Assessor de Bolsonaro ironiza estudante da PUCPR que perdeu bolsa: 'Dedique-se à carreira de confeiteiro'

- Atualizado às 17:41
Por - Rodolfo Luis Kowalski
(Foto: Reprodução/ Twitter)

Irmão do ministro da Educação Abraham Weintraub e assessor especial do Presidente da República Jair Bolsonaro, o professor de Direito da Unifesp Arthur Weintraub repercutiu nas redes sociais, ontem e hoje (26 e 27 de março), depois de ironizar um aluno da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

O estudante Eduardo Schamne, mestrando em Direitos Humanas e Políticas Públicas pela universidade católica, foi ao Twitter protestar após descobrir que havia perdido sua bolsa de estudos. Isso por causa da Portaria 34/2020 da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), emitida no dia 18 de março, que alterou as regras de redistribuição de bolsas de pós-graduação no Brasil. Em seu tweet, publicado ontem, ele ainda pediu a revogação dessa portaria.

Ao ver a postagem de Eduardo, Arthur resolveu comentar por meio de seu perfil oficial no microblog, ironizando o protesto do rapaz e afirmando: "Dedique-se à sua carreira de confeiteiro".

A alusão à carreira de confeiteiro se deve ao fato de Eduardo, em seu perfil, ter escrito que é "advogado, Mestrando em Direitos Humanos e Políticas Públicas pela PUCPR, Pesquisador em Educação, História e Direito Constitucional, Confeiteiro da DSB ".

No começo da tarde de hoje, depois do caso ganhar vulto no mundo virtual, o próprio Eduardo voltou ao microblog e se posicionou. "A ciência precisa continuar! Sempre pesquisei educação e assim vou continuar. A Educação muda o mundo ( e destrói os mitos)", escreveu.

'No meio de uma pandemia, parar o que está fazendo para perseguir e desdenhar de estudante... Acho um pouco demais"

Em conversa com o Bem Paraná, Eduardo contou que ingressou neste ano no Programa de Pós-Graduação em Políticas Pùblicas da PUCPR. Desde a graduação, relata, já havia focado na área de educação, tendo feito na iniciação científica um trabalho sobre como a educação sexual pode proteger crianças e adolescentes de abuso e exploração sexual, enquanto o Trabalho de Conclusão de Curso foi sobre a história constitucional da Educação.

Para poder bancar os estudos (a mensalidade no mestrado custa cerca de R$ 3 mil), Eduardo aceitou um cargo de assessoria técnica na Câmara Municipal de Araucária, que ocupa desde fevereiro. No meio do caminho, porém, foi aberto um processo para selecionar bolsistas, e ele acabou sendo um dos premiados.

Ontem, quando se encaminhava para a Câmara de Araucária para pedir exoneração - a ideia era foco total no mestrado -, acabou recebendo um e-mail da PUC informando que sua bolsa estava suspensa.

"Estava prestes a pedir exoneração, porque já havia sido contemplado com a taxa (bolsa). Fiquei em quinto lugar no geral da PUC e em segundo da minha turma. Ia me dedicar exclusivamente ao mestrado. Aí, estava indo pedir exoneração, a PUC mandou e-mail, o e-mail que postei, dizendo que nossa bolsa, nossas taxas, haviam sido suspensas por conta da portaria 34."

A postagem no Twitter de Eduardo foi simples e direta. Não mencionou ninguém. A ideia, segundo ele, era ajudar a Associação Nacional dos Pós-Graduandos, que está fazendo um levantamento para verificar quantas bolsas foram suspensas e se, de fato, essas bolsas foram realocadas, como alega o Capes. Horas depois, ficou sabendo da postagem de Arthur Weintraub por meio de colegas - o assessor de Bolsonaro tratou de bloqueá-lo para que ele não pudesse ver a públicação em que foi exposto.

"Ele, os assessores dele, pegaram essa postagem, tiraram print do meu Twitter, viram que sou confeiteiro e fizeram toda a publicação horrível. Só que ele me bloqueou, então não vi a publicação dele. Quando pasou um tempo, um menino me mandou um print e aí que fui ter noção do que estava acontecendo", relata Eduardo. "É um hobby, eu não vivo da confeitaria. Eu tinha um ateliê, mas por conta do mestrado eu fechei", esclarece o rapaz.

Ao saber do que estava acontecendo, a reação do mestrando foi de espanto. "No meio de uma pandemia, o MEC com crises inbtermináveis, e o assessor do presidente, irmão do ministro da Educação, parar o que está fazendo para perseguir e desdenhar de estudante... Acho um pouco demais", diz o jovem. "Na verdade, não tinha motivo nenhum para ele fazer uma coisa daquelas. Não citei ele, não provoquei ninguém, apenas informei que a bolsa havia sido cortada."

O que mais o deixou chocado, no entanto, foi o fato de que o próprio Arthur é mestre e doutor em Direito e professor universitário. "No mínimo deveria entender a importãncia das ciências humanas, das ciências sociais aplicadas, de todo o trabalho que os pesquisadores fazem pelo Brasil, o trabalho de políticas públicas."

Ação judicial e medo de ser obrigado a interromper os estudos

Depois de toda a repercussão nas redes sociais e diversos ataques sofridos, Eduardo foi contatado por um advogado e amigo. A ideia é entrar com uma ação judicial contra Arthur e, possivelmente, outras pessoas que o atacaram no microblog.

O reitor da PUCPR e a coordenadora do programa de pós-graduação também entraram em contato com Eduardo, oferecendo solidariedade, bem como sua professora e orientadora, Amélia Rossi.

O futuro, no entanto, ainda é um tanto nebuloso. "Segunda poderá Segunda poderá haver novo posicionamento em relação às taxas e bolsas. Isso está tirando a paz e sossego de vários mestrandos, não se tem uma certeza do que vai acontecer", explica Eduardo.

Ele não chegou a pedir exoneração do cargo que ocupa em Araucária, mas admite que seu mestrado pode ser afetado de diversas formas. "Este é um ano eleitoral, tem todo um desgaste na Câmara, ritmo muito acelerado de trabalho, então não vou conseguir me dedicar tanto ao mestrado como conseguiria em caso de taxa. Além disso, se o vereador que me contratou perder (a eleição), ano que vem tenho de parar o mestrado, porque não tenho dinheiro para pagar (as mensalidades)."

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