As tardes do povo com o ex-marido da Dercy

- Atualizado às 01:01
Por - Histórias que o Ayrton Baptista Junior vasculha desde o radinho de pilha
Ari Soares morreu em 2010, vítima de câncer, aos 78 anos, em Joinville-SC.
Ari Soares morreu em 2010, vítima de câncer, aos 78 anos, em Joinville-SC. (Foto: Reprodução)

Em 1981, o palco da TV Iguaçu (hoje Rede Massa) era tomado por pessoas que há anos procuravam algum parente ou que pediam médico, advogado e emprego. Em busca de ajuda valia a pena pegar um ônibus que parasse nas Mercês, direto para a fila do “Paraná, Aqui Agora”, atração das tardes do canal 4 curitibano, tendo como apresentador, mentor e aconselhador o radialista Ari Soares, que foi produtor teatral e marido da comediante Dercy Gonçalves nos anos 1960.
Ari passou antes por outro “Aqui e Agora”, o da TV Tupi, do Rio de Janeiro, entre 1979 e 1980. A versão original acabou junto com a emissora, que teve lacrada a concessão após anos de salários atrasados e outras falhas administrativas. Ao se despedir, o programa expôs o drama da própria Tupi, com a transmissão ininterrupta de um apelo dos funcionários ao presidente João Figueiredo. Mesmo na crise, eles pediam a manutenção do canal porque acreditavam que algum empresário poderia revitalizá-lo. A vigília comoveu, mas não impediu o encerramento de uma história de três décadas. No dia 18 de julho de 1980, saiu do ar a Rede Tupi de Televisão.
Com o fim da Tupi, a equipe do programa buscou outras paradas, também no Rio. Ari e alguns colegas levaram o nome “Aqui e Agora” para a TV Bandeirantes. Já diretor Wilton Franco caminhou para a TVS, do iniciante SBT (Sistema Brasileiro de Televisão). Sem rodeios, Silvio Santos deu um nome mais direto para a atração: “O Povo na TV”. A TVS goleou, com Wagner Montes, Sérgio Mallandro e Roberto Jefferson. Ao mesmo tempo, a Bandeirantes desistiu do formato e Ari desembarcou em Curitiba.
A receita trazida pelo ex-marido da Dercy para a TV Iguaçu preenchia quatro horas ou mais de programa, de segunda a sexta, ao vivo, sem reportagens externas. Ao lado do novato repórter policial Ricardo Chab e do experiente radialista e ex-deputado Jorge Nassar, Ari Soares esticava e abreviava dramas e, quando a carga ficava muito pesada, entregava flores para a telespectadora mais fiel no auditório.
A fórmula deu tão certo que Ari e a co-apresentadora Marisa Pires foram convidados, um ano depois, para fazer a mesma coisa na TV Paraná. Outro canal (o 6), outro nome: “Na Boca do Povo”. E o dono da emissora, o deputado federal José Carlos Martinez, aproveitou a ocasião para lançar a candidatura para deputado estadual. Martinez foi eleito (novamente), mas Ari não obteve sucesso nas urnas.
Na metade dos anos 1980, o povo deixou as tardes do canal 4 e do canal 6. Absoluta à noite, a programação das redes nacionais se espalhou por outros horários. Fora da televisão, mas sempre com sucesso, Ari Soares se tornou um amigo dos madrugadores, às quatro da manhã na Rádio Cidade 670.
A televisão brasileira mantém o discurso de Ari Soares. Ecoam diariamente vozes que se apresentam como defensores do povo. É o “mexeu com você, mexeu comigo” que Márcia Goldschmidt consagrou na Rede Bandeirantes. A diferença é que naqueles palcos dos anos 1980 não havia maquiagem, nem marcação de luz. Era simples a tarde que saía do aperto do ônibus direto para as câmeras.

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