A voz que ganhou placa do Ibope

Por - Histórias que o Ayrton Baptista Junior vasculha desde o radinho de pilha
(Foto: Divulgação)

Muitos dizem que os curitibanos são de poucas palavras, mas os cariocas não tiveram de Haroldo de Andrade esta impressão. O locutor que ainda adolescente soltou a voz nos alto-falantes da Praça Tiradentes foi o dono das manhãs na Rádio Globo, do Rio de Janeiro, entre 1961 e 2002, com mensagens de otimismo, leituras de histórias de ouvintes, conversas com artistas e debates sobre os temas mais palpitantes. Um senhor comunicador!

Entre a Tiradentes e o estúdio da Globo, Haroldo trabalhou em outra potente emissora, a Rádio Clube Paranaense. Na Rua Barão do Rio Branco, o menino pediu uma chance mesmo que não fosse para os microfones. Como era preciso estar perto deles nem que fosse com uma vassoura na mão, topou fazer a faxina.

A primeira vez de Haroldo no rádio foi como a de outros tantos locutores. Faltou o titular e, sem outra voz por perto, o sonoplasta chamou o faxineiro para o microfone. E dali Haroldo não saiu mais. O jovem locutor nem esquentou muito o lugar na Clube. Aos 20 anos, embarcou para o Rio de Janeiro.

Em 1954, grandes elencos, novelas, humorísticos e musicais preenchiam a imaginação de milhões de ouvintes. Os que moravam no Rio de Janeiro podiam bater ponto nas rádios Nacional, Mayrink Veiga e Tupi, que se orgulhava de ter o ‘Maracanã dos auditórios’, um espaço de 1.500 lugares. Multidões sintonizavam os programas apresentados por Ary Barroso, Paulo Gracindo e César de Alencar.

Haroldo de Andrade chegou à uma estação sem multidão. Mas a Rádio Mauá possuía, pelo menos, um aparelho de grande utilidade: o telefone. Na ‘emissora do trabalhador’, estatal como a cobiçada Nacional, o jovem radialista sabia que não roubaria o público dos auditórios e, por isso, criou o ‘Musifone’: o ouvinte telefonava, batia papo com o locutor, pedia uma música e ainda podia ganhar prêmios.

No início dos anos 1960, a capital fluminense já tinha três canais de televisão (Tupi, Rio e Continental) e os auditórios começaram a trocar de mídia. Aos poucos, o patrocínio do sabonete das estrelas das radionovelas se transferiu para as telenovelas. O que era apenas ouvido passou também a ser visto. Encerrada a era dos grandes elencos, o rádio buscou novos formatos, mais enxutos.

Emissora que fora coadjuvante durante o auge da Nacional, a Rádio Globo viu em Haroldo um novo tempo e lhe entregou as manhãs, em 1961. O telefone continuou ativo, não só para os ouvintes. Vinicius de Moraes, Roberto Carlos e Tim Maia, entre tantos, foram entrevistados no ‘Programa Haroldo de Andrade’, um campeão de audiência, de segunda a sábado entre 9 da manhã e meio-dia. Na última hora, às onze, entravam os ‘Debates Populares’, quadro que recebia médicos, psicólogos, atores, jornalistas e escritores para conversas sobre o tema da hora, fosse este a lei do divórcio, o sistema de saúde pública, o metrô, as eleições diretas ou o fio dental.

Tal fórmula é comum hoje no rádio e na televisão, mas não era quando o Rio de Janeiro escutou pela primeira vez a voz de Haroldo acompanhada pela versão de Ray Conniff para o ‘Concerto Nº 1 para Piano e Orquestra’, de Tchaikovsky. Foi esta a trilha sonora do ‘bom dia’ de Haroldo de Andrade. Nos anos 1990, quando completou trinta anos de liderança, este curitibano adotado pelos cariocas ganhou uma placa do Ibope. Uma placa de reconhecimento pelo sucesso, para quem ninguém duvidasse (se é que alguém duvidava) do alcance do dono das manhãs.

*****
Estão disponíveis no YouTube inúmeros áudios de e sobre Haroldo de Andrade (1934-2008). A história do jovem faxineiro é narrada em um ‘bom dia’ de Haroldo de Andrade Júnior, que seguiu a trilha do pai, na Rádio Tupi.

Para o serviço de alto-falante da Praça Tiradentes, Haroldo (pai) foi indicado por Vicente Mikos (1928-2013), radialista curitibano que se especializou em eventos religiosos, como as novenas transmitidas pela extinta Rádio Paraná (hoje Evangelizar).

Comentários

© 2018 Barulho Curitiba