Após assassinatos e onda de denúncias, Aliança Nacional LGBTI+ lança manual para evitar a violência

- Atualizado às 19:05
Por - Josianne Ritz
(Foto: Reprodução)

Após o assassinato de dois jovens homossexuais em Curitiba com suspeita de homofobia e a constatação de um aumento de denúncias de crimes contra gays durante a pandemia, a Aliança Nacional LGBTI+ lançou nesta segunda (10) o Manual para Evitar a Violência LGBTIfóbica (veja na íntegra abaixo). "A nossa Aliança acompanha todas as discriminações, violências, incentivo ao discurso de ódio e assassinatos contra integrantes da comunidade LGBTI+, colhemos provas e levamos para a polícia, para o Ministério Público e órgãos competentes. O Manual ganhou uma nova edição, porque quando fizemos a primeira vez, não tínhamos internet e nem aplicativos. Agora está atualizado, com revisão do departamento jurídico da Aliança e policiais militares. Além dos assassinatos recentes, ainda investigação pela polícia, estamos percebendo um aumento da violência contra os LGBTI+ durante a pandemia", afirmou o diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI+, Toni Reis, em entrevista ao Bem Paraná. 

Para ele, a pandemia tem deixado os cidadãos mais irritados que o comum e tem inflado os discursos de ódio, inclusive de religiosos fundamentalistas: "A pandemia está reforçando o que essas  pessoas que já eram, homofóbicas. Temos atuado contra esses crimes, com o apoio dos órgãos públicos, como secretaria de Segurança, Ministério Público e Defensoria Pública". Outro problema enfrentado, segundo Toni Reis, é a subnotificação de crimes: "Há muitos casos onde as vítimas, seja de qualquer crime, não denuncia porque não é assumida LGBTI+ ou porque a família não quer divulgar. Muitas denúncias chegam pelas redes sociais. Por isso precisamos que todos ajudem neste combate, com denúncias". 

Polícia investiga ligação entre três assassinatos 

A Polícia Civil do Paraná investiga a possibilidade de três mortes recentes de homossexuais estarem ligadas. Duas delas aconteceram em Curitiba e uma terceira foi em Abelardo Luz, cidade de Santa Catarina. A primeira vítima em Curitiba foi um enfermeiro, de 28 anos, de Londrina, que morava em Curitiba há poucos meses. Ele foi encontrado com sinais de tortura e sufocamento no seu apartamento, na Vila Lindóia, no dia 30 de abril, após não responder as mensagens de amigos e familiares por três dias. 

 A segunda vítima, um estudante de medicina de 25 anos, natural de Campo Grande (MS) que morava na capital paranaense desde 2017, foi encontrada no dia 5 de maio também com sinais de sufocamento  com o rosto coberto por uma manta. Segundo o coordenador jurídico da Aliança, Marcel Jeronymo, as investigações também cogitam a ligação dos assassinatos em Curitiba com a morte de um professor universitário, de 36 anos, em dia 16 de abril na cidade de Abelardo Luz (SC), a mais de 400 quilômetros da capital paranaense. O carro da vítima foi roubado pelo autor do crime e encontrado na cidade de Almirante Tamandaré, a 15 quilômetros de Curitiba. "Nós só fizemos a ligação entre os crimes após a segunda vítima. Quando soubemos da morte em SC, que a princípio era latrocínio também passamos a acompanhar as investigações lá. O modus operandi do assassino é o mesmo nos três casos indicando uma conotação homofóbica, até porque tudo indica que as vítimas foram encontradas pelo autor através de aplicativos. Estamos repassando todas as informaçõs para a polícia. Esperamos que nos próximos dias o suspeito seja preso", explicou Jeronymo. A polícia não quer adiantar detalhes da investigação.

ASSASSINATOS DE PESSOAS LGBTI+ NO PARANÁ - 1975-2021

ANO TOTAL

1975 2
1976 1
1977 1
1980 1
1981 1
1983 3
1985 1
1986 4
1987 1
1988 5
1989 3
1990 1
1991 1
1992 5
1993 12
1994 9
1995 2
1996 2
1997 8
1998 5
1999 8
2000 4
2001 6
2002 11
2003 3
2004 9
2005 2
2006 7
2007 4
2008 4
2009 25
2010 13
2011 12
2012 19
2013 15
2014 8
2015 11
2016 15
2017 23
2018 23
2019 15
2020 7
312


Manual para Evitar a Violência LGBTIfóbica - 11 dicas para evitar ser morto(a) ou espancado(a) por pessoas LGBTIfóbicas

1 Não ande sozinho

Os grupos de ódio preferem como vítimas as pessoas mais vulneráveis. Pessoas alcolizadas ou sob efeito de drogas, pessoas com aparência mais fraca, que estão andando sozinhas durante a noite em lugares com pouco ou nenhum movimento, portanto evite se colocar nestas situações.

2 Não reaja à ofensa verbal ou esbarrões

Uma das táticas dos grupos skinheads (extremistas) é promover um confronto e depois espancar a vítima. Eles podem passar e xingar, dar um esbarrão, derrubar a sua bebida, ou fazer algo infantil que lembra o bullying nas escolas. Se alguém te xingar gratuitamente ou provocar, procure uma autoridade policial e denuncie. Quando detidos/as, eles/as alegam que ocorreu uma briga comum, com trocas de ofensas.

