Ary Fontoura muito além do jardim

- Atualizado às 18:40
Por - Histórias que o Ayrton Baptista Junior vasculha desde o radinho de pilha
No ar desde 1948, Ary Fontoura se reinventa em tempos de pandemia
No ar desde 1948, Ary Fontoura se reinventa em tempos de pandemia (Foto: Foto: reprodução Instagram)

No ar desde 1948, com atuações divididas entre rádio, teatro, televisão, música e cinema, o curitibano Ary Fontoura interpretou professor, delegado, coronel, deputado, padre, general e até o ex-presidente Lula (no filme ‘Polícia Federal: A Lei É Para Todos’, sobre a Operação Lava Jato). De tantos papeis qual o melhor? O de agora! Em junho de 2020, o ator Ary Fontoura, de 87 anos, vive a simplicidade de Ary Fontoura, aplaudido por um milhão de espectadores. Digo, por um milhão de seguidores (!) no Instagram.

Um clichê avisa que precisamos nos reinventar. Talvez sem procurar reinvenção alguma, Ary se colocou em fotos, direto do jardim de casa, em São Paulo, cercado de flores, receitas de chá e objetos do cotidiano. “O meu quintal tá cheio de maracujá. Se pudesse, mandaria para cada um de vocês”, escreveu na metade do mês o ator aprovado 72 anos atrás (ele tinha apenas 15) em um teste na Rádio Guairacá, de Curitiba. “Tô fazendo minha terapia diária com várias tarefas de casa! Tudo que era velho tá ficando novo, menos eu”, comunicou depois da ginástica com halteres e da pintura de uma grade, mais de seis décadas após criar na praça Rui Barbosa, com o amigo Maurício Távora, o Teatro de Bolso. Pois foi com estas pílulas de um querido diário que este quase nonagenário “vovô fofo”, como definem muitos de seus novos fãs, experimentou o sabor de ser um dos nomes mais citados no Twitter. Sai da frente, Anitta!

A maré é tão boa que periga aumentar no Mercado Livre o preço daquele disco d´Os Versáteis, dupla que Ary formou com outro verbete básico do teatro e da televisão paranaense: a atriz Odelair Rodrigues. Corra para pagar R$ 50 porque o preço vai quadruplicar quando a versatilidade de Ary for chamada pelo “Domingão do Faustão” para cantar ‘Discussão’, samba-canção de Dora Lopes e Genival Lopes, lançado em 1964.

Discussão, aliás, é tudo o que Ary Fontoura não quer. Ele não entra em dividida, embora frise que entre o achismo e a ciência... fica com a ciência! Então, qual é o segredo deste sucesso? Ouso uma aposta: o Ary do dia-a-dia, via Instagram, oferece um ar mais respirável, minimiza a tensão da quarentena, o medo do vírus e o pânico da política. Consciente, este grande ator brasileiro lembra um grande ator norte-americano: Peter Sellers, em “Muito Além do Jardim”. No filme que o cineasta Hal Ashby estreou em 1979, Sellers é um ingênuo jardineiro transformado em celebridade porque suas falas sobre plantas são recebidas como filosofia pelos telespectadores. Uma delas: “Se as raízes estão bem, todo o resto está bem”. Alguém tira a razão do jardineiro?

Mais sobre Ary Fontoura você encontra em uma biografia escrita pelo jornalista Rogério Menezes: “Ary Fontoura” é parte da Coleção Aplauso, uma série de livros sobre artistas brasileiros, publicada pela Imprensa Oficial do Governo do Estado de São Paulo.

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