chapado totalmente. Não que eu tenha ficado o tempo inteiro louco. Mas eu sempre bebi e sempre usei droga, desde de moleque. Comecei bebendo cedo, fumando. Experimentei tudo que eu queria. Me viciei em algumas coisas. De junho de 2018 para cá, não bebi mais, não usei mais drogas, não fiz mais mal para a minha saúde, não comprometi mais minha saúde. O corpo não aguenta mais, a cabeça não aguenta mais e eu não aguentava mais aquela situação. Não tinha mais graça nenhuma. A droga já não fazia mais efeito, a bebida já não deixava mais bêbado. Não teve mais sentido para mim. Pensei em mim, pensei nas minhas filhas, no futuro, na música, na minha voz, na minha condição física e espiritual.

BP – Aconteceu alguma coisa pontual?
Elias – Aconteceu. Fui à Igreja Céu da Nova Vida, em Pinhais, tomei o Daime lá. O Ayahuasca foi a ferramenta que me ajudou a mudar. Não virei um “daimista”, não frequento a igreja, não sou do Daime, não fico pregando nada, não tenho nada de religião. Cada um tem sua espiritualidade, seu Deus, suas crenças ou não. Para mim foi a ferramenta que me ajudou a me libertar de um mal e me reencontrar comigo. Ouvi uma voz dizendo assim: “você não nasceu com isso, não precisa disso para viver. O seu eu real é esse”. Eu pus para fora o mal que estava em mim, consegui me libertar daquela coisa ruim, dos pensamentos ruins, da energia ruim e encontrei comigo de novo. Meu amor próprio. Era isso que eu precisava encontrar e recuperar e consegui atraves do Daime.

BP – Existem estudos para o uso terapêutico do Ayahuasca e é comum pessoas que usaram dizerem que se libertaram de vícios, pararam de fumar, beber, etc. Você buscou tomar o chá com esse objetivo concreto, decidido a sair dos vícios?
Elias – Fui. Fui com fé. Tem que ir com fé. Meu nome é Fabio Elias. Minhas duas iniciais formam a palavra fé. Tenho muita fé em tudo o que eu faço. Se eu vou matar uma garrafa de Whisky eu vou com fé. Se vou tomar um Daime para me curar daquilo, vou com fé. Fui pontual em busca da cura. Eu não sabia o que iria acontecer, mas busquei a cura até o fim. Fiz todo o tratamento, tomei as três vezes que tinha que tomar. Tomei mais de três vezes para “dar uma garantida”. Estou consciente e pleno daquilo que fui fazer. Resolveu. Pode ter certeza que resolveu.

BP – Continuar fazendo shows, trabalhando na noite, não pode te levar a recaídas eventuais?
Elias – Hoje vou em bares, toco direto, as pessoas até me oferecem. Sábado passado me ofereceram. “Fábio, vai ali no banheiro, tem uma esticadinha já, carreirinha”. Eu falei “não, obrigado. Não quero. Valeu aí, mas eu não estou afim”. Como diria Rita Lee: “Diga não às drogas, mas seja educado. Diga não, obrigado”. Não precisa parar de fazer as coisas que você faz, parar de tocar, de frequentar bares, frequentar a noite. Não precisa deixar de enfrentar seus demônios se você estiver com fé em você e protegido com uma casca chamada “fé, paz e amor”.

BP – Como é seu relacionamento, com tudo isso?
Elias – Estou muito feliz com meu casamento hoje. Katia é uma mulher que segurou uma barra, me pegou assim em uma mudança muito grande, vindo da música sertaneja, de uma separação, de envolvimento com bebida, com droga. Ela pegou um caminhão de problemas na minha vida, na fase mais difícil da minha vida eu conheci a Catia. Ela foi a mulher mais forte que eu já conheci, de aguentar a barra e não me abandonar. Segurou a onda, me ajudou e foi comigo no Daime, inclusive. Hoje a gente está cada vez mais unidos. Nosso amor só cresceu, com essa demonstração dela. Sou um capricorniano, um baita de um egoísta. Preciso tratar isso em mim. Sou um cara muito pilhado. Não essa de 8, comigo é 80. Então, ela conseguiu que eu chegasse aos 43 anos bem e feliz, em plena forma, amando e amando a mim mesmo. Eu não conseguiria amar ninguém se eu não me amasse. Isso ela me fez entender.

BP - Curitiba já há alguns anos tinha um cenário relativamente fértil para o rock. Como está hoje?
Elias – O rock está na moda agora. O sertanejo deixou de ser a moda que estava na Woods, Shed e o caramba. Agora é rock, cervejarias artesanais, hamburguerias, com essa coisa mais vintage, classic rock. Tem muito rock. Vamos frisar que tem muito cover. Não estou falando que é errado. Eu toco cover também. O mercado está para o cover e tributos. Antes não existia mercado e a gente cavava com as próprias unhas. Existia um mercado de música autoral? Não. Existiam bandas de música autoral. O mercado sempre tentou se organizar e sempre bateu na trave em algum problema ou falta de grana, falta de público, falta de casa de show, gravadora, produtora, sempre faltava um peça nesse quebra cabeça. O cara que vai na Woods, vai no Claymore pra ouvir uma banda cover do Queen. O cara que via dupla sertaneja para pegar mulher, vai no Claymore para pegar mulher agora. Não é a música, enfim, só, é o sexto que move o negócio (risos).

BP - Uma casa paga mais barato para uma banda cover, de modo geral?
Elias – O cover é muito mais prático de se trabalhar. O cara vai lá para curtir um Led Zeppelin cover, Queen cover, The Doors cover, sei lá o que cover. O trabalho autoral o cara vai para ouvir aquele trabalho daquele artista real. Então, tem muito músico. O importante é que está dando trabalho para os músicos, para as bandas. Voltou a ser moda tocar bateria no “retão” (risos)

BP – Tocar é a fonte de renda?
Elias – Sempre foi. Nunca foi gravar disco e nem dar entrevista. Sempre a grana veio do cachê e da bilheteria. O público é que paga as contas. A gente tem que agradecer ao público sempre, porque ele sustenta a vida de um artista.

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