25 anos de Pulp Fiction, o filme que mudou o jeito de se fazer cinema

- Atualizado às 18:23
Por - Henrique Romanine
(Foto: Divulgação)

Parece que foi ontem, mas lá se vão exatos 25 anos do lançamento de Pulp Fiction nas telas do festival de Cannes (mais especificamente, em 12 de maio de 1994). Nunca na história do cinema, a sétima arte e o pop estiveram tão interligados quanto nessa obra-prima de Quentin Tarantino, que mudou o jeito de se fazer arte e entretenimento.

 

Quando ainda era um simples balconista de video-locadora, Tarantino costumava assistir dezenas de filmes, o que o levou a desenvolver sua paixão pelo cinema e a vontade de trabalhar na área. Mas toda a sua pretensão, misturada com a memória cinematográfica prodigiosa, levou Tarantino a construir um mundo particular dentro do cinema. A sua estreia nas telonas, com Cães de Aluguel (1992), já demonstrava a sua capacidade inventiva de costurar um roteiro recheado de frases cortantes e memoráveis, com um sem número de referências pop, característica essa elevada à enésima potência em Pulp Fiction, o seu segundo filme como diretor.

 

Apesar de Cães de Aluguel ter chamado a atenção e apontado para uma possível renovação do gênero cinematográfico, todo o modo de se fazer cinema foi implodido e reconstruído mesmo, através do estouro de Pulp Fiction. Tony Scott e Oliver Stone ainda tentaram fazer a sua parte, adaptando dois roteiros de Tarantino (Amor à Queima Roupa e Assassinos por Natureza), mas nenhuma das obras atingiu o cinismo, o humor negro, as referências e a capacidade de reinvenção demonstradas com a obra-prima de 1994.

 

Vejamos: excetuando os filmes de Martin Scorsese, em meados dos anos 90, o cinema não andava exercendo o seu papel primordial, que era o de confrontar e questionar o público e a própria indústria, ao mesmo tempo em que conseguia entreter e gerar lucro. Existia todo o cinemão-espetáculo popularizado por George Lucas e Steven Spielberg, calcado em histórias fantasiosas e recheadas de efeitos especiais, mas eram poucos filmes que conseguiam mexer com os nervos e as expectativas do público e, mesmo assim, se tornarem populares e acessíveis. Quando uma obra conseguia entreter e fazer os espectadores pensarem, ela normalmente não se tornava popular, e ficava restrita ao circuito dos “filmes de arte”. Com Pulp Fiction, Tarantino derrubou todas as barreiras entre o acessível e o erudito, mostrando que era possível fazer filme de entretenimento consistente e, ainda assim, conquistar o público menos afoito a obras experimentais.

 

Obviamente, isso não torna Pulp Fiction o suprassumo da “quebra de barreiras” no cinema, até porque, outros filmes já realizaram feitos semelhantes em outras décadas. Mas a sétima arte como conhecemos hoje deve muito à obra de Tarantino. Da escolha nada comum de entregar personagens complexos a atores considerados limitados pela crítica (e pelo próprio público), assim como o uso de músicas, não apenas como maneira de pontuar momentos específicos de um filme, mas como um personagem próprio da narrativa. Culminando na construção de roteiros cheios de idas, vindas e muitas informações, o que levava o público a raciocinar sobre todas as cenas apresentadas na tela.

 

Ao levar a Palma de Ouro em Cannes por seu filme, Tarantino disse: “Meu propósito não é fazer filmes que unam as pessoas, mas que as dividam”. A fala pretensiosa do diretor, ao invés de ocasionar repulsa, levou a obra a angariar ainda mais popularidade, respeito, respaldo e vários prêmios, como o Oscar de roteiro original. Além de obrigar o público a ter a necessidade de debater um filme, Tarantino os tirou da zona de conforto, não subestimando os espectadores e confiando a eles, a capacidade de raciocínio sobre uma determinada obra.

 

Além do mais, Pulp Fiction é um filme que não tem vergonha de ser filme. É um grande espetáculo em sua camada erudita, e ainda mais genial em sua camada popular. Todas as referências que Tarantino usa, de cinema, música, literatura e cultura pop no geral, são formas de se reverenciar a arte como um todo. Quantas vezes não nos pegamos buscando elementos de filmes e séries que nos lembram outras obras? Foi exatamente isso que Tarantino fez, ao construir o seu paraíso cinematográfico.

 

Mas a herança mais importante que Pulp Fiction deixou foi a necessidade de se investir na direção de atores. Em tempos em que astros e estrelas ficam condicionados à repetição de papéis interpretados inúmeras vezes, ou relegados a coadjuvantes de luxo de efeitos especiais (tanto na década de 90 quanto nos dias atuais), Tarantino nos mostra a possibilidade de escolher o elenco certo, com coragem suficiente e desprendimento total para se entregar às maiores performances e loucuras propostas pelo roteiro. Até porque, o cinema é alma, é a representação dos anseios e necessidades do ser humano e, se esse propósito perder o terreno para a técnica, não existirá mais o espaço para a reflexão. Goste você ou não, precisamos de mais Pulp Fictions, em qualquer um dos ramos da arte, para continuarmos a refletir, a raciocinar, a pensar.

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