Ao imaginar um mundo sem os Beatles, ‘Yesterday’ faz rir e chorar

- Atualizado às 22:26
Por - Josianne Ritz com colaboração de Henrique Romanine

O filme ‘Yesterday’, nova obra do diretor Danny Boyle (‘Quem Quer Ser um Milionário?’) e escrito por Richard Curtis (‘Cavalo de Guerra’), que estreia nesta quinta (29), faz uma pergunta instigante e ao mesmo tempo angustiante para qualquer beatlemaníaco ou consumidor ávido de música: ‘E se os Beatles nunca tivessem existido?’

O filme conta a história de Jack Malik (Himesh Patel, da série ‘Damned’), um músico que sonha com o sucesso, faz shows para plateias vazias e desanimadas, mas ganha a vida como funcionário de um supermercado no bucólico condado de Suffolk, na Inglaterra. A única pessoa que aposta no talento dele é Ellie Appleton (Lily James, de ‘Em Ritmo de Fuga’ e ‘O Destino de uma Nação’), uma mistura de melhor amiga, crush e empresária. Após outro show vazio, ele decide que vai largar a música, mas quando está voltando para casa de bicicleta, é atropelado por um ônibus durante um estranho apagão, que dura 12 segundos e atinge o mundo todo.

Após se recuperar, Jack ganha um violão novo dos seus amigos (pois perdeu o seu no acidente), e começa a cantar e tocar ‘Yesterday’, de Paul McCartney, gravada em 1965 no álbum ‘Help!’, dos Beatles. Emocionados, os amigos perguntam quando ele compôs aquela canção. Naquele momento, o músico começa a perceber que ninguém sabe quem são os Beatles, e talvez ele seja a única pessoa no mundo que conhece as composições dos 13 álbuns feitos pelo quarteto de Liverpool. Jack recorre ao Google para confirmar sua teoria e descobre que não há sinal da banda ou seus integrantes. E é aí que a solução e os problemas do músico começam de fato. Ele decide cantar e tocar as músicas dos Beatles como se fossem suas. O sucesso chega, como aconteceu com John, Paul, George e Ringo, mas na era da internet, com uso das redes sociais, streaming, e muita intromissão dos executivos das gravadoras, em uma crítica sem disfarces ao mercado fonográfico atual. Crítica reforçada pela excelente participação de Ed Sheeran que, no papel dele mesmo, é quem leva Jack para abrir seus shows e o mostra para o mundo. Um dos momentos mais hilários do filme é quando Sheeran tem a ideia de trocar ‘Hey Jude’ por ‘Hey Dude’ para conquistar os mais jovens.

As referências aos Beatles aparecem o tempo todo: nas falas dos personagens, nas passagens de tempo, nas ironias, mas sem transformar a narrativa num fan service. Pelo contrário, as referências são tão discretas e inteligentes que soam quase como easter eggs para os fãs. Tudo mesclado com uma edição ágil, com cortes rápidos, slow motion, e recursos gráficos que dão ao filme uma agilidade de videoclipe, bem ao estilo de ‘Trainspotting’, também dirigido por Danny Boyle.

O elenco também se destaca pelo entrosamento e cumplicidade em cena. Enquanto Patel consegue demonstrar, apenas através do olhar, toda a gama de sentimentos contraditórios de seu personagem, Lily é o contraponto ideal. Sempre graciosa em cena, o seu estilo de interpretação remete ao de Winona Ryder, em seus áureos tempos de Hollywood, o que resulta em um charme a mais para o filme. Mas o grande destaque fica a cargo do personagem Rocky, vivido por Joel Fry. Com um timing perfeito de comédia, ele é responsável por algumas das cenas mais engraçadas do longa.

Para quem não é fã dos Beatles, o filme pode soar apenas como uma comédia romântica bem feita, bem editada, bem escrita, já que boa parte dele é dedicada à relação entre Jack e Ellie, amigos de infância que transitam na perigosa “coluna” da amizade colorida. Aliás, o roteirista Richard Curtis é especialista nisso, afinal assina ‘Simplesmente Amor’, ‘Questão de Tempo’ e ‘Quatro Casamentos e um Funeral’. Quem não é fã também não vai gargalhar com as piadas “internas” dos beatlemaníacos.

Mas para quem é fã dos Beatles, o filme é mais que uma homenagem à banda e mais que uma deliciosa sequência de canções e referências do quarteto. O longa leva os fãs a uma montanha-russa de sensações, da tristeza, ao imaginar o mundo sem Paul, John, George, Ringo, Penny Lane, Eleanor Rigby, Hey Jude e outras tantas composições, à reflexão sobre o tamanho da revolução cultural que os Beatles promoveram.

Para os beatlemaníacos, o filme ‘Yesterday’ soa como uma espécie de renovação de votos. É o fortalecimento da relação de uma vida, que ainda mantêm as borboletas no estômago a cada canção, a cada acorde, a cada verso, a cada nova masterização lançada, a cada vídeo antigo que surge no You Tube, a cada biografia que chega às livrarias.

Pena de quem vive num mundo sem os Beatles.

Sem quarteto de Liverpool, não haveria cultura pop

Engana-se quem pensa se os Beatles não existissem, o mundo perderia “apenas” as músicas. Sem eles, não teríamos shows em estádios, transmissões via satélite de apresentações musicais, videoclipes, e algumas das técnicas de som mais usadas na música pop atual.

Em termos de produção musical, os Beatles trouxeram inovações que hoje são indispensáveis no mundo da música e no mercado. A técnica do ‘Fade In’, que é um termo técnico do audiovisual que significa o aparecimento gradual do som e da imagem, foi utilizada pela primeira vez por eles. Os Beatles utilizaram pela primeira vez feedback, loops em tapes, double tracking e variações de áudio em suas músicas e trouxeram novos instrumentos como cítara, metais, e instrumentos eletrônicos para o rock. Paul, John, George e Ringo criaram um novo conceito, o art rock, um subgênero do rock com influência de música experimental e de vanguarda. ‘A Day in the Life’, por exemplo, foi a primeira canção de rock acompanhada por uma orquestra sinfônica e é considerada a primeira opereta do rock.

Os Beatles também inventaram a MTV. Como? Bem, o videoclipe só surgiu pela solução que o quarteto inventou para suas aparições na televisão. Como não podiam estar em vários lugares e programas ao mesmo tempo a banda começou a enviar vídeos. Eles foram a primeira banda britânica a fazer sucesso fora do seu país, a fazer show em estádio e a fazer uma transmissão mundial via satélite. Antes deles, a ideia de colocar milhares de pessoas em estádios destinados a esportes era irreal.
O primeiro encarte de disco da história foi do icônico Sgt Peppers Lonely Heart Club Band, que também foi o início do conceito completo de um álbum considerado “conceitual”.

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