25 anos de Pulp Fiction, o filme que mudou o jeito de se fazer cinema

- Atualizado às 19:06
Por - Henrique Romanine
Uma Thurman, como Mia Wallace.
Uma Thurman, como Mia Wallace. (Foto: Divulgação)

Parece que foi ontem, mas lá se vão exatos 25 anos do lançamento de Pulp Fiction (estreou em 12 de maio de 94, no festival de Cannes, e em 14 de outubro do mesmo ano, nas telas de cinema dos Estados Unidos). Poucas vezes na história, o cinema e o pop estiveram tão interligados quanto nessa obra-prima de Quentin Tarantino, que mudou o jeito de se fazer arte e entretenimento.

 

Quando ainda era um simples balconista de video-locadora, Tarantino costumava assistir dezenas de filmes, o que o ajudou a desenvolver sua paixão pela sétima arte e a vontade de trabalhar na área. Mas toda a sua pretensão, misturada com a memória cinematográfica prodigiosa, levou Tarantino a construir um mundo particular dentro do cinema. A sua estreia nas telonas, com Cães de Aluguel (1992), já demonstrava a sua capacidade inventiva de costurar um roteiro recheado de frases cortantes e memoráveis, com um sem número de referências pop, características elevadas à enésima potência em Pulp Fiction, o seu segundo filme como diretor.

 

Apesar de Cães de Aluguel ter chamado a atenção e apontado para uma possível renovação do gênero cinematográfico, todo o modo de se fazer cinema foi implodido e reconstruído através do estouro de Pulp Fiction. Tony Scott e Oliver Stone ainda tentaram fazer a sua parte, adaptando dois roteiros de Tarantino (Amor à Queima Roupa e Assassinos por Natureza), mas nenhuma das obras atingiu o cinismo, o humor negro, as referências e a capacidade de reinvenção demonstradas com a obra-prima de 1994.

 

Vejamos: Em meados dos anos 90, excetuando os filmes de Martin Scorsese, o cinema não andava exercendo o seu papel primordial, que era o de confrontar e questionar os espectadores e a própria indústria, ao mesmo tempo em que conseguia entreter e gerar lucro. Existia todo o cinemão-espetáculo popularizado por George Lucas e Steven Spielberg, calcado em histórias fantasiosas e recheadas de efeitos especiais, mas eram poucos filmes que conseguiam mexer com os nervos e as expectativas do público e, mesmo assim, se tornarem acessíveis. Quando uma obra conseguia, além de chamar a atenção das pessoas, levá-las a pensar, ela normalmente não se tornava popular, e ficava restrita ao circuito dos “filmes de arte”. Com Pulp Fiction, Tarantino derrubou todas as barreiras entre o acessível e o erudito, mostrando que era possível fazer filme de entretenimento consistente e, ainda assim, conquistar o espectador menos afoito a obras experimentais.

 

Obviamente, isso não torna Pulp Fiction o suprassumo da “quebra de barreiras” no cinema, até porque outros filmes já realizaram feitos semelhantes em outras décadas. Mas a sétima arte como conhecemos hoje deve muito à obra de Tarantino. Da escolha nada comum de entregar personagens complexos a atores considerados limitados pela crítica (e pelo próprio público), assim como o uso de músicas escolhidas a dedo, não apenas como maneira de pontuar momentos específicos de um filme, mas como um personagem próprio da narrativa. Culminando na construção de roteiros cheios de idas, vindas e muitas informações, o que levava os espectadores a raciocinarem sobre todas as cenas apresentadas na tela.

 

Ao levar a Palma de Ouro em Cannes por seu filme, Tarantino disse: “Meu propósito não é fazer filmes que unam as pessoas, mas que as dividam”. A fala pretensiosa do diretor, ao invés de ocasionar repulsa, levou a obra a angariar ainda mais popularidade, respeito, respaldo e vários prêmios, como o Oscar de roteiro original. Além de obrigar o público a ter a necessidade de debater um filme, Tarantino os tirou da zona de conforto, não subestimando os espectadores e confiando a eles a capacidade de raciocínio sobre uma determinada história.

 

Além do mais, Pulp Fiction é um filme que não tem vergonha de ser filme. É um grande espetáculo em sua camada erudita, e ainda mais genial em sua camada popular. Todas as referências que Tarantino usa, de cinema, música, literatura e cultura pop no geral, são formas de se reverenciar a arte como um todo. Quantas vezes não nos pegamos buscando elementos de filmes e séries que nos lembram outras obras? Foi exatamente isso que Tarantino fez, ao construir o seu paraíso cinematográfico.

 

Mas a herança mais importante que Pulp Fiction deixou foi a necessidade de se investir na direção de atores. Em tempos em que astros e estrelas ficam condicionados à repetição de papéis interpretados inúmeras vezes, ou relegados a coadjuvantes de luxo de efeitos especiais (tanto na década de 90 quanto nos dias atuais), Tarantino nos mostra a possibilidade de escolher o elenco certo, com coragem suficiente e desprendimento total para se entregar às maiores performances e loucuras propostas pelo roteiro. Até porque, o cinema é alma e a representação dos anseios e necessidades do ser humano e, se esse propósito perder o terreno para a técnica, não existirá mais o espaço para a reflexão. Goste você ou não, precisamos de mais Pulp Fictions, em qualquer um dos ramos da arte, para continuarmos a refletir, a raciocinar, a pensar.

Escute a trilha sonora de Pulp Fiction abaixo:

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