3 Saia de perto

Uma outra prática comum é dizer que você estava dando em cima do/da agressor/a ou dando em cima de sua/seu namorada/o deles, criando qualquer tipo de intriga. Lembre-se que você estará sozinho e eles/as terão testemunhas caso sejam localizados. Se você ver grupos se aproximando, não deixe eles te abordarem, fique perto de outras pessoas ou saia do local. Normalmente eles vão abordar a vítima pedindo um cigarro ou isqueiro, depois perguntar por que você está olhando. Geralmente as agressões não precisam de motivos. Fique atento/a ao seu redor, mesmo em ambientes mais movimentados.

4 Falsos gays ou garotos de programa

Outro método comum são criminosos/as em bares, se passando por gays. As mulheres gayfóbicas geralmente ajudam nesta prática. apresentam os “amigos” e insistem para que você fique com eles. Esses/as criminosos/as podem ainda se passarem por gays ou por garotos de programa em aplicativos e locais de pegação, e na internet. Se você conheceu alguém através de aplicativos de encontro e acertou ter relação, peça uma foto do rosto da pessoa, faça um print e mande para duas ou três pessoas amigas. Peça também um número de telefone e/ou whatsapp, por fora do aplicativo, para maior segurança Em caso de infortúnio, facilitará a identificação.

5 Não confie no anonimato dos aplicativos

Investigue se a pessoa é real ou fake. Tem redes sociais? Algum amigo seu conhece?
De preferência, marque o primeiro encontro em lugar público.
Informe um amigo sobre seus encontros, compartilhe localização/endereço.
Identificar na portaria, sem máscara, para câmaras de segurança.

6 Corra e grite

Caso você perceba que está em situação de risco, corra para um local movimentado e iluminado, grite alto por socorro. Esta tática inibe as agressões, pois chama a atenção de outras pessoas que podem ajudar você. Não tente lutar contra eles/as. Além de treinados/as para a violência, eles contam com estratégias para cometer esses crimes, conhecem o terreno onde atuam e estão em maior número.

7 No carro

No carro, prefira andar de vidros fechados, evitando abordagens inesperadas. Varie rotas, horários e locais onde estaciona. Assim que entrar no veículo, procure sair imediatamente ao invés de perder tempo procurando objetos ou mexendo no celular.

8 Não leve para casa

Grande parte dos assassinatos gayfóbicos ocorrem quando a vítima leva desconhecidos/as mal intencionados/as para casa. Prefira pessoas indicadas por amigos e só faça programa depois de ter certeza que a pessoa é de confiança. Prefira motéis, hotéis, cinemões, vídeo-locadoras especializadas, locais com câmeras de segurança e não aceite convites para lugares desconhecidos. Se acontecer de levar para casa, não o/a esconda do porteiro ou de vizinhos, eles podem ajudá-lo na hora do perigo. É sempre bom ter uma relação amigável com esse pessoal. Na hora do babado, eles/as sempre são solidários/as.

9 Drogas e bebidas

Além de te deixarem mais vulneráveis, não aceite drogas e bebidas de estranhos/as pois podem conter soníferos – o famoso “Boa noite Cinderela”. Em um bar, boate ou balada, se você precisar ir ao banheiro, leve o copo consigo; caso esqueça o copo invente uma desculpa e jogue o líquido fora. No caso de sair para consumir em excesso substâncias que tiram a sua capacidade de julgamento, avise amigos/as e parentes. Não ande sozinho, pegue um táxi ou uber. Jamais aceite carona de estranhos/as.

10 No pior caso

Se você for vítima de alguma violência e não conseguir fugir, lembre-se de proteger órgãos vitais e a cabeça. Normalmente as vítimas são jogadas no chão, dominadas e chutadas com coturnos. Entre as armas mais usadas estão as armas brancas, utensílios com pregos, tacos de baseball e barras de ferro.
Fique em posição fetal e enrijeça a musculatura para amortecer os golpes. Lembre-se de gritar por socorro, mas proteja a cabeça com as mãos. Se tiver a oportunidade de fugir, fuja. Ou se finja de morto/a no pior das hipóteses.

Não pragueje, xingue ou diga que vai denunciar eles nesta hora, isso pode irritá-los/as mais ainda.

11 Denuncie, registre – LGBTIfobia é Crime

Se você ver algum movimento suspeito, alerte as pessoas próximas, as autoridades policiais e seguranças dos estabelecimentos. Se for testemunha, fotografe ou filme de maneira que não te coloque em risco, até mesmo antes da situação ficar tensa. Denuncie sempre para a polícia e nunca deixe de registrar o boletim de ocorrência se você for vítima. São estes dados que ajudam a criar política públicas de segurança mais eficientes. O

Denuncie o caso aos grupos de defesa de LGBTI+
Denuncie na Central de Central Nacional de Denúncias da Aliança Nacional LGBTI+ (https://bit.ly/3mN8jOA)
Ligue para o Disque 100, é um número onde você pode denunciar qualquer violência, inclusive as você apenas presenciou.

Lembrem-se: ainda estamos em pandemia. Isolamento social ainda é a melhor escolha, até a vacina chegar para todo mundo.

Manual elaborado pela Aliança Nacional LGBTI+ e parcerias, baseado na cartilha “Gay vivo NÃO dorme com o inimigo” e o “ALERTA: 10 dicas para evitar ser morto(a) ou espancado(a) por um LGBTIfóbico”, do Grupo Gay da Bahia - GGB

